A antiga Fábrica de Moagem e Eletricidade de Estremoz e Veiros vai transformar-se, a partir do próximo ano, num espaço multiusos dedicado à arte, à restauração e ao coworking. O projeto, batizado «Collector», ocupa 2.890 m² num edifício classificado de interesse municipal e é assinado pelo atelier Archizest, fundado pelo casal de arquitetos belgas Amélie e Wolfgang Zichy, que compraram o imóvel em 2024.
«O conceito do projeto é um lugar com várias atividades num edifício emblemático da cidade de Estremoz», explica Wolfgang Zichy, co-fundador da Archizest. O arquiteto descreve o imóvel como «um belo edifício de tipo industrial do século passado, com volumes amplos e minimalistas, tipo monacal».
Ali serão realizadas diversas atividades, como «exposições de arte, será criado um espaço de coworking, restaurante e loja», detalha Wolfgang Zichy, sublinhando que o projeto pretende ser «um lugar de encontro onde as pessoas podem trabalhar, reunir numa das salas de reuniões ou fazer apresentações» de trabalhos artísticos.
A abertura ao público, acrescenta, está prevista para o início de 2027, com uma primeira exposição a coincidir com o ano em que Évora assume o título de Capital Europeia da Cultura.
O arquiteto enquadra o «Collector» no que diz ser a transformação vivida por Estremoz. «Estremoz está em pleno desenvolvimento nos últimos dez anos. Estão a abrir muitos restaurantes trendy, museus, hotéis», descreve, acrescentando que acredita que a cidade «está numa linha da cultura artística que passa por Évora, Arraiolos e Vila Viçosa», o que, na sua opinião, «poderia criar uma rota da arte no Alentejo».
Segundo Wolfgang Zichy, os eventos previstos para o espaço, das exposições a apresentações de produtos da região, «como o vinho, por exemplo», deverão atrair pessoas «de vários horizontes» a Estremoz, o que, defende, «irá permitir desenvolver um turismo de qualidade que certamente ajudará ao crescimento da cidade».
Na apresentação do projeto, o «Collector» é descrito como um espaço que «transforma a antiga Fábrica de Moagem e Eletricidade num centro vibrante», sendo que o objetivo do casal de arquitetos passa por «preservar o património, revitalizando o local para uso moderno e promovendo o envolvimento da comunidade e o intercâmbio cultural».

A Archizest tem mais de 20 anos de experiência e centenas de projetos na área da reabilitação de edifícios históricos, contando com um portefólio que vai de residências privadas e apartamentos a imóveis comerciais. Em Portugal, assinou, por exemplo, os projetos de restauro do Palácio Ficalho, no Bairro Alto, e do Beco Bolacha, na Lapa — ambos em Lisboa —, transformando dois edifícios onde se situava uma antiga fábrica de pão e bolachas em apartamentos, quase todos com jardim ou terraço.
O imóvel escolhido para o «Collector», situado nos números 87 e 89 da Rua Serpa Pinto, também conhecida como Rua dos Reguengos, está classificado de interesse municipal. Segundo os promotores, foi ali que, em 1878, António da Cruz fundou a Fábrica de Moagem a Vapor. Em 1916, a unidade deu lugar à Fábrica de Moagem e Eletricidade, iniciativa de João Francisco Carreço Simões e Máximo José Rocha, a primeira moagem elétrica do concelho, que chegou também a abastecer a cidade de energia elétrica. Nos anos 30 do século passado, as duas atividades — moagem e eletricidade — foram divididas entre a EDP e a Sociedade Industrial do Bonfim.
Em 1953, o edifício transitou para a Federação Nacional de Produtores de Trigo, que ali instalou um selecionador de trigo, em funcionamento até ao início da década de 70 — período de que ainda hoje resta memória na fachada principal, que mantém a inscrição da associação dos produtores de trigo. Seguiram-se várias mudanças de entidade gestora: em 1975, o imóvel ficou registado em nome do Instituto dos Cereais, resultante da extinção da Federação Nacional de Produtores de Trigo, que passou a incorporar também o Instituto Nacional do Pão e as Comissões Reguladoras do Comércio de Arroz, das Moagens de Ramas e do Comércio de Cereais dos Açores. Em abril de 1979, voltou a mudar de designação e registo, passando a Empresa Pública de Abastecimento de Cereais (EPAC).
Em maio de 1987, já devoluto, o edifício foi arrendado pela Câmara de Estremoz, que promoveu ações de limpeza, conservação e beneficiação do espaço, passando a acolher mais de quatro mil peças da faina agropastoril — muitas delas encontradas em lixeiras, em casões devolutos ou abandonadas ao ar livre, outras doadas por agricultores ou que se encontravam à guarda do município. Foi assim que nasceu o que se viria a chamar o Museu da Alfaia Agrícola, que se manteve aberto até 2004, ano em que as peças foram retiradas e o edifício encerrado ao público por motivos de segurança, dado o mau estado de conservação.
Em 2018, foi anunciada a instalação, no edifício da antiga engenharia, de um museu dedicado à arte africana, iniciativa da Fundação Berardo que acabou por não se concretizar.











4 Responses
Pois é apenas um sinal de que quem passa pelos governos centrais e das autarquias não cuida do património deixado ao abandono, que devia ser aproveitado sem o deixar degradar e utilizá-lo para uso dos cidadãos das cidades, vilas e aldeias deste país e é bastante, que depois é aproveitado para os privados e muitas vezes no mau sentido, aqui até parece equilibrado, veremos.
Estremocense, vivo há muitos anos no Brasil. Porém, sempre acompanhando tudo o que acontece na minha cidade. Não deixo escapar, também, uma oportunidade de dar a conhecer ao Mundo a cidade e o meu Alentejo, no meu blogue e Páginas Sociais. Estou muito feliz em ver que, ùltimamente, Estremoz está galgando espaços perdidos e colocando-se num pedestal importantíssimo de desenvolvimento e importância.
Sou Estremocense e fico satisfeito em saber que a antiga a Fábrica de Moagem e Eletricidade, vai ser recuperada para fins culturais, num espaço multiusos dedicado à arte, à restauração e ao coworking.
Também sou assinante dos Brados do Alentejo o que me porpuciona estar a par das notícias da minha terra Fui técnico de Farmácia, na antiga Farmácia Grijó, por razões financeiras, (ordenado) vim para Alcácer do Sal trabalhar na Farmácia da Santa Casa da Misericórdia, fui Vereador a Tempo Inteiro na Câmara Municipal de Alcácer do Sal.
Hoje estou reformado e logo que for oportuno quero ir almoçar e visitar o edifício que muito bem recuperado.
Também aí funcionou a EPRAL* – Pólo de Estremoz, nos primeiros anos da década de ‘90.
* Escola Profissional da Região Alentejo