Carta aberta pede a Marcelo apoio ao restauro ecológico da Serra d’Ossa

A arquiteta paisagista Cassandra Querido e o arqueólogo Manuel Calado escreveram uma “carta aberta” a Marcelo Rebelo de Sousa, no dia em que termina funções como Presidente da República e regressa à Junta da Casa de Bragança, apelando ao seu envolvimento na promoção de um projeto de restauro ecológico da Serra d’Ossa.

No documento, a que a Alentejo Ilustrado teve acesso, recordam os estatutos da Fundação da Casa de Bragança, sublinhando que a instituição reconhece que “o Ambiente deve ser protegido e fruído de modo sustentável” e que promove “uma utilização responsável dos recursos naturais na prossecução da sua missão”.

A carta enquadra o apelo num movimento cívico que tem vindo a alertar para a situação ambiental da Serra d’Ossa, e que em maio de 2022 organizou, na torre do castelo de Évora-Monte, um encontro dedicado ao tema “SOS-Serra d’Ossa Sustentável”, que reuniu especialistas e cidadãos para discutir a sustentabilidade ambiental da serra.

Segundo os autores da carta, a Serra d’Ossa constitui um elemento central da paisagem do Alentejo Central e possui também relevância histórica e arqueológica. Entre os pontos destacados estão os povoados proto-históricos fortificados situados nos pontos mais elevados da serra, nomeadamente em Évora-Monte, São Gens e Castelo. 

Apesar desse valor patrimonial, os signatários alertam para o impacto ambiental da extensa área de eucaliptal existente na serra. “Infelizmente, a paisagem atual da serra é dominada, em cerca de metade da sua extensão (particularmente nas áreas mais elevadas), por um dos maiores eucaliptais contínuos da Europa”, escrevem.

A plantação destes povoamentos florestais remonta, em grande parte, a meados do século passado, numa altura em que o eucalipto foi utilizado como solução para recuperar áreas florestais degradadas. Contudo, os autores consideram que essa opção teve “severas consequências no que respeita à biodiversidade, aos recursos hídricos, aos solos, ou à qualidade da paisagem e foi responsável por uma forte desertificação humana”.

Ainda assim, os signatários sublinham que o contexto histórico em que essas plantações foram feitas deve ser tido em conta. “Por isso, neste momento, melhor do que escalpelizar o passado, interessa ajudar a construir um futuro melhor”, referem.

Referindo que mais de metade dos terrenos ocupados por eucaliptos na Serra d’Ossa pertence à Fundação da Casa de Bragança, os autores apelam diretamente a Marcelo Rebelo de Sousa para que “se empenhe no apoio ao arranque urgente de uma ação, certamente longa e gradual, tendo em vista a transformação daquele que é frequentemente referido como o maior eucaliptal da Europa, num projeto exemplar de restauro da natureza, à escala europeia.”

Na carta, Cassandra Querido e Manuel Calado defendem ainda que a Serra d’Ossa poderia funcionar como um “laboratório” para testar métodos e técnicas destinados a transformar eucaliptais em florestas autóctones e lembram que a União Europeia aprovou recentemente a Lei do Restauro da Natureza, que prevê a recuperação de ecossistemas degradados.

Apontando a necessidade de recuperar espécies nativas, reduzir o risco de incêndios e restaurar sistemas agroflorestais, os signatários recordam também iniciativas recentes da Fundação da Casa de Bragança na gestão do montado de sobro e na colaboração com a Universidade de Évora para desenvolver modelos de gestão florestal adaptados às condições locais, apontando esses exemplos como indicadores do compromisso da instituição com boas práticas ambientais.

No final do documento, os autores sublinham que, apesar da dimensão do desafio, existem “êxitos mundiais neste domínio a ter em conta, como o do fotógrafo Sebastião Salgado na Mata Atlântica brasileira ou de Haidar el Ali, nos mangais do sul do Senegal”.

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