«O gordo vai à baliza». Era assim que acabava o escalonamento das equipas na praceta. Eu era o gordo. Mais, tinha um par de óculos e pouco jeito de pés, diziam, razão mais do que suficiente para um papel menor e menos comprometedor entre os inequívocos titulares.
Entretanto, começou a insultar-me a ideia de ser o títere manietado pelos aptos, mas nem por isso me quedei pelas queixinhas ou a choramingar frustrações. Enchi a peitaça, lancei-lhes meia dúzia de impropérios e abandonei a modalidade, desejando que me implorassem o regresso.
Quando comecei a ir com o meu pai aos distritais, era o vernáculo burgesso de que mais me lembro, entre couratos e minis, GNR meio ébrios e baristas sem mãos a medir no balcão de contraplacado e palhota. A bola era o menos importante, excepto se houvesse filhos em campo ou a necessidade gregária de mandar o árbitro de volta para dentro da sua mãe.
No pelado, as pernas cobriam-se sempre de sangue e sarrafada sem pedir licença, e não havia queixinhas nem choraminguices. Ali era para homens, para a barba rija de neandertais vestidos de futebolistas, uma espécie de matança à base de cotoveladas e pés em riste para alcançar a tão almejada vitória.
Até que um dia fui finalmente ao Estádio da Luz. «Abre os olhos que a carroça vai cega», ouvi a quem mimava o árbitro a partir do terceiro anel. Não sabia se o árbitro ouvia, mas era óbvio o orgulho partilhado entre os milhares de adeptos que riam com as suas balizas de dentes extintos. As ofensas não eram mais polidas do que no distrital, mas dissipavam-se depressa, dada a dimensão do espaço. Lá em baixo, o Carlos Manuel, o Diamantino e o Humberto Coelho eram imunes e espalhavam a magia sem passar bilhete a tantos que não mereciam o seu espectáculo.
Nada disto era certo, muito menos ideal, mas foi o que foi, aliás, é o que é. O futebol, ópio do povo desavindo, tem andado a medir os homenzinhos que tentam, pela virilidade, chegar à condição de homo sapiens, nem que para isso se agarrem uns aos pescoços e se empurrem uns aos outros. A história confirma umas dúzias de galhetas, cabeçadas, lesões de meia época e términos de carreiras. Não tem nada a ver com consagrações de maturidade, bem pelo contrário, mas é o que é.
Daí que, por estes dias, chamar «macaco» a alguém me mereça a pena de ver o ofendido sem arte para arregaçar as mangas e diminuir com classe o tamanho de um racista até à insignificância, sem que seja preciso rachar-lhe a cabeça ao meio. Porém, a repugnância do momento esbarra na queixinha fácil de um dos melhores do mundo, a correr para o árbitro, clamando o castigo eterno ao pífio argentino que ainda cheira a leite e nem cara tem para levar um sopapo dos distritais.
Que não se banalizem os insultos racistas e de todas as índoles dos miseráveis, mas gostava que — ao menos na bola — se aprendesse a ser homenzinho sem ser precisa a intervenção dos pais ou de júris. Era assim num tempo ido, não era o melhor, mas era o que era. Não me agrada que o gordo continue a ir à baliza porque tem medo dos calduços e das leis, e o mesmo quer dizer que Vinícius e Prestianni são, cada um ao seu estilo, dois péssimos exemplos de como devem nascer os homenzinhos dentro do campo. Estes dois mereciam os distritais para se porem em tempero e aprenderem a descobrir para que serve o cérebro, essa rara benesse de quem sabe calçar a luva branca para meter as bolas no sítio certo.
O racismo, afinal, nunca de cá saiu, como não saiu o bullying, a discriminação e tantos outros preconceitos que não são mais do que a pequenez humana a agigantar-se. Precisamos de inteligência. Só assim podemos ter esperança de que, pelo menos, dois jogadores de futebol saibam ser homenzinhos antes de incendiarem o mundo inteiro.










