«O gordo vai à baliza!»

Houve um tempo em que as coisas se resolviam entre os intervenientes. Os problemas morriam quase antes de nascer, não se disseminavam como vírus. No futebol ou na vida, faz falta que os jogadores se cheguem à frente e tratem de ser mais inteligentes do que têm sido. Sem cobardia, dentro e fora de campo.

Carlos Leitão (texto)

«O gordo vai à baliza». Era assim que acabava o escalonamento das equipas na praceta. Eu era o gordo. Mais, tinha um par de óculos e pouco jeito de pés, diziam, razão mais do que suficiente para um papel menor e menos comprometedor entre os inequívocos titulares.

Entretanto, começou a insultar-me a ideia de ser o títere manietado pelos aptos, mas nem por isso me quedei pelas queixinhas ou a choramingar frustrações. Enchi a peitaça, lancei-lhes meia dúzia de impropérios e abandonei a modalidade, desejando que me implorassem o regresso.

Quando comecei a ir com o meu pai aos distritais, era o vernáculo burgesso de que mais me lembro, entre couratos e minis, GNR meio ébrios e baristas sem mãos a medir no balcão de contraplacado e palhota. A bola era o menos importante, excepto se houvesse filhos em campo ou a necessidade gregária de mandar o árbitro de volta para dentro da sua mãe.

No pelado, as pernas cobriam-se sempre de sangue e sarrafada sem pedir licença, e não havia queixinhas nem choraminguices. Ali era para homens, para a barba rija de neandertais vestidos de futebolistas, uma espécie de matança à base de cotoveladas e pés em riste para alcançar a tão almejada vitória.

Até que um dia fui finalmente ao Estádio da Luz. «Abre os olhos que a carroça vai cega», ouvi a quem mimava o árbitro a partir do terceiro anel. Não sabia se o árbitro ouvia, mas era óbvio o orgulho partilhado entre os milhares de adeptos que riam com as suas balizas de dentes extintos. As ofensas não eram mais polidas do que no distrital, mas dissipavam-se depressa, dada a dimensão do espaço. Lá em baixo, o Carlos Manuel, o Diamantino e o Humberto Coelho eram imunes e espalhavam a magia sem passar bilhete a tantos que não mereciam o seu espectáculo.

Nada disto era certo, muito menos ideal, mas foi o que foi, aliás, é o que é. O futebol, ópio do povo desavindo, tem andado a medir os homenzinhos que tentam, pela virilidade, chegar à condição de homo sapiens, nem que para isso se agarrem uns aos pescoços e se empurrem uns aos outros. A história confirma umas dúzias de galhetas, cabeçadas, lesões de meia época e términos de carreiras. Não tem nada a ver com consagrações de maturidade, bem pelo contrário, mas é o que é.

Daí que, por estes dias, chamar «macaco» a alguém me mereça a pena de ver o ofendido sem arte para arregaçar as mangas e diminuir com classe o tamanho de um racista até à insignificância, sem que seja preciso rachar-lhe a cabeça ao meio. Porém, a repugnância do momento esbarra na queixinha fácil de um dos melhores do mundo, a correr para o árbitro, clamando o castigo eterno ao pífio argentino que ainda cheira a leite e nem cara tem para levar um sopapo dos distritais.

Que não se banalizem os insultos racistas e de todas as índoles dos miseráveis, mas gostava que — ao menos na bola — se aprendesse a ser homenzinho sem ser precisa a intervenção dos pais ou de júris. Era assim num tempo ido, não era o melhor, mas era o que era. Não me agrada que o gordo continue a ir à baliza porque tem medo dos calduços e das leis, e o mesmo quer dizer que Vinícius e Prestianni são, cada um ao seu estilo, dois péssimos exemplos de como devem nascer os homenzinhos dentro do campo. Estes dois mereciam os distritais para se porem em tempero e aprenderem a descobrir para que serve o cérebro, essa rara benesse de quem sabe calçar a luva branca para meter as bolas no sítio certo.

O racismo, afinal, nunca de cá saiu, como não saiu o bullying, a discriminação e tantos outros preconceitos que não são mais do que a pequenez humana a agigantar-se. Precisamos de inteligência. Só assim podemos ter esperança de que, pelo menos, dois jogadores de futebol saibam ser homenzinhos antes de incendiarem o mundo inteiro.

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