«Um santo a fazer milagres em casa»

Todos o conhecem em Arraiolos, seja por «Professor António Valente», seja por «Cueca». Mais do que o epíteto ou a alcunha, importa realçar o papel de um tipo de homem que já vai escasseando num país entregue ao provincianismo das comparações. No seu caso, é simples: o importante são as pessoas e a cultura que absorvam para serem mais felizes. Ele vai pela música, e todos lá chegam.

Carlos Leitão (texto)

Por defeito, sou defensor acérrimo de um Estado social que evolua e encontre sempre no caminho as ânsias populares; mais do que isso, tudo o que a populaça desconheça e a venha a enriquecer. Assim é com a cultura e com o saber. Se já não somos o povo de analfabetos que na década de 70 envergonharia este Portugal ávido de digitalização, não é menos verdade que proporcionar cultura às pessoas continua a ser um urgente ato sublime de altruísmo e sensibilidade que não é para todos.

Assim, faz-me sentido enaltecer um homem ímpar que faz da vila de Arraiolos um dínamo cultural de fazer inveja a destinos mais cosmopolitas. Chama-se António Luís Valente, mas ainda sem eu ou ele percebermos porquê, toda a gente o conhece por «Cueca». Eu conheço-o há muitos anos, e comove-me que a sua tenacidade pelo ensino da música se mantenha com o mesmo vigor do início.

Entre gaiatos que têm o primeiro contacto com um instrumento musical, as bandas e projetos variados de música de cariz e raiz tradicionais, a pesquisa histórica de repertório esquecido ou escondido, o «Cueca» tem ainda o condão de reunir em torno de si os velhos das freguesias do concelho e dar-lhes a certeza de que são válidos, por exemplo quando devolve a um octogenário as baquetas para se sentar à bateria que deixou de ver há muitos anos. O êxtase do reencontro dispensa demais dissertações.

Para isto, não basta ser um homem competente ou um extremoso professor. É preciso têmpera, sensibilidade, bom senso, e uma tremenda vocação inacessível à maioria de nós. São décadas de dedicação ao serviço público, indo contra preconceitos locais e outros tantos nacionais, e mesmo quando os óbices autárquicos o abespinham, o interesse dos que lhe inundam a escola de música, as salas das escolas e os lares estão sempre acima de tudo. Depois, é o caminho natural: criam-se projetos que se tornam bandas, tocam juntos, partilham, pode ser folclore, arruadas de tambores, música e adereços de tempos medievais, fusões várias, e mais tudo o que aquela imaginação inesgotável jorrar na cabeça do professor António Valente.

O «Cueca» não gosta de politiquices, mas sabe que também é de política que se faz o seu trabalho e a intrínseca relação com as entidades, e nem assim cede no propósito: o contacto com a música é condição sine qua non para que a juventude cresça mais atenta e capaz e os idosos ocupem o tempo com o que os faz sorrir, nem que seja de saudades. A ideia não é levá-los a tocar no CCB ou no Carnegie Hall, não tenhamos ilusões, mas é infinitamente bonita e inspiradora a ideia de se descobrir uma vocação na adolescência, revisitar uma paixão adormecida ou permitir cantar quem nunca vira uma nota de música quando o «sol a sol» lhe ocupava o tempo uma vida inteira.

Para quem, como eu, vem da cidade grande carregado de estereótipos e vícios de quem não sabe esperar e acha tudo saber, este é o verdadeiro banho civilizacional. É assim que está certo, é assim que deve ser: o professor não despeja bagagem e os alunos não vão enfadados para a aula. O «Cueca» aglutina-os, fá-los sentir parte de qualquer coisa especial que encerra o gozo e a realização pessoal nestes tempos escorregadios, à frente da fossanguice de ser o melhor e o primeiro a chegar a qualquer meta. Com ele não há metas, há descobertas — e como podem ser admiráveis! — e todos fazem parte, em medidas iguais, sem protagonismos ou estrelatos ilusórios. E mesmo que a vila seja ingrata de quando em vez, este santo da casa faz mesmo milagres. Sem ele, Arraiolos seria mortiça, inverosímil.

Os anos passam, uns saem e outros entram, é a velocidade normal do tempo e do que ele traz, mas vão ficando alguns que, juntos, perpetuam e espevitam o legado do serviço público sem bandeirinhas de propaganda. Criaram a Casa das Artes, e lá moram todos os que por bem chegarem para cantar, tocar, dançar, armados da premência de que tudo é feito em prol da população local e do desenvolvimento de uma terra que, tal como um país inteiro, precisa de cultura como de água para a boca, e de quem a dê a provar aos que vão nascendo, pois é assim que se vê o futuro.

2 Responses

  1. Parabéns Carlos pelo bonito texto, concordo plenamente e mais uma vez foi exaltado o proficionalismo deste singular professor e amigo.

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