Cooperativa Operária Portalegrense, entre tempos e gentes – reportagem

A Cooperativa Operária Portalegrense reforça a sua missão social com o projeto “Entre Tempos e Suas Gentes”, vencedor do Prémio BPI Fundação “La Caixa”. A iniciativa, que envolve 22 idosos, aposta no envelhecimento ativo e na integração social de quem vive isolado, mantendo o espírito solidário que marcou a fundação da Cooperativa, em 1898, por trabalhadores da antiga Fábrica Robinson. Júlia Serrão (texto)

Vencedor do Prémio BPI Fundação “La Caixa” Seniores, o projeto “Entre Tempos e Suas Gentes”, da Cooperativa Operária Portalegrense (COP), está no terreno, nas povoações de Reguengo e São Julião. Segue-se Portalegre. A ideia é contribuir para otimizar a qualidades de vida dos mais velhos e para o envelhecimento ati- vo na comunidade. Envolve cerca de 22 idosos, a maioria mulheres.

A assistente social da COP, Ana Raquel Fartouce, explica tratar-se da “continuidade” de um outro projeto, denominado “Entre Tempos”, que pretende “envolver os idosos em situação de isolamento”, quer da malha urbana da cidade de Portalegre, quer na freguesia de Reguengo e São Julião.

Como particularidade tem o facto de contar com beneficiários do projeto anterior, que se voluntariaram e são agora “facilitadores ou mediadores para a integração social”. A capacitação do grupo, que irá estar sempre com a equipa técnica da cooperativa “numa ótica de acompanhamento”, foi feita através de ‘workshops’ organizados pelo Laboratório de Inovação Social do Alentejo e pelo Instituto Politécnico de Portalegre (IPP), parceiros da COP.

Abílio Amiguinho, presidente da assembleia geral, mentor de alguns projetos e dinamizador das atividades, diz que “a circunstância de serem os mais velhos” do projeto anterior a ter a ideia de ir “à procura de outros beneficiários para as atividades” pode ter pesado a favor da escolha do “Entre Tempos e Suas Gentes” como vencedor do Prémio BPI.

Visitas e debates sobre património edificado, saídas de campo, aulas de dança, ateliers de costura e teatro são algumas atividades previstas por um projeto que, revela Abílio Amiguinho, tem “como estrela” uma iniciativa denominada “Entre Contos”, em que as narrativas, algumas criadas pelos beneficiários, são depois partilhadas com a “comunidade através da edição radiofónica”.

Alexandra Janeiro, animadora sociocultural e presidente da direção, acrescenta que duas histórias, escritas pelos idosos, irão ser transformadas em teatro radiofónico a gravar nas instalações da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do IPP, para depois serem emitidas na Rádio Portalegre.

Outra atividade em curso surgiu de uma proposta do presidente da União de Freguesias de Reguengo e São Julião – trata-se da reabilitação da Romaria de São Mamede. O objetivo reatar, através dos seniores, a “ligação entre a cidade e a serra”, que ao longo do tempo se foi perdendo. Alexandra Janeiro explica que a atividade se enquadra na iniciativa “Entre Museus e Património”, que envolve também a recuperação do tradicional Baile das Camélias, em mais uma “forma de aproximação à comunidade” da freguesia.

O novo projeto da cooperativa, já se viu, organiza-se por segmentos, cada um com as suas atividades. O “Entre Museus e Património” inclui também uma vertente dedicada ao património ambiental, cujo programa compreende, por exemplo, troca de experiências e conhecimentos entre seniores e jovens ao longo de percursos pedestres. Outra é dedicada ao património imaterial, com o visionamento de documentários relativos à laboração das fábricas do concelho, hoje encerradas, e à “recolha de memórias e histórias relacionadas” com essa atividade industrial. Depois, há ainda iniciativas para “capacitar os seniores nas novas tecnologias”, com recurso a telemóvel e computador.

O objetivo “é a quebra de isolamento da população envelhecida”, nota Ana Fartouce, registando que haverá ações abertas a toda a comunidade, independentemente da idade. De acordo com Abílio Amiguinho, os beneficiários são pessoas “mais velhas, mas relativamente autónomas”, condição que lhes permite integrar-se nas atividades e, nesse sentido, “prolongar essa autonomia, protelando qualquer institucionalização” em lares. “Isso faz parte da nossa identidade, em termos de trabalho com os mais velhos”.

HISTÓRIA CENTENÁRIA

Fundada em 1898 por um grupo de trabalhadores da Fábrica de Cortiça Robinson, a Cooperativa Operária Portalegrense tinha como objetivo dar apoio socioeducativo aos trabalhadores das várias indústrias da cidade de Portalegre e às suas famílias, sendo ainda espaço de educação e cultura.

Abílio Amiguinho diz tratar-se da segunda cooperativa mais antiga em Portugal. “Inicialmente foi uma cooperativa de consumo e os operários corticeiros, dentro do ideal cooperativo, dividiam os excedentes em função das compras que faziam. Mas havia sempre uma parte que resultava para financiar o funcionamento da creche, por exemplo”.

Ainda que a Fábrica Robinson tivesse o seu próprio infantário, que surgiu para dar resposta ao problema da assistência materno-infantil das trabalhadoras, o grupo fundador da coletividade sentiu necessidade de criar uma creche na sua própria cooperativa. Assim como uma escola pri- mária, que em 1936 “tinha capacidade para 46 alunos”, frisa Abílio Amiguinho. “O que nós sabemos também é que tudo isto fazia parte do movimento e do ideal cooperativo, mas também profundamente ligado ao movimento operário”.

Num episódio do programa “Ephemera”, transmitido pela TVI em fevereiro de 2020, gravado à porta da antiga Fábrica Robinson, pois o acesso ao interior do edifício não lhe foi autoriza- do, o historiador José Pacheco Pereira lembra que a COP “começou numa altura em que não havia nenhuma das formas modernas de segurança social, portanto os operários organizavam-se entre si para poderem comprar produtos mais baratos, para em alguns casos poderem fazer o seu funeral em melhores condições, para garantirem uma assistência na doença (…) Surgia para colmatar as dificuldades que tinham”.

Para além da loja social de bens de consumo, existia um espaço próprio para festas de casamentos e batizados, que aconteciam ao fim de semana, e até para encontros a nível político. Sendo uma cooperativa de comércio, não resistiu ao aparecimento das grandes superfícies comerciais. 

“Esteve 40 anos praticamente inativa, com as portas abertas, mas sem exercer qualquer atividade associada ao seu objetivo”, refere a presidente da nova direção, que assumiu a gestão da cooperativa em 2015. “Aos poucos fomos revendo os estatutos e transformando o pacto social, e hoje somos uma cooperativa multissectorial com atividades no ramo cultura, solidariedade social e serviços, e, desde 2024, também de habitação e construção de imóveis”.

Alexandra Janeiro explica a necessidade da entrada no imobiliário com a “possibilidade de reabilitar os espaços adjacentes” à sede da Cooperativa, destinando-os a habitação. No total, foram construídas 12 casas pelos cooperantes, três das quais fechadas por precisarem de obras. Logo que sejam reabilitadas vão ser arrendadas a estudantes do Politécnico, à semelhança do que acontece já com três.“A nossa missão é cultural e social, e é para aí que tendemos ir. Ser de pleno direito uma cooperativa de solidariedade social”, conclui Abílio Amiguinho.

LEGADO OPERÁRIO

Fundada a 29 de abril de 1898 por 41 corticeiros da Fábrica Robinson, dos quais apenas um não era operário, mas escriturário, a Cooperativa Operária Portalegrense nasceu para dar apoio socioeducativo aos trabalhadores e às suas famílias, garantindo desde logo pão a preços justos para os operários e respectivas famílias. Por isso, cotizaram-se para comprar a primeira saca de farinha e transformá-la em pão. Sete anos depois era inaugurado o edifício-sede, que permanece na Rua da Cooperativa Operária e se tornou palco de baile, creche, mercearia e celebrações comunitárias. Inativa durante 40 anos, retomou em 2015 a sua missão social e cultural.

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