Riccardo De Leo, engenheiro de software sénior, é o criador da RodOdemira, uma plataforma na internet que reúne, num único espaço, toda a informação sobre transportes públicos e privados no concelho de Odemira, o maior do país em extensão territorial.
«Um dia precisei de um autocarro e não encontrei um único sítio decente para consultar os horários. Fiz o que os engenheiros fazem quando algo os incomoda: construí o que faltava — grátis, para todos, sem truques», conta Riccardo De Leo.
Segundo o criador da plataforma, a ideia nasceu de uma necessidade pessoal e diária: «Mudei-me apenas este ano para a Boavista dos Pinheiros. Como não conduzo, sempre dependi de táxis ou de transportes públicos para me deslocar. Sendo um utilizador frequente, apercebi-me imediatamente da enorme lacuna existente na forma como a informação sobre estes serviços é apresentada e disponibilizada à população nesta zona. Foi essa necessidade real e diária que me motivou a criar a plataforma».
O desenvolvimento do site foi rápido, mas exigiu um trabalho meticuloso de tratamento de dados. «Demorei cerca de 10 dias a concluir a plataforma no seu estado atual», explica, acrescentando que a experiência profissional foi decisiva: «Tenho bastante experiência no setor da mobilidade, pois trabalhei na Unipart Digital, uma empresa em Cambridge que englobava desde a rede ferroviária nacional britânica, a parques de camiões (Magna Park), até motores da Rolls-Royce». Estar no «ecossistema tecnológico» de Cambridge permitiu-lhe ter contacto «com um espetro de soluções perfeitamente aplicáveis a problemas».
O maior obstáculo, refere, esteve na recolha e organização da informação: «O principal desafio técnico foi a extração e organização dos dados. Recolhi os contactos dos táxis a partir de fontes públicas e os horários dos autocarros através dos PDFs da Rodalentejo. Foi bastante complexo extrair os dados de uma forma congruente; dediquei cerca de quatro dias apenas para garantir que a informação retirada dos PDFs estava correta, cruzando o calendário de serviços com o calendário de feriados, o que exigiu muita confirmação humana».
Quanto ao funcionamento da atualização de horários e contactos, o criador da plataforma explica a arquitetura técnica que desenvolveu: «Modelei o mundo destas rotas usando o conceito de DDD (domain driven design), criando uma entidade para cada uma delas. Estas estão interligadas a um crawler (um robô de busca) que as examina diariamente e me avisa caso detete alterações nos documentos originais, permitindo-me intervir e atualizar o sistema».
Sobre a receção do público, Riccardo De Leo mostra-se satisfeito: «Pela minha experiência, posso afirmar que os números são excelentes para um software lançado há poucos dias e sem qualquer investimento em publicidade». Quanto ao contacto com as entidades locais, lamenta a ausência de resposta: «Contactei-as pedindo colaboração três dias antes de lançar o website, anexando um vídeo e um documento PDF. No entanto, até ao momento, ainda não obtive qualquer resposta por parte das mesmas».
A plataforma foi pensada para servir toda a população do concelho, incluindo residentes estrangeiros e visitantes, sendo disponibilizada em 12 línguas. É totalmente gratuita e não tem qualquer ligação a empresas ou financiamento — uma opção que Riccardo De Leo justifica com a vontade de retribuir à comunidade onde escolheu viver.
O engenheiro, que atualmente trabalha para uma plataforma com seis milhões de utilizadores simultâneos online e mais de 40 mil utilizadores mensais pagos, relata um percurso profissional internacional até se fixar em Odemira: «Trabalhei no Reino Unido em setores regulamentados, onde aperfeiçoei as minhas competências. No entanto, devido ao clima de intolerância pós-Brexit, decidi sair e mudei-me para Espanha, onde me apaixonei pelo sol e pelo calor. Mais tarde, decidi fixar-me em Portugal devido ao estatuto de residente não habitual, um processo que demorou um pouco mais do que o previsto devido à bolha imobiliária».
Sobre a vida que encontrou na Boavista dos Pinheiros, conclui: «Finalmente encontrei o meu pedaço de paraíso na Boavista dos Pinheiros, onde posso cultivar as minhas curgetes e beringelas, e viver feliz com a minha família, os nossos cães, o nosso gato, e talvez, num futuro próximo, arranjar algumas cabras! Sou um apaixonado pela cultura portuguesa e pela riqueza da presença multiétnica que temos aqui, por isso decidi fazer a minha parte e retribuir à comunidade com aquilo que sei fazer melhor».










