O espetáculo começa como uma representação típica dos Bonecos de Santo Aleixo, mas rapidamente se vira do avesso: o Mestre-Salas farta-se de ser manipulado e decide assumir o controlo da narrativa. Ao conquistar a liberdade, arrasta consigo a Prima e o Padre Chancas para um «caótico território desconhecido, onde as personagens se veem, subitamente, donas do seu próprio destino».
Entre a euforia e «o peso da responsabilidade das suas próprias decisões, navegam na loucura que é a liberdade», enquanto o espetáculo coloca as questões que o sustentam: «O que acontece quando se tomam as rédeas da própria vida? Alguma vez as tomamos?»
Ricardo Alves, autor, encenador e diretor artístico da Palmilha Dentada, assume que o espetáculo é «sobre a liberdade de ser pássaro e voar sem plano de voo, mas também da liberdade de ser flor e cumprir o destino traçado. E do medo que a liberdade dá».
Na nota do programa, o criador reflete sobre a disrupção como motor de transformação, recordando que «das duas formas» de evolução possíveis — a mudança gradual e a rutura —, a que mais lhe agrada é «a disrupção, que não dá tempo de adaptação e somos obrigados a rapidamente repensar e reavaliar tudo».
Fundador da Palmilha Dentada em 2001, Ricardo Alves iniciou a carreira em 1992 no Teatro Art’Imagem e desde então tem assinado textos, encenações e desenho de luz em colaboração com companhias como a Seiva Trupe, o Teatro Experimental do Porto e o Ensemble, acumulando também a direção técnica de festivais como o Serralves em Festa e o FITEI.
Os Bonecos de Santo Aleixo, ponto de partida da peça, têm uma história marcada pela transgressão. Os primeiros registos documentais em Portugal remontam a 1798, quando títeres de Santo Aleixo foram «apreendidos e queimados» pelo Padre Vicente Pedro da Rosa em Vila Viçosa por serem considerados figuras «desonestas e vis».
A tradição assenta numa dualidade estrutural entre o sagrado e o profano, personificada no Padre Chancas, figura de autoridade clerical cujas ações são «muito pouco clericais», envolvendo bebedeiras e comportamentos jocosos, e que no palco é «constantemente interrompido ou agredido com uma bordoa pelo Mestre Salas enquanto prega» — uma forma de justiça popular que ridiculariza o poder.
O Cendrev, que acompanha os Bonecos de Santo Aleixo há mais de 40 anos, sublinha no programa que «este é um espetáculo que faz uso da tradição para desconstruir, experimentar e brincar», revirando-a «do avesso para procurar, bem cá em fundo, em que lugar está a liberdade, a emancipação e o fazer do teatro».
A companhia eborense, com 51 anos de história, associa-se assim à Palmilha Dentada — de génese no café-teatro, no improviso e na provocação — numa coprodução que ambos assumem como exercício de desequilíbrio criativo.
O espetáculo, com interpretação de Beatriz Baptista, Ivo Luz e Rosário Gonzaga, tem duração de 60 minutos e classificação M/12. Conta com interpretação em Língua Gestual Portuguesa pela Associação de Surdos de Évora.
Texto: Alentejo Ilustrado | Fotografia: Carolina Lecoq












