Migração, imigração, emigração, é escolher. Ando cansado das demandas e desígnios de falhados. É muito triste quando a falha de memória de milhões de portugueses é permanente – essa raça ímpar, pura, orgulhosa do Afonso que bateu na mãe – e entendo ainda menos a trend de jovens paridos em anos de 2000 que fazem corar de vergonha qualquer Salazar coscuvilheiro de esquina.
O fenómeno de estrangeiros a tentar vida melhor em países que lhes são estranhos não é de hoje; somos, aliás, velhos decanos na arte de nos desenrascarmos em francês ou em alemão para fazermos pela vida, e nunca nos envergonhámos, e nunca admitimos que alguém nos beliscasse.
Em lugar disso, aglomerámo-nos em pequenas comunidades a tentar a autossubsistência: aos croissants, preferimos pasteis de nata; às frankfurters, o salpicão; tudo isto sob o projeto imperialista do bacalhau e do vinho e de quem, orgulhosamente só, nunca quis pertencer aos locais. Ora, não estranhemos então que os desvalidos asiáticos que aqui chegam ao burgo travestido de el dorado tentem fazer pela vida. Podemos exigir-lhes que cumpram as regras, mas não uma cultura que não é a deles. Seria mera hipocrisia.
Em 2024, os imigrantes a trabalhar em Portugal descontaram 3,6 mil milhões de euros para a Segurança Social, valor recorde que representa quase 12,5% do total das contribuições. Assim se paga grande parte das pensões de quem cospe pevides para o ar e pede a expulsão imediata. Esta espécie de militância frendida que se anda a instalar cada vez menos sorrateiramente atinge a bizarria quando entramos no âmago da portugalidade inventada sabe-se lá por quem.
E aí é fácil: falta-nos a verve mediterrânica porque somos atlânticos, ainda que nos achemos em todo o lado; falta, segundo Miguel Torga, “o romantismo cívico da agressão”; e falta entender que patriotismo não é bater na peitaça pelo fado, mas só depois de a Rosalía se chegar à frente para o cantar.
Pior, confundimos tudo isto com a defesa da pátria, como se fossem os imigrantes os responsáveis pela alegada falta de patriotismo generalizada. Nada disso, e o Alentejo é bom exemplo. De Grândola a Barrancos, são muitos os que são e estão sujeitos às leis que não são, em muitos dos casos, as do mercado. Suam o que não queremos, e mesmo assim olhamo-los com o desdém de uma espécie de classe média em bicos de pés.
Quem imigra quer trabalhar, precisa disso como de água com sede, e quem cá nasce tem o dever (até moral) de saber fazer o que nos fizeram e principalmente o que não nos fizeram nos países por onde andámos. Viver e aprender já não era mau.
É pena que surjam dois pesos e duas medidas quando, por exemplo, chegamos ao futebol. Nesse caso, se o 11 do Benfica tiver dez estrangeiros, não faz mal. Aliás, faz, quando a coisa corre mal (e para mal dos meus pecados anda a correr demasiadas vezes); mas se for para ganhar o campeonato, podem ser 11 bengalis que depressa a malta se faz tolerante e reforça a mística com mais um ou dois. Venham! A tal arte do desenrascanço tem destas incoerências, e a espinha lá entorta um bocadinho mais nestes momentos.
E agora que os aspirantes presidenciais já por aí andam a desfiar retórica e a quererem almofadar-nos as angústias, não é má ideia que coloquemos a mão na consciência e percebamos, antes de mais, que portugalidade é esta que nem sabemos definir e defender. Ostracizar e destratar quem chega não é digno de quem tem um passado secular pejado de tantas telhas envidraçadas.
A raça é só uma, a humana. Lembremo-nos disso quando formos ao lar ver os nossos velhos e percebermos que se não fosse África ou a Ásia, este cantinho à beira-mar plantado já nem gente teria para sacudir o bolor do pensamento.
Fotografia: José Coelho/Lusa/Arquivo












Uma resposta
Parabéns, Carlos! Obrigada por esta reflexão assertiva, que deveria ser lida e pensada profundamente, por quem tem memória curta , ou manifesta ignorância, no que ao povo português e a Portugal diz respeito!
Tudo a que estamos a assistir e a viver é, no mínimo, insano!!