«Não estamos à procura de atores, estamos à procura de pessoas com histórias.» Cláudio Henriques, ator e diretor artístico do Colectivo Cultura Alentejo, dispensa currículos e experiência de palco nos laboratórios que abre à comunidade de Estremoz e de Monforte. O que procura são crianças, jovens, adultos e séniores com memórias para partilhar — porque é dessa recolha, e não de um texto previamente escrito, que vai sair o espetáculo e o filme de «Raiz – Paisagem Humana».
Que projeto é este?
Fomos um dos projetos selecionados pela Capital Europeia da Cultura e esta é a primeira fase de implementação, na qual estamos a abrir o projeto a todos, a pedir a ajuda da comunidade. Porque vai ser através destes laboratórios, desta call à participação que fizemos agora — e o período de inscrições decorre durante todo o mês de setembro —, aberta a toda a população, de todas as faixas etárias. Nestes laboratórios iremos desenvolver um trabalho com a comunidade, com os participantes, em que vamos criar e vamos levantar questões, partilhar memórias, testemunhos sobre o Alentejo, sobre o que é ser alentejano. A partir daqui iremos desenvolver o texto, a dramaturgia, a criação do espetáculo que será apresentado em abril de 2027.
Pode adiantar alguma coisa sobre temas que vos interessem trabalhar?
O tema é pensar o Alentejo, será um espetáculo sobre memórias. Ou seja, vamos construí-lo com a comunidade, portanto não tenho um espetáculo escrito, não tenho nada construído neste momento. O desafio é criarmos desde o início, com a comunidade, um espetáculo que inevitavelmente se relaciona com o Alentejo, que pensa sobre a região.
Que impacto é que esperam que esta vossa participação na Évora_27 tenha no vosso percurso enquanto coletivo artístico?
Enquanto estrutura, esperamos chegar a mais pessoas, a mais público, e que o nosso trabalho seja mais conhecido. Isso e a viagem, que para nós é sempre mais importante, e neste caso a viagem para este espetáculo inicia-se com todos. Habitualmente, nos nossos espetáculos, é mais um caminho percorrido pela nossa equipa. Desta vez pulamos as paredes do teatro e das salas de ensaios e vamos começar o espetáculo logo com as pessoas, com a comunidade. Por isso, para além de darmos a conhecer o nosso trabalho, esperamos envolver toda a comunidade, fazer com que as pessoas percebam que é uma experiência única e fantástica ver teatro, ir ao teatro, e que o teatro tem um papel comunitário muito importante, diria focal, na comunidade, no relacionamento com as pessoas e no pensar em conjunto. Ou seja, pretendemos, enquanto coletivo, que se fale através do teatro, que as pessoas falem umas com as outras, que se pense o que é o território neste momento, que alterações sofreu, se é que sofreu.
Daí o nome, «Raiz – Paisagem Humana»?
É logo a matriz do nosso projeto: irmos à raiz, neste caso das memórias, ir ao encontro das pessoas, do que lhes foi passado oralmente, ao que elas próprias viveram. E estamos a falar de memórias que não são só de cariz oral, ou de histórias que ouviram, mas também de fotografias, de memórias físicas. Vai haver uma recolha de toda essa matéria-prima para a criação do espetáculo. E paisagem humana é isso, porque o Alentejo não são apenas os campos e os sobreiros, que eu particularmente amo e adoro, e que são maravilhosos e bonitos. Os territórios são essencialmente as pessoas que os habitam.
O que espera encontrar nesses testemunhos?
Espero encontrar muita coisa: memórias bonitas, outras talvez muito mais duras, factos que nos surpreendam, porque a realidade consegue sempre surpreender mais do que qualquer história que eu, por exemplo, me desafiasse a escrever, ou que alguém publicasse. O ponto de partida é um lugar de realidade, dessas histórias. Mesmo que venham algumas que, se calhar, sejam ficção. Procuramos essa realidade e essa escuta e estou muito expectante, toda a equipa está — vamos ser uma equipa muito grande —, porque esta recolha é que vai delinear todo o espetáculo, vai ser a estrutura, a espinha dorsal de todo o espetáculo lá mais para a frente.
Fala de uma equipa muito grande. Estamos a falar de quantas pessoas?
Neste momento, entre cenografia, iluminação, técnicos, vídeo, atores, encenação, músicos, estamos a falar de cerca de 20 pessoas, muito maior do que aquela com que estamos habituados a trabalhar.

Esses laboratórios irão juntar crianças, jovens, adultos e séniores, a maioria sem qualquer experiência artística anterior. Que importância tem esta dimensão intergeracional e a participação direta da comunidade no projeto de criação?
Não estamos à procura de atores, estamos à procura de pessoas com histórias, com memórias, com vontade de partilhar, com vontade de aprender, com vontade de descobrir, com vontade de criar. E, portanto, o projeto é aberto a todos, qualquer pessoa poderá estar connosco. Basta inscrever-se gratuitamente através do nosso email. Essa dimensão intergeracional tem toda a importância, porque queremos diferentes olhares. Não quero só a perspetiva de um sénior, de uma pessoa mais velha, com mais experiência, que já tenha passado por várias coisas no território, que tenha opiniões obviamente mais estruturadas. Também me interessa o olhar de uma criança sobre isto. Todos nós estamos a olhar para a mesma árvore, mas todos estamos a olhar para essa árvore de perspetivas diferentes. E é isso que nós queremos ir buscar.
O projeto aborda questões como a pertença, a migração, o envelhecimento e a transformação social. Na sua opinião, que mudanças ocorridas no Alentejo vos interessa particularmente documentar e colocar em discussão?
Aí é que está o ponto interessante deste espetáculo: não vamos colocar nenhuma crença pessoal nossa. Vamos trabalhar com o que vier da comunidade. Ou seja, eu sou mais um no meio da comunidade, que tem uma perspetiva sobre o que aconteceu e sobre o que é que poderá vir a acontecer. Mas o que nós vamos fazer com este espetáculo é tentar ir sem qualquer tipo de encosto, de expectativa, de intenção, antes pegar na opinião, nas memórias, na partilha, nas informações que nos vão chegando através dos laboratórios, e criar o espetáculo. Não é reproduzi-las — obviamente que temos um olhar artístico, estético e dramatúrgico sobre as informações que vêm —, mas não vamos estar a colocar as nossas opiniões pessoais. Até porque nós, enquanto coletivo, já nos outros espetáculos procurámos muito isso. Claro que é inevitável, somos nós que estamos a construir, terá lá coisas nossas. Eu particularmente acredito que o teatro não é um sítio de respostas, é um sítio de perguntas, de pensarmos em conjunto.
O resultado final será teatro documental e cinema. Como será feita essa articulação entre o palco e a linguagem cinematográfica, e que papel terão os próprios participantes no espetáculo e no objeto documental?
Será um processo a decorrer em paralelo. Ou seja, existe o lado, chamemos-lhe, de criação física, no qual vamos estar em laboratório, onde há uma partilha, um contacto humano. Desde a primeira reunião de produção haverá sempre alguém a filmar, a acompanhar todos os processos. Ou seja, o filme em si, como objeto individual, vai ser todo o percurso, desde o início até ao resultado final de todo o processo. Mas algumas dessas imagens poderão também integrar o espetáculo. Não me recordo de um espetáculo nosso onde a imagem-vídeo não esteja presente, os nossos espetáculos têm uma linguagem muito próxima do cinematográfico. Portanto, não iremos fugir disso, porque é a nossa essência, o nosso ADN. Mas paralelamente vai ser construído um filme, para que as pessoas possam ter acesso a todo o processo de construção do espetáculo.
INSCRIÇÕES EM SETEMBRO
O Colectivo Cultura Alentejo abriu inscrições para a participação da comunidade de Estremoz e Monforte no projeto «Raiz – Paisagem Humana», uma criação de teatro documental e cinema. A iniciativa vai decorrer através de laboratórios de escuta e criação, nos quais serão recolhidas memórias, histórias de vida, cartas e testemunhos de habitantes de diferentes idades e percursos.
O material recolhido ao longo dos laboratórios será posteriormente transformado em conteúdo dramatúrgico para a criação de um espetáculo e de um objeto cinematográfico documental. Em Estremoz, as atividades terão lugar no Teatro Bernardim Ribeiro, enquanto em Monforte decorrerão no Centro de Educação, Formação e Universidade Sénior. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas até final de setembro através do endereço de email: colectivoculturaalentejo@gmail.com.










