Crónica de Carlos Leitão: “O prelúdio”

De forma inconsciente, a minha cabeça anda a adequar música a tudo o que vivo, seja bom ou seja mau. Não me recordo de mim sem ela, e muita pena tenho de não nos termos - a todos - numa mesma flotilha de esperança que ela tem para nos dar. As suas cores podem mesmo ajudar a salvar os outros e, já agora, nós próprios. Carlos Leitão (texto e fotografia)

Escrever uma crónica com os olhos cravados no campo e a mente tão distante da cidade é uma bênção mundana que não qualifico, coisa de quem continua a viver com as carnes viradas para a lua. Se lhe juntamos “Claire de Lune”, de Claude Debussy, então este terceiro movimento da Suite Bergamasque faz com que o compositor francês pareça estar aqui, sentado ao piano, a contemplar o clássico da singularidade alentejana. A música, quando boa, transporta-nos; neste caso transportam-se os músicos para junto de nós.

Na verdade, quando raciocino a sul, a “Sinfonia n.º 5” de Mahler e o “Requiem” de Mozart soam-me sempre casáveis; cabem na primavera e na borrasca, no recato da morte e na celebração da vida que por aqui florescem em medidas iguais. É uma das vantagens desta terra: um músico quer-se com os horizontes abertos, tanto como o que agora tenho diante dos olhos.

Toda a melancolia que se amealhar é para dar de beber à alma, não a torno combustível de coisas piores, pois o Alentejo nunca é merecedor de tal heresia. Não me tenho em contas líricas, não sou esse músico, gosto mais do cheiro da terra molhada, da erva acabada de cortar, do restolho, do vento bravo, e isso nada tem de lírico: é terreno, como a música deve e tem de ser.

Eu sei que os meus amigos da cidade vêm cá a casa e perdem-se de encantos, mas, por norma, a coisa dura três dias; depois vem a atração capitulada da cidade, aquela modorra disfarçada de progresso que lhes soma o consultório psicanalista à rotina. Precisam dele, de serem ouvidos, para depois degustarem a validação de ajuda aos outros mortos-vivos da Lisboa crescida.

Talvez o “Movimento Perpétuo”, de Carlos Paredes, os colorisse um pouco, mas não me parece que o sufoco dos milhares de pessoas a toda a hora e em todos os lugares tenha a capacidade de se sentar num banco da Avenida da Liberdade, fechar os olhos, e entender o que o guitarrista disse um dia: “Só se vive no amor. Os empregos são intervalos”. Antes se criam bandos de urbano-depressivos a quem falta horizonte, terra molhada nas mãos e vento na cara e, já gora, boas doses de discernimento. Vir de fim de semana à terra bendita é curto para a lição.

Um dia destes fui à capital, atravessei uma manifestação e ouvi a dada altura: “Estás maluca! Então vimos a uma ‘manif’ pró-Palestina e queres voltar para casa de Uber? Vamos é de autocarro. O que seria!”. Pobre moça de conceitos avessos, pequenita burguesa tão distante da realidade e tão colada ao mundo bizarro que andamos a pintar desafinadamente de TikTok. A Palestina precisa da tua verdade, minha querida, não da encenação. Para isso já temos muitos, sôfregos.

Enquanto o sol se fina lá ao fundo, a play- list segue, aleatória, ignora-me as vontades, escolhe “Nocturne n.º 2” de Fréderic Chopin para final de crónica, epílogo bem gizado para nos reordenarmos nas mãos sábias de Maria João Pires. A espontaneidade da música também tem isto: sem fazermos nada, tudo se reencaixa durante uns minutos: eu, a miúda, o tempo ou a Palestina.

Com efeito, na medida certa da idade, ando a contar mais minutos. Por ora, não há sionistas nem terroristas, apenas a paz do horizonte a ser aquilo que deve ser, infinita; é como se os meus amigos não tivessem ido e ficassem neste banco de madeira azul-claro, virado a norte, de mãos dadas à moça manifestada que não deixamos cair. Tudo certo.

Já o disse, nada tenho de lírico; sentir a música sussurrando-me a alma é ela própria a fazer o seu papel, imperativa, mesmo para os que a mandam calar, mas a assobiam no banho. Se eu fosse lírico, chamar-lhe-ia “um soneto de amor inacabado”. Todavia, nem tento a definição, mas sei que é também com ela que podemos pintar vidas, as nossas, as palestinianas e as israelitas, e colorirmos a cólera de um conflito insano que não pertence a nenhum deles. Nem a nós. Escolham agora vocês a música.

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