«Confunde-se baixa densidade com falta de capacidade para inovar»

Nasceu na Índia, estudou nos Estados Unidos e encontrou em Évora o território onde quis construir. Soumodip Sarkar, presidente executivo do Parque do Alentejo de Ciência e Tecnologia, acredita que a região tem condições únicas para se afirmar como polo internacional de inovação — e que a baixa densidade populacional, longe de ser uma limitação, pode ser uma vantagem competitiva.

Luís Godinho (texto) e Cabrita Nascimento (fotografia)

Nasceu na Índia, estudou e trabalhou nos Estados Unidos e acabou por construir uma carreira académica em Portugal. Como é que este percurso internacional moldou a sua visão sobre a inovação e o empreendedorismo?

Eu nasci na Índia, mas saí ainda muito jovem. Aliás, já vivi mais anos fora do que no meu país de origem. De lá fui estudar para os Estados Unidos, e trabalhei também noutros contextos internacionais, como o Vietname. Depois acabei por construir a minha carreira aqui em Portugal. Todo este percurso ofereceu-me a oportunidade de conhecer realidades diferentes, não apenas pelos locais onde vivi, mas também pelo trabalho que desenvolvo. A participação em projetos internacionais, as conferências a que sou convidado como orador, desde as redes académicas a iniciativas empresariais. Tudo isto permitiu-me conhecer mais de uma centena de países. Esta experiência continua a influenciar profundamente a forma como vejo a inovação e o empreendedorismo (e não só) e permitiu-me perceber que não existe uma fórmula universal. Ao mesmo tempo, fui percebendo que os ecossistemas mais bem-sucedidos tendem a partilhar alguns fatores em comum.

Como por exemplo?

A inovação acontece de formas diferentes consoante o contexto, a cultura, os recursos disponíveis e a capacidade de mobilizar as pessoas em torno de uma visão. O empreendedorismo também é um processo evolutivo, que depende tanto das condições do território como da capacidade de liderança e de colaboração. Foi essa diversidade de experiências que moldou e molda a minha visão e me permitiu compreender melhor como é que os ecossistemas de inovação se desenvolvem e transformam ao longo do tempo.

Como veio parar a Évora?

Esta história tem dois lados, um profissional e um bastante pessoal. Eu conheci a minha mulher quando estava nos Estados Unidos; ela é portuguesa. Ela fez o doutoramento lá e a certa altura ela quis regressar a Portugal. Isso era quando os portugueses ainda queriam voltar! Vivemos em Lisboa, ela era professora e, curiosamente, antes mesmo de conhecer Évora, ouvi falar através de um professor, de um curso de línguas que estava a tirar, e ele dizia que Évora é a cidade mais bonita de Portugal. Essa ideia ficou-me na memória. E, mais tarde, surgiu uma oportunidade na Universidade e tive a felicidade de ser selecionado. Quando cheguei, percebi rapidamente que Évora reunia várias condições que eu valorizo. Desde uma universidade com uma forte tradição académica e científica, a uma forte identidade cultural, a qualidade de vida e, acima de tudo, o enorme potencial para crescer.

Quando chegou ao Alentejo, identificou de imediato potencialidades na região ou teve de desconstruir alguns preconceitos?

Eu sempre vi o Alentejo como uma região com um enorme potencial. Aliás, muito antes de assumir qualquer responsabilidade no PACT, já refletia sobre o papel que esta região poderia desempenhar no desenvolvimento económico e tecnológico do país. Lembro-me que em 2004 escrevi um artigo num jornal nacional intitulado «Calentejo». E a ideia era simples, imaginar um Alentejo capaz de combinar uma boa qualidade de vida, com o conhecimento, a inovação e a tecnologia, uma nova Califórnia. Não como uma cópia de outros modelos, mas como uma visão própria, adaptada às características da região. E ao longo dos anos fui percebendo que muitos preconceitos sobre o Alentejo resultam de uma leitura demasiado limitada do território. Confunde-se frequentemente baixa densidade populacional com a falta de capacidade para inovar. Mas a realidade é completamente oposta. O Alentejo não só possui os recursos e o espaço, mas também o talento e a identidade e condições únicas para desenvolver áreas estratégicas. E hoje sinto que tenho a oportunidade de contribuir para transformar essa visão numa realidade.

Há algum momento ou decisão que considere determinante no seu percurso profissional?

Existiram vários momentos importantes, na verdade, mas talvez o momento transformador tenha sido ao assumir a presidência do PACT. Aí o desafio mudou completamente. Já não se tratava apenas de investigar ou ensinar inovação, tratava-se agora de pôr tudo isso em prática. Foi a oportunidade de juntar a investigação, a estratégia, a gestão e desenvolvimento territorial num único projeto. De certa forma, penso que foi este o momento em que diferentes vertentes do meu percurso profissional convergiram.

A sua investigação tem incidido muito sobre inovação, estratégia e empreendedorismo. O que é que a academia ainda não percebe suficientemente sobre a forma como a inovação acontece nos territórios periféricos?

Atualmente compreende-se muito melhor os processos de inovação do que há algumas décadas. No entanto, continua a existir uma tendência de olhar para a inovação sobretudo a partir dos grandes centros económicos e tecnológicos. Mas penso que o que muitas vezes é subvalorizado é o papel da liderança e do chamado efeito de demonstração. Quando alguém mostra que algo é possível, cria-se uma dinâmica que incentiva outros a seguir o mesmo caminho. Outro aspeto bastante desvalorizado é a capacidade de construir soluções mesmo em contextos adversos. O que muitas vezes se assume é que determinadas regiões têm demasiadas limitações para alcançar resultados relevantes. A minha experiência mostra exatamente o contrário. Mostra que é possível fazer grandes coisas mesmo quando as condições iniciais não parecem favoráveis. O desafio está em identificar as oportunidades, em saber e conseguir mobilizar as pessoas e em criar uma visão que seja capaz de transformar um potencial numa realidade.

É frequentemente apontado como um dos principais dinamizadores do ecossistema de inovação do Alentejo. Sente-se mais académico, gestor ou construtor de pontes?

Essa é uma pergunta interessante, porque a resposta depende muito da perspetiva de quem observa o meu percurso. Se alguém apenas me conhecer pelo meu trabalho na área da investigação, irá ver sobretudo um académico. A investigação é uma parte muito importante da minha identidade profissional e tenho orgulho no trabalho científico que tenho desenvolvido ao longo dos anos e, também, no reconhecimento internacional que esse trabalho alcançou. Incluindo a integração, nos últimos três anos consecutivos, na lista dos 2% investigadores mais influentes do mundo da Universidade de Stanford. Mas quem me conhece através do PACT provavelmente vê um gestor ou um impulsionador de ecossistemas. A verdade é que eu me revejo um pouco em todas essas dimensões. Talvez a melhor definição será mesmo a de construtor de pontes. Porque eu sempre procurei aproximar as pessoas, as instituições, as empresas, os investigadores e os territórios. E gosto da ideia de utilizar o conhecimento para gerar um impacto real. E é isso que eu faço diariamente, quer seja na universidade que no PACT. Naturalmente, manter este nível de exigência tem também custos pessoais. Conciliar tudo isto exige tempo, energia e, muitas vezes, alguns sacrifícios. Mas quando vemos as pessoas, as empresas e os projetos a crescerem e a criarem um impacto real, percebemos que esse esforço vale a pena.

Costuma afirmar que o Alentejo pode afirmar-se como um polo internacional de inovação. O que tem esta região que outros territórios portugueses e europeus não possuem? Além do melhor vinho do mundo, claro…

O vinho ajuda bastante, sem dúvida… Mas há outros fatores bastante relevantes. O Alentejo não só possui uma combinação rara de qualidade de vida, um bom espaço para crescer, recursos naturais, uma forte identidade como um ambiente institucional muito colaborativo. Desde universidades, a institutos politécnicos, a centros de investigação e a empresas inovadoras que, cada vez mais, trabalham em conjunto. Outro aspeto importante de salientar, é que ainda existe margem para crescer. Em regiões altamente saturadas, o espaço para novos projetos é mais limitado. Mas no Alentejo ainda há oportunidade para atrair empresas tecnológicas, para desenvolver novas atividades económicas e para construir ecossistemas emergentes.

A que se soma a qualidade de vida?

A qualidade de vida tornou-se um fator cada vez mais valorizado pelas empresas e pelos seus profissionais. Conheço casos de pessoas que trabalham em grandes centros urbanos que gostariam de viver no Alentejo precisamente pelo equilíbrio entre a carreira, o bem-estar e a proximidade. Existe aqui um certo paradoxo. Grande parte da literatura tende a enfatizar a importância da escala, da concentração de recursos e da dimensão dos grandes centros urbanos, mas a minha experiência mostra que fatores como a proximidade entre as pessoas e a facilidade de criar relações de confiança e de colaboração podem ser igualmente determinantes. Aquilo que muitas vezes é visto como uma limitação pode, em determinadas circunstâncias, transformar-se numa vantagem competitiva.

O Alentejo continua a ser associado à agricultura, ao património e ao turismo. Como é que se introduz a ideia de inovação e tecnologia numa região com esta identidade tão marcada?

Eu acredito que o objetivo não deva ser a substituição da identidade existente, mas sim integrar a inovação e tecnologia naquilo que o Alentejo já é. Uma das grandes vantagens da região é precisamente a sua autenticidade. As empresas instalam-se aqui e tendem a criar ligações mais duradouras com o território e os colaboradores tendem a permanecer mais tempo nas empresas, a desenvolver raízes e a construir relações mais estáveis. Isto cria culturas organizacionais diferentes e uma maior continuidade nos projetos. Para além de que existe uma proximidade muito grande entre as empresas, as instituições de ensino superior, os municípios e as entidades regionais. E isto facilita a colaboração e acelera os processos que, provavelmente, noutras regiões são bem mais complexos. Tudo isto contribui para criar um modelo próprio de inovação. Não se trata de replicar Lisboa e outras regiões tecnológicas. Trata-se de construir uma identidade diferente, onde a tecnologia pode conviver naturalmente com o território.

Em que áreas acredita que o Alentejo pode vir a ser uma referência internacional nos próximos 10 ou 20 anos?

Na verdade, penso que existem várias áreas promissoras. Mas destacaria sobretudo três. A primeira é a inteligência artificial e a robótica. Estas são tecnologias transversais que irão impactar praticamente todos os setores da economia e onde o Alentejo tem condições para desenvolver competências relevantes. A segunda é a transição energética, incluindo o hidrogénio verde e outras soluções ligadas à descarbonização. Estamos perante uma transformação estrutural da economia e a região possui vantagens importantes nesta área. A terceira está relacionada com a mobilidade inteligente, os drones e outras tecnologias avançadas aplicadas à indústria, à agricultura e aos serviços. E existem outras áreas onde o Alentejo poderá afirmar-se de forma relevante, nomeadamente na área da saúde, tirando partido das competências científicas e tecnológicas já instaladas. E na economia do mar, através da ligação crescente entre o conhecimento, a sustentabilidade e a valorização dos recursos marítimos.

Quando assumiu a liderança do PACT, que objetivos traçou e em que medida considera que esses objetivos foram alcançados?

Quando assumi a liderança do PACT tinha dois objetivos fundamentais. O primeiro era garantir a sustentabilidade financeira da organização. O PACT não depende de financiamento operacional dos seus acionistas nem do Orçamento do Estado, pelo que precisava de construir um modelo económico robusto que assegurasse a sua continuidade e crescimento. Pela dimensão da missão que assumimos, esse era, definitivamente, um desafio particularmente exigente. O segundo era criar um modelo próprio do Parque. Cada território tem características diferentes e, por isso, não fazia sentido copiar modelos existentes. O desafio era construir uma abordagem adaptada à realidade do Alentejo, baseada em projetos com impacto real e capazes de gerar valor para a região.

Alcançou esses objetivos?

Penso que foi possível avançar significativamente nestes objetivos. O PACT não só consolidou a sua sustentabilidade, como cresceu e atraiu empresas inovadoras. Foram desenvolvidas infraestruturas e a sua presença foi reforçada em projetos tanto nacionais como internacionais. Mas mais importante ainda, conseguiu demonstrar que é possível desenvolver tecnologia, atrair talento e criar oportunidades de elevado valor acrescentado a partir do Alentejo. Cada projeto contribui para uma história maior. É a construção de um ecossistema capaz de competir a vários níveis sem perder a sua identidade. Uma componente fundamental dessa visão foi o desenvolvimento do Sistema Regional de Transferência de Tecnologia. O SRTT é mais do que um conjunto de entidades, é uma rede de colaboração que aproxima as universidades, os institutos politécnicos, os centros de investigação e as empresas. O objetivo sempre foi transformar o conhecimento em inovação, a inovação em valor económico e o valor económico em desenvolvimento regional.

Quantas empresas nasceram, cresceram ou se instalaram na região devido à intervenção do PACT e que impacto económico e de emprego tiveram essas iniciativas?

Os números evoluem constantemente porque o ecossistema está em movimento. Atualmente trabalhamos com mais de 60 empresas em diversas áreas, desde a aeronáutica à inteligência artificial. Recentemente foi feito um apuramento e o impacto direto e indireto traduz-se em várias centenas de empregos qualificados e numa faturação anual superior a 100 milhões de euros no ecossistema. Mas, para mim, existe uma dimensão tão importante como os números, e é a qualidade do emprego e a ambição que estas empresas trazem para a região. Estamos a falar de organizações que trabalham com o conhecimento, a tecnologia, a internacionalização e o talento. E isto significa que muitos jovens, que antes sentiam que tinham de ir para Lisboa ou Porto ou até para o estrangeiro, começam hoje a encontrar alternativas reais aqui no Alentejo.

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