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Carlos Cupeto (opinião): “Outro caminho”

Carlos Cupeto | Professor da Universidade de Évora

Chegados aqui, à porta de 2024, décadas depois de muito dinheiro gasto (nunca faltou dinheiro ao Alentejo, só comparável ao dinheiro que se estragou), o que temos? Uma história para contar, uma alma rica, o Alqueva, uma autoestrada vazia (A6), um aeroporto sem aviões, uma linha Sines–Elvas para acabar e ver no que dá (alguns governantes amaldiçoam o mercado e agarram-se à CP, como a última joia) e pouco mais.

Um Alentejo despovoado, envelhecido, pobre, resignado, sem esperança, onde, paradoxalmente, cada vez mais estrangeiros são felizes. E também, temos de o saber e afirmar, uma terra carregada de recursos (água, solo, floresta, e patrimónios, sobretudo o cultural e natural), com infraestruturas, embora sem saúde, justiça, com as escolas de rastos, correios, etc., segurança (por enquanto) e abrigo, ou seja, as três condições essências (recursos, abrigo e segurança) para comunidades felizes e atrativas.

O que falta então para sermos um lugar atrativo, com esperança e a certeza de um futuro melhor? Faltam-nos pessoas com talento. Faltam-nos algumas empresas como a Delta e muitas como o Esporão ou o Vale da Rosa. Perguntei a três colegas, professores de gestão de empresas, por boas empresas alentejanas com dimensão que possam fazer a diferença e mobilizar o que está à volta, e tive respostas vagas. Recentemente, o presidente da CCDR Alentejo afirmou que quer o Alentejo como uma região piloto para atrair talentos. Quem não quer? A verdade é que cada ano que passa o Alentejo é cada vez menos atrativo para reter os de cá, imagine-se então para atrair talentos de fora.

Há 40 anos que sondo e ouço os alunos e tenho a convicção de que o Alentejo está menos competitivo e atrativo. Infelizmente os números dão-me razão. Na verdade, vivemos numa região cheia de oportunidades que, salvo as sempre existentes honrosas exceções, nunca se concretizam. O Alentejo coitadinho é das ideias mais presentes ao longo dos anos; mas se o Alentejo se queixa só o pode fazer dos alentejanos.

O Alentejo não é abandonado, abandonou-se.

O Alentejo não é abandonado, abandonou-se. Este autoabandono não é casual ou inocente, é conveniente, pois só assim o ‘status quo’, vigente há décadas, permanece forte e com vigor. Mesmo que nos contem o contrário, o Alentejo não é atrativo, não tem vida, falta-lhe estrutura social e económica. Os filhos dos meus colegas em idade universitária não estudam no Alentejo; porque será? Os meus alunos, oriundos de todo o país, sonham pelo fim de semana para debandarem para as suas terras porque “Évora não apetece”.

Queremos a verdade para mudar? É necessário outro caminho. Chamando os bois pelos nomes, outra ideologia.

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