Crónica de Carlos Leitão: “Mauthausen, a noite má”

Há muito que defendo ser fundamental sabermos bem a História, seja através do cinema, da escola, em casa ou indo aonde ela se escreveu. Desta vez, o filme “Nuremberga” levou-me numa viagem a um local marcante que mudou a minha vida: o campo de concentração de Mauthausen. É História, humanidade, consciência, e um misto de esperança, mas também do seu contrário.

Carlos Leitão (texto)

A chuva caía-me em cima batida com a força da nortada, e a neve adensava-se nos Alpes que pareciam sempre um postal à nossa volta. Eu, com mais três camaradas de palco e de estrada, quis ver de perto o que me contavam em cada ano dourado de democracia. O Dietmar – promotor, motorista e irmão para a vida inteira – não queria que fossemos; o pai pertencera à Gestapo, e esse é também um problema para a vida inteira. Ficou na carrinha.

Pela formação jornalística e paixão pela História não podia enjeitar a oportunidade. «Não vás! Se fores, vais arrepender-te», advertiu-me ele agarrado ao volante com grilhetas imaginárias inquebráveis. Mas eu fui. Quis fazer a visita sozinho, sem bitaites ou chamamentos dos outros para ver não sei o quê.

O tempo cinzento e gelado do janeiro austríaco não dava tréguas, nunca as deu; não havia mais nenhum visitante, apenas nós e as imagens que construíamos nas nossas cabeças à medida que avançávamos pelo campo (dispenso-vos de adjetivos); julgo que todos deveríamos ali passar algum tempo, uma vez na vida que seja, para saborearmos o privilégio de cada sopro de vento, cada pinga de chuva, cada passo dado em liberdade no mais aterrador dos espaços em que respirei.

No final, o Dietmar mostrou-me um postal; tinha a foto de frente, de trás e de perfil de uma cigana prisioneira em Mauthausen que se tornou sua amiga; trabalhou com ela em palestras e lançamentos de vários livros. Não me recordo do seu nome, mas para mim era, na primeira pessoa, o holocausto.

Fizemos o resto da viagem em absoluto silêncio; cravei os olhos no vidro e não explico o que senti, nem tento, deixei-me ir em toada lúgubre arrastada até ao teatro: «Vais arrepender-te deste dia, mas o concerto é teu, tu é que sabes», segredou-me o meu bruder austríaco, em modo agoirento antes da palmada nas costas de boa sorte. A verdade: foi o pior concerto da minha vida, feito de desconcentrações, esquecimentos, cordas partidas, falhas sonoras, e de uma má energia desconhecida até aí.

Visitar um campo nazi é uma experiência inesquecível, dura, que passa a estar presente na memória, como poucas me ficaram tão níti- das. Talvez por isso tenha decidido recentemente desafiar o escandaloso preço dos bilhetes de cinema, sentar-me para ver “Nuremberga” e o excelente desempenho de Russell Crowe, enquanto Hermann Göring, um dos mais poderosos da máquina trituradora de Hitler. Impactante.

Mais uma vez, por estes dias estranhos em que nos empurramos para o cataclismo que ninguém quer, mas que todos adivinhamos, os fantasmas de 1945 estão cada vez mais nítidos, e se Russell Crowe é apenas um ator desempenhando o papel de um monstro, a História está ali, viva, tal como hoje se agiganta aos medos de uma humanidade cobarde e temerosa. O fascismo, depois da letargia de anos, aí está a apresentar-se como a liberdade salvadora, e não como o seu contrário.

“Nuremberga” levou-me outra vez a Mauthausen. Oitenta anos depois do final da guerra, a atualidade e o passado combinam-se em plano descendente, desenhado pelo populismo beligerante (ou cobardolas) dos que mais gritam, a par da passividade silente das memórias que se tornaram vãs em tão poucas décadas. Ali estou outra vez, a imaginar mortos esqueléticos amontoados, chaminés fumegando o desespero judeu nas câmaras de gás, e um silêncio tenebroso que nunca sei escrever.

Não sei do futuro, mas sei do passado, e ao contrário do que o Dietmar me pediu aos portões do campo, não acho que haja concerto que justifique deixar passar ao lado o tempo de viver uma experiên- cia destas. O amasso do final da noite haveria de passar, mas o que era isso comparado com o sofrimento daquele local maldito, dos que ali morreram e dos seus sobreviventes? Foi só o final de um concerto mau, feito de má energia que não devia ter ido connosco para palco. O público perdoou.

Guardei-me de todos no camarim, e como se não me sentisse mal o suficiente, o Dietmar bateu à porta pouco depois pedindo licença para entrar. Não trazia a loucura habitual, antes lágrimas nos olhos, e abra- çou-me: «Recebi a notícia de que a cigana de que te falei à saída de Mauthausen morreu esta noite durante o teu concerto».

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