Sob o lema «Um festival, dois países», a organização do FIC afirma que o evento «reforça, como nunca, o seu carácter transfronteiriço» com a chegada de Elvas, Campo Maior e Don Benito enquanto novas sedes, alargando «a sua presença territorial» e consolidando, segundo o festival, «um modelo cultural que transforma a Raia num espaço partilhado para o cinema e a criação audiovisual».
Com mais de três décadas de história, a organização descreve o FIC como «o evento mais antigo entre todos aqueles que reúnem criadores de Espanha e de Portugal e um dos principais encontros da curta-metragem peninsular». O festival sublinha ainda que as curtas-metragens espanholas selecionadas «voltarão a concorrer à pré-seleção dos Prémios Goya e dos Prémios Fugaz».
A edição decorrerá em Badajoz, Olivenza, San Vicente de Alcántara, Don Benito, Elvas e Campo Maior, «graças ao acordo alcançado com as câmaras municipais portuguesas» para integrar na programação o Festival dos Miúdos, a secção infantil do festival — uma aliança que a organização classifica como «um novo passo na construção de uma verdadeira rede ibérica de festivais de curtas-metragens».
Perante o crescente condicionamento do consumo audiovisual pelas plataformas digitais, o FIC defende a curta-metragem «como um espaço de liberdade criativa, diversidade linguística e experimentação narrativa», acrescentando que, pela sua natureza transfronteiriça, o festival «transforma a fronteira num território de encontro, favorecendo a circulação de obras, profissionais e públicos entre ambos os países».
A Secção Oficial reúne 22 curtas-metragens, selecionadas entre cerca de 1.200 obras recebidas de Espanha e Portugal, com histórias que, segundo a organização, abordam «a habitação, a saúde mental, a imigração, a igualdade ou a identidade de género».
O cinema português chega com força à Secção Oficial, consolidando, nas palavras da organização, «o seu olhar profundo, poético e diversificado» através de cinco produções entre as 22 selecionadas. As propostas nacionais «deslizam-se com facilidade entre a nostalgia do verão, o realismo social mais premente e a delicadeza da animação íntima», lê-se na apresentação do festival.
Entre as apostas portuguesas destaca-se «Rui Carlos», de Margarida Paias, que a organização descreve como um filme em que, «num dia radiante de verão, uma simples bola furada quebra a inocência das brincadeiras de bairro, obrigando o seu jovem protagonista a atravessar de repente o limiar para as responsabilidades da adolescência». A obra compete simultaneamente na Secção Oficial e na secção infantil «Festival dos Miúdos».
Em «Noites mais fáceis», de João Pedro Mamede, inspirado «de forma subtil num haiku melancólico de Jack Kerouac», o realizador retrata «a quietude e o isolamento de Ema durante os seus primeiros turnos noturnos num escritório automatizado, transformando a rotina laboral numa tela de solidões contemporâneas».
Já «A fronteira azul», de Dinis M. Costa, é apresentado como um filme que, «através de um mosaico poliglota onde se cruzam o espanhol, o português, o francês, o inglês e o lingala», narra «o naufrágio de uma embarcação clandestina ao largo da costa andaluza», numa Europa em que «os náufragos vagueiam alucinados sobre o betão de uma Europa cega que se recusa a vê-los».
Filipe Amorim apresenta «Agente imobiliário sem casa para viver», descrito pela organização como «uma ficção perspicaz que expõe as contradições da crise habitacional em Portugal» e que, tendo como pano de fundo um aumento dos preços imobiliários de 106%, «analisa as contradições de uma juventude presa na ilusão de um setor de luxo que acaba por devorá-los». «Rui Carlos» e «Agente imobiliário sem casa para viver» foram nomeados nos últimos Prémios Sophia da Academia Portuguesa de Cinema.
O quinteto português fecha-se com «Cão Sozinho», de Marta Reis Andrade, coproduzida com a França, que «entrelaça a desolação de um cão abandonado na sua própria casa com a dor da viuvez de um avô e a melancolia de um regresso de Londres, tecendo uma delicada fábula sobre o isolamento e o enraizamento emocional».










