Segundo o Cendrev, está em causa uma «situação de enorme fragilidade financeira», resultado do «incumprimento e atraso no pagamento de verbas acordadas» por parte do município, que impossibilita também «os trabalhos necessários para garantir a programação da Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses (RTCP) para 2027» e coloca em causa «a atividade de estruturas e artistas locais vinculadas à programação».
A direção do Cendrev afirma deparar-se com «a ausência de respostas concretas por parte do executivo camarário» e com «dívidas acumuladas que inviabilizam a manutenção da atividade diária» da companhia e do teatro.
Entre os valores em falta estão 100 mil euros, correspondentes a duas tranches já vencidas da contrapartida municipal no âmbito da RTCP. De acordo com o Cendrev, esta verba «é imprescindível e serve exclusivamente para o financiamento da programação do Teatro Garcia de Resende, não podendo ser aplicada na atividade da estrutura».
Com o vencimento, em outubro, da terceira das quatro tranches anuais de 50 mil euros, a dívida do município subirá para 150 mil euros. O financiamento municipal totaliza 200 mil euros por ano e corresponde a 50% do apoio público à programação cultural do Teatro Garcia de Resende.
A direção sublinha que é este financiamento que garante os restantes 50%, igualmente 200 mil euros, atribuídos pela Direção-Geral das Artes (DGArtes) «para serem investidos na programação cultural do Teatro Garcia de Resende e, consequentemente, para a cidade».
O Cendrev refere ainda ter tido conhecimento, em junho, da intenção da autarquia de aplicar uma «redução drástica», superior a 52%, nas verbas destinadas ao apoio sustentado relativo a 2026. «Esta redução profunda, num orçamento que já se encontrava aprovado e em plena execução, põe diretamente em causa a estabilidade da nossa equipa permanente», afirma a direção, lembrando que é esta «estrutura humana» que assegura, além das atividades da companhia, «a gestão diária do teatro, o acompanhamento, produção e acolhimento de toda a programação da RTCP».
A companhia recorda que, no início do mandato do atual executivo, em reuniões presenciais realizadas a 5 de novembro e 18 de dezembro de 2025, lhe foi «garantido verbalmente que as condições acordadas com o executivo anterior se manteriam sem alterações».
Segundo a mesma fonte, foi também o próprio município que, a 3 de abril deste ano, noticiou a inclusão na RTCP, «assumindo publicamente essa conquista como o “resultado de um trabalho conjunto”». «Foram precisamente estas confirmações verbais e o anúncio público deste projeto que nos permitiram a viabilização e aprovação do orçamento de 2026, bem como os avanços nas contratações de serviços e artistas para a programação do Teatro Garcia de Resende», explica a direção. E conclui: «Infelizmente, na prática, essa parceria não se concretizou, como podemos constatar pelos atrasos e cortes agora verificados.»
De acordo com o Cendrev, a regularização dos apoios referentes a 2025 está em curso e calendarizada, mas ainda não foi concluída. «Mais grave ainda é o facto de, estando já no último quadrimestre de 2026, os valores referentes ao corrente ano ainda não estarem a ser pagos ou sequer calendarizados», acrescenta.
A companhia diz ter feito, ao longo dos últimos meses, «várias tentativas de contacto com o município, através de reuniões e sucessivas comunicações escritas, com o objetivo de tentar regularizar a situação e obter uma calendarização dos pagamentos», mas todas «se revelaram infrutíferas», continuando a instituição «sem qualquer resposta». Face ao impasse, a direção já expôs formalmente a situação à DGArtes.
«A asfixia financeira gerada por esta sucessão de incumprimentos é insustentável e impede-nos de assegurar os ordenados das pessoas que trabalham connosco», refere a direção do Cendrev. Além de «pôr em risco a sobrevivência da estrutura», a situação resulta, segundo a companhia, «no atraso de pagamentos e na acumulação de dívidas a várias empresas e fornecedores locais, bem como aos diversos artistas que têm composto a programação diversificada e de qualidade com a qual o Teatro Garcia de Resende tem servido o público e o município».
O Cendrev lembra que este investimento tem «um forte retorno económico direto e indireto para a cidade», que se reflete em gastos em hotéis, cafés, restaurantes, gráficas, comércio e serviços.
«Consideramos esta situação inaceitável e de extrema gravidade, ainda mais se considerarmos que ocorre precisamente às portas de Évora 2027 – Capital Europeia da Cultura», afirma a direção. Para a companhia, «o silêncio e a inação do município colocam em risco não só a existência do Cendrev e da programação do Teatro Garcia de Resende, mas também demonstram incapacidade de responder de forma responsável às atividades culturais inerentes ao município, acabando por desrespeitar artistas, instituições e público».
O Cendrev apela, «de forma urgente e pública», a «uma resolução imediata» por parte da Câmara Municipal de Évora, «para que possamos evitar o colapso da atividade e garantir o futuro da programação do Teatro Garcia de Resende que serve a população de Évora, mas também o concelho e região».











Uma resposta
Sair à rua para reivindicar que o que foi acordado seja cumprido, é um caminho. Não podemos aceitar, que o Teatro seja o bode expiatório da má gestão de uma Câmara que, desde que tomou posse, ainda não percebeu porque foi eleita. Eu também não percebi.