É um fenómeno estranho: ora a agarram como cães raivosos, ora a desprezam como um cão vadio. A cultura é, feitas as contas, reflexo inequívoco de uma falta de jeito inata para sabermos andar nisto. Era importante discernir a importância que a cultura deve ter nas nossas vidas. Grosso modo, não o fazemos nem encontramos ferramentas para tal. Na dúvida, a culpa é dos políticos. São eles que usam a cultura a seu bel-prazer, em função do que se vê de proveitos lá mais para a frente. Mais a franja iluminada de artistas que faz mais ou menos a mesma coisa — os tais a quem a sorte vai bafejando, ano sim, ano não, com as cores alternadeiras da política que lhes garantem a subsistência.
É tão lato o conceito democrático que facilmente vibra nas gargantas charlatãs que gritam alto o Portugal batido no peito dos discursos culturais. Mas é centenária a falta de jeito e lá vêm os velhos refegos chauvinistas de um povo indeciso. A sua exigência mínima é o carburante para que políticos e agentes culturais ponham a fasquia cá por baixo e andem a confundir arte com entretenimento.
Ao invés, Esquerda e Direita esgrimem a tutela desse inóspito território cultural, cada vez mais esvaziado de tudo o que não seja mainstream. O povo encolhe os ombros e come. Pouco importa se os artistas são feitos a papel químico ou a inteligência artificial, se as galerias são gratuitas e continuam vazias, se um museu é coisa de velho, se um cantor quer procurar a diferença onde tudo é sempre igual. É mais fácil culpar.
Julgo que a política é sempre uma questão cultural, e isso requer atenção permanente da escassa maioria que ainda vota e crê, nunca menos que a salutar fiscalização das oposições parlamentares. Idealmente a cultura deve estar acima disso — pelo menos assim o sentia —, mas há muito que deixei os lirismos na borda do prato. Do que me lembro de defender com afinco: a política é cultura, então a cultura deve favorecer a política da escolha, democratizada no acesso e nas opções, olhando mais para a arte do que para os artistas, elevando-a acima de vaidades, caprichos ou tendências de ocasião.
Se viesse do berço seria excelente, mas o problema é geracional e não se extingue numa ridícula flauta de bisel batizada na escola em forma de aula de música. A arte e a cultura não devem ser ajustes diretos, mesmo que isso signifique alimentar os outsiders que dão de comer às suas vidas em caves, ateliers recônditos, garagens húmidas e outros locais de culto desconhecidos do «grande público». No patamar acima, o dos «iluminados», os concursos públicos abrem-se, mas para serem a sua própria antítese: há demasiadas camuflagens e falta a transparência reclamada pelos angélicos dignatários da sua defesa, que tudo comem.
Não é a Esquerda nem é a Direita. É um povo inteiro que se distrai com a árvore que lhe mostram e que tapa a floresta inteira; continuo a embasbacar-me com a capacidade de um país tão pequenino conseguir parir e medrar tanto mariola oportunista. Mas não os vemos porque estamos a ouvir os nossos filhos a tocar o Hino da Alegria na flauta.
Quem acha normal 1% do Orçamento do Estado para a Cultura ser uma meta ambiciosa ou anda a ver os aviões passar ou prefere a tacanhez secular da inapetência. Se não percebemos que estamos a falar de 0,26% reais — mais 22% face ao ano anterior, pasme-se —, então a alienação não justifica mais do que aquilo que temos. Governo e variadíssimos pequenos poderes enxertam o bolo para as oligarquias da arte — perdão, do entretenimento. E é um deleite! O povo quer-se divertido e deslumbrado pelas luzes do Big Brother e pelo fogo de artifício em meses de incêndios.
Falta a arrogância pseudointelectual que vive no gueto criado pelos seus; ali debatem a democracia e aferem quem fica com o quê; fala-se de candidaturas e fundos, injustiças e o seu contrário. Dantes era a Esquerda. Agora já não há lados nem políticas, apenas política. E ouve-se o seu silvo bífido cada vez mais perto. Agora que o verão aí vem, tudo se repete, ano após ano, distribuído pela mão Esquerda e pela mão Direita, tão ásperas e tão macias, apertadas, sempre distantes de uma realidade que tanto se sonhou — já moribunda.










