Este ano assinala-se o centenário da elevação da “notável vila” de Estremoz à categoria de cidade. Foi o culminar de um longo processo que começou ainda no século XIII, quando o Rei D. Afonso III concedeu honras de foral em 1258 ao burgo medieval. A distinção real representava a importância que Estremoz estava a adquirir, no quadro da defesa do território regional, e também a capacidade de atração de mais gente, que se sentia protegida de eventuais ataques de Castela, com a edificação de muralhas em volta de todo o casario.
Apesar deste cenário se apresentar favorável ao reconhecimento de Estremoz como cidade medieval, parece que a nobreza local não teve a ousadia de fazer tal proposta ao soberano.
Os anos foram passando e é já no século XVI que a História regista uma tentativa mais formal liderada por um grupo de famílias notáveis de Estremoz, junto do rei D. Sebastião, aproveitando a presença do rei no hospício de Vale de Infante, onde se tinha acomodado para uma caçada na Serra d’Ossa, algumas semanas antes da sua partida para o norte de África, para combater os “infiéis” muçulmanos. O monarca recebeu uma representação daqueles cidadãos, mas não lhes atendeu o propósito.
Em 1778, a iniciativa parte do Senado Municipal que dirige à Rainha D. Maria I uma petição, requerendo o estatuto de cidade para Estremoz, com o objetivo de alcançar a desagregação da comarca e da provedoria de Évora, às quais se encontrava anexada desde o século XVI. Novamente, sem sucesso. A comarca de Estremoz será criada em 1784, ainda no reinado de D. Maria I, mas a elevação a cidade não é concedida.
Continuamos a avançar no tempo. No reinado de D. Pedro V, por ocasião da sua viagem ao Alentejo em 1861, o rei ficou hospedado no Palácio Tocha, tendo recebido uma deputação de cidadãos que lhe solicitou a mesma mercê. Porém, desta vez foram os 40 maiores contribuintes para as finanças locais que se opuseram, receando terem de pagar mais impostos. Refira-se que, nesta época, era considerada boa prática de gestão municipal ouvir a opinião dessas pessoas, quando se tratasse de matérias de natureza fiscal.
Finalmente, é já no século XX, que o engenheiro Santos Garcia, como senador da República, eleito pelo círculo de Évora, apresenta a proposta ao Senado para criação da Escola de Artes e Ofícios de Estremoz, que vai começar a funcionar no Largo do Castelo em 1924. No ano seguinte, apresenta a proposta para elevação de Estremoz a cidade, que será aprovada na sessão plenária de 3 de junho de 1925. Terá sido uma das últimas sessões deste órgão, criado pela Constituição da República de 1911. Pouco depois, dá-se o golpe militar comandado pelo general Gomes da Costa. É imposto um regime de ditadura militar e o Senado é dissolvido.
É provável que a maioria da população de Estremoz nunca tenha ouvido falar do engenheiro-agrónomo Santos Garcia, mas esta personalidade teve grande influência na história de Estremoz, da primeira metade do século XX. Nascido em Évora em 1880, foi diretor da Escola Industrial e Comercial Gabriel Pereira entre 1916 e 1936. Foi também diretor da Casa Pia de Évora.
No Senado, foi uma voz bastante ativa na defesa dos interesses do distrito, não se limitando ao concelho de Évora, onde morava. Não se pense, no entanto, que o estatuto de cidade de Estremoz foi apenas o trabalho de um indivíduo. Ao longo de 1925 tiveram lugar em Estremoz vários acontecimentos que contribuíram para esse reconhecimento.
Antes de mais, a realização da I Feira Agroindustrial, em maio, no Rossio, organizada pela Câmara Municipal e pelo Sindicato Agrícola, entre outras entidades, que trouxe a Estremoz bastantes visitantes. A inauguração do certame contou mesmo com a presença do ministro da Agricultura, Francisco Amaral Reis. Mas também a abertura da Biblioteca Municipal, na antiga capela do convento de S. Filipe Neri e os primeiros passos para a criação do Museu Municipal, em sala anexa à Biblioteca. Na área do património, a Torre das Couraças e a Capela da Rainha Santa Isabel são classificadas como Monumentos Nacionais.
E em matéria de associativismo, surgem duas importantes agremiações: o Clube de Futebol de Estremoz (ainda com o nome de Estremoz Football Club) e o Núcleo da Liga dos Combatentes. Poucos anos antes, tinha sido inaugurado o Teatro Bernardim Ribeiro – uma obra de grande alcance para a projeção da cultura local e regional – que foi trabalho de muita gente empenhada no desenvolvimento de Estremoz.
E tinha aberto o Hotel Alentejano, no Rossio, por iniciativa do empresário Alberto Magalhães, que entrou rapidamente na rota do turismo nacional, graças às suas modelares instalações e à propaganda do ACP, que destacava o facto de o hotel ter garagem de recolha de viaturas.


Santos Garcia e Marques Crespo, dois obreiros da elevação de Estremoz a cidade
Nesta época, a Câmara Municipal era presidida pelo Dr. Marques Crespo, que gozava do apoio da esmagadora maioria da população. De acordo com relatos de pessoas que lhe eram próximas, o Município não esteve envolvido inicialmente nas negociações de bastidores conduzidas por Santos Garcia, junto dos seus pares, para garantir a aprovação da proposta no Senado.
A notícia foi recebida em Estremoz já depois da aprovação no Senado. Curiosamente, a oficialização só seria publicada em Diário do Governo a 31 de agosto de 1926, portanto, mais de um ano após a proposta ter sido votada no Senado (3 de junho de 1925). O diploma legal será assinado pelo Presidente da República de então, Óscar Carmona.
O Dr. Marques Crespo não acaba o mandato como presidente da Câmara Municipal (1923/26), porque é afastado do cargo pelo novo regime ditatorial, sendo substituído pelo major Luís Sampaio, à data oficial do Exército no Regimento de Cavalaria 3. A população insurge-se, mas ganha o mesmo. O governador civil de Évora, Máximo Homem Rodrigues, confirma no cargo o major Sampaio.
Por sua vez, o Dr. Marques Crespo retira-se da política e dedica-se à medicina no posto de socorros da Cruz Vermelha, ao estudo da história local e ao jornalismo. Em 1931, funda o jornal Brados do Alentejo e mantém-se como seu diretor até 1951. Voltará à política, para apoiar a candidatura do general Norton de Matos em 1948, à Presidência da República. Morre em Estremoz, em 1955, com 83 anos, depois de ter publicado o livro “Estremoz e o Seu Termo Regional”. Também em 1955, morre em Évora o engenheiro Santos Garcia.













Uma resposta
Obrigado. Desconhecia muitos destes factos.