O cheiro do carvão a furar a noite pelos campos era o sinal do Alentejo. Tantas vezes, em horas desavindas e pouco recomendáveis, a viagem para sul era feita com os seus aromas a invadirem o meu velho Fiesta sem ar condicionado, de chauffage avariada e manta sobre os joelhos para disfarçar a míngua. A fresta da janela servia apenas para expelir os fumos malditos antes de congelar os dedos e para desembaciar o possível de um automóvel excruciante.
Chegado a casa, era a lenha, a disposição ergonómica de tronco e galhos para o lume perfeito que as acendalhas, por vezes húmidas, com mais algum tempo, haviam de inflamar; e mesmo que eu fosse para a cama pouco depois, o lume haveria de ser cinza de laivos incandescentes e moribundos pela manhã, e essa é uma recordação que ainda hoje me sabe tão bem.
O inverno ainda havia de chegar em tempo certo, mas o Alentejo antecipava-se ao país litoral e ferrava-nos o corpo com as geadas e os nevoeiros de novembro. Aqui, antes de Lisboa, o Natal anunciava-se sem pompa e sem luzes, apenas com a natureza a lembrar-nos que o livre arbítrio é sua pertença exclusiva. Era o tempo de a lareira ser acesa, em muitos casos, todos os dias, muitas vezes logo pela manhã.
Segundo a lógica natalícia, ainda faltariam muitos dias para montar a árvore, e também não era altura de ceder ao consumismo inerente, mas sempre me marimbei para os cânones da quadra. Sem dizer nada a ninguém, a coisa era feita com vocação pueril, a sós, em dias solarengos, demoradamente. Só depois de a árvore montada e decorada é que a chuva e o vento me sabiam bem nas janelas, consolação deliciosa de quem esperara o ano inteiro. Era então a época de inventar jantares de Natal, acho que para mostrar tudo o que fizera para embelezar a casa. E foram muitos jantares. E ceias. E, por vezes, pequenos-almoços.
Nesses dias, a lareira trabalhava como uma fornalha de navio em alto mar, alimentada a toda a hora, mesmo que o frio não a justificasse. Mas a verdade é que nunca teve a ver com frio, antes com aconchego. Quando todos abandonavam o barco, e depois de eu decidir se arrumava hoje ou amanhã, lá estava ela a carburar oliveira (a minha lenha preferida ardendo de dentro para fora) e o azinho, e outras de proveniência desconhecida, à minha espera, sozinha, para curtirmos a solidão um do outro.
Luzes apagadas e um resto de vinho do jantar bastavam-se para o meu quadro predileto: Chet Baker e a sua voz meio tosca, mas ímpar, e o crepitar, esse som inigualável que ainda hoje oiço nesta minha nova casa que não tem lareira.
Às tantas já tinha um carro com ar quente e as viagens doíam menos, já não acartava com a lenha nos costados (iam levá-la a casa), mas os finais dos jantares continuavam a ser a ironia de me servir dos presentes para me aproximar dos que estavam longe e que abraçaria em breve.
O Natal estava, pois, iminente. Para poupar os meus pais que haveriam de chegar dentro de dias, fazia as compras e tudo combinava com o meu irmão. Viriam os tios, a Dulce e as miúdas, e tudo teria o aprumo da excelência que se punha à mesa, cedo na manhã da véspera, au point para a sua chegada. Mais lenha: “Luís, por favor acomode-a ali ao canto do pátio que a gente já a arruma”. Os aromas, as cores, os musgos agarrados como lapas, em breve tudo se transformaria num lume de muitas horas, testemunha impassível das gargalhadas e de mil histórias noite fora.
Há um ano voltei para o Alentejo. Não tenho lareira, o meu pai já cá não está, entre doentes e ausentes junta-se o que se pode sorrir, como combustível de troncos e galhos para não deixar apagar o lume. Afinal, é de memórias que vos escrevo, nada mais, e essas são ardentes como mais nada é. É esta a minha magia do Natal: a resiliência dos que estão e as mãos dadas aos que partiram. Ofereceram-nos as memórias para o sapatinho. Façamos por elas.











