
O meu Alentejo é a terra onde o sol e o tempo escolheram morar. Por isso, como escreve o poeta, “o Alentejo é onde o tempo repousa”. Quem sabe, seja por isso que a luz aqui se reclina com aquela suavidade de que o céu é feito, criando um calor que é também uma boa metáfora do povo, caloroso, alegre, único. São valores que não se impõem; oferecem-se com a generosidade própria de quem, com tão pouco, consegue dar tanto! Aquela hospitalidade que nasce da serenidade calorosa, por isso “quem vem por bem, senta-se à sombra”. Essa sombra, porque a natureza ajuda, é uma azinheira, um sobreiro, ou até mesmo a sombra do abraço genuíno, da partilha e do cante.
As planícies alentejanas, extensas, infinitas, resguardam silenciosamente a profundidade do carácter bom e generoso destas gentes que as habitam, mas muito mais que isso, as compreendem. Por isso, “no Alentejo aprende-se o valor do horizonte”, porque a imensidão da paisagem ensina a olhar para dentro, para perto e (tanto quanto) para longe, pois “não há longe, nem distância” e é sempre ali. Aparentemente, a beleza reside sempre na simplicidade; mas a verdadeira riqueza — da terra, das pessoas — mostra-se na calma, no detalhe, no que não se apressa porque “no Alentejo até o silêncio tem história”.
E é à mesa que essas histórias se cruzam, se encontram e se partilham como uma arte esquecida de bem conversar e contar, histórias, estórias e vida. A mesa alentejana não é apenas lugar de refeição, é lugar de culto quase sagrado, na qualidade do que se conta e nos valores íntimos e imensos que se partilham. É espaço de continuidade entre gerações, por isso “no Alentejo, comer é conversar”. Aqui o pão é memória, o vinho é laço alegre e cada prato celebração discreta da vida e dos valores comunitários. À mesa, o passado não existe, pois está fundido no presente e senta-se ao lado do futuro.
O meu Alentejo é material, imaterial, visível e invisível. É físico e metafísico. O cante alentejano, esse nosso Património Imaterial da Humanidade, é mais uma expressão desta união entre pessoas, muito mais que as vozes. O calor, o sol, a serenidade, tudo se resume nesta expressão. Vozes que se elevam em coro, sem instrumentos, como se fosse a própria terra a musicar e que toda a imensidão do espaço lhe servisse de harmonia, por isso “o cante junta os homens como a planície junta o céu” – dizia um velho cantador de Serpa. No cante há vida, relações e cumplicidade. Mas também trabalho, sofrimento, saudade e festa — tudo aquilo que tece as relações.
O meu Alentejo é tanto mais! Feito de detalhes simbólicos tão grandes que enchem os olhos: os montes caiados que brilham ao sol, os sobreiros firmes e generosos ensinam a lutar e a resistir; o ritmo dos dias, que convida a deixar o Alentejo entrar, pois o “Alentejo não se visita, sente-se” — ideia repetida, mas certeira.
O meu Alentejo é a harmonia silenciosa e perfeita entre natureza e humanidade: onde o sol aquece, a terra molda, a mesa reúne e o cante une. E como dizia o poeta, “o Alentejo é grande porque cabe lá toda a alma de quem o ama”.
Fotografia: Ana Baião/Arquivo/D.R.












