Há dias, a minha tia contava-me, numa viagem, a têmpera de que foi feito o único avô que não conheci, o seu pai. Dizia-me, ainda com algum pudor e tristeza ao final de tantos anos, que o patrão, por vezes, não aparecia à sexta-feira para lhe pagar o salário da semana. O «Mestre Zé Leitão» fazia então o caminho a pé de volta à vila, sem carro, sem carroça, sem bicicleta. A pé, depois do clássico «sol a sol» da época. E a minha avó lá o confortava no regresso com as mentiras possíveis da pobreza.
Sempre me impressionou quando o meu pai falava de como era duro o caminho do Mestre Zé. A eventual boleia de uma carroça não chegava para paliar anos e anos de caminhos solitários de sol e chuva. Soava-me a ironia saber que um abegão nunca teve o luxo de umas rédeas nas mãos e de uma besta puxando a carroça. Foi sempre a pé.
Habituei-me, na meninice e, com efeito, até há uns punhados de anos, a ver o Alentejo das estradas miseráveis e dos automóveis ainda a ultrapassarem carroças e motorizadas em estradas esburacadas, onde se sentia a calçada inicial nas bermas e nas suspensões. Era rude e era rudimentar. Mais tarde veio a autoestrada, as portagens, as áreas de serviço, as queixas dos tasqueiros e restaurantes de Vendas Novas, cujos lamentos eram tirados a papel químico dos congéneres da Mimosa e do Canal Caveira nas viagens nortenhas e lisboetas a caminho do «el dorado» do agosto algarvio.
Há mais de vinte anos, quando o Alentejo me deixou cá morar pela primeira vez, as viagens de carro para a capital eram feitas pela Nacional 4, que nesse tempo era bem boa e não me sacava em portagens os maços de tabaco de que eu julgara precisar para viver. E a A6 ateimava-se, sozinha, em ser uma autoestrada quase fantasma, que se animava nos fins de semana dos turismos rurais.
Eu exclamava como era possível manter uma obra daquelas dessa forma. Fazia-me espécie e doía-me na carteira quando saía atrasado para a urbe ou voltava com a pressa de chegar a casa. Mas os preços nunca desceram, subiram sempre. Se não era da inflação, haveria de ser por outra coisa qualquer.
No final do ano passado, arregalou-me a alma saber que neste abril as portagens da A6 passam a isentar moradores e empresas com morada fiscal no Alentejo. Para quem, como eu, quis voltar à terra certa e olhar para Lisboa como um local de trabalho e uma contingência, a notícia foi a justiça a vestir-se de capote e botas caneleiras. É que, vistas as coisas, o comboio continua a falhar vezes demais às gentes e, mesmo que as camionetas façam o trajeto a preços acessíveis, para um músico jornalista que tem a noite como fiel depositária do tempo, não há carreira nem locomotiva que lhe dê guarida para depois da meia-noite.











