De Handel ao sabor das migas: Festival Terras sem Sombra regressa a Beja

O Festival Terras sem Sombra (TSS) reitera a presença anual no concelho de Beja, já este fim-de-semana, com um programa que entrelaça a grande música, a arte portuguesa na construção de instrumentos musicais e as memórias e identidades da mesa alentejana.

A noite de sábado, 13 de setembro, promete iluminar-se com a magistralidade da música de G. F. Handel, num concerto de uma das principais orquestras de Espanha, marcado para o Teatro Pax Julia. Acresce um programa musical que revisita obras de grandes compositores latinos, pela voz da soprano espanhola Hanna del Canto, uma estrela em ascensão no universo do bel canto

Composta em 1749, uma das obras mais célebres do alemão, naturalizado cidadão britânico, George Friedrich Handel, “Música para os Fogos-de-Artifício Reais”, ascende ao palco bejense, sob a batuta de Manuel Paz, à frente da asturiana OCAS – Orquesta de Cámara Solidaria, um agrupamento muito conhecido à escala europeia e que tem triunfado nos palcos da China e da América Latina.

“Em palco, contaremos pela primeira vez, na nossa região, com um dispositivo completo, o que inclui canhões de sala. Há que recordar que a peça foi originalmente pensada para acompanhar um grandioso espectáculo de fogos-de- artifício nos jardins de Green Park, em Londres”, comenta José António Falcão, director-geral do Terras Sem Sombra.

Ainda de acordo com José António Falcão, “estamos perante uma obra cimeira do compositor que se afigura muito oportuna também nos nossos dias. Na sua origem, esta peça celebra a paz entre Inglaterra e França, numa encomenda do rei Jorge II de Inglaterra. Hoje, também o mundo anseia por paz”.

OFÍCIO DE LUTHIER

Antes, à tarde, o tempo “desacelera” no atelier da família Cardoso, na aldeia da Trindade, onde guitarras, violinos e cavaquinhos nascem de mãos que cuidam a madeira como memória e futuro. 

“O Ofício de Luthier: Construir Instrumentos de Cordas na Trindade” é o título da iniciativa, com início pelas 15h00, e ponto de encontro na Rua José Mariano dos Reis, n.º 36, na Trindade, próximo de Beja. Aqui, José António Cardoso e o seu filho, Paulo Cardoso, dedicam-se à nobre arte do fabrico de instrumentos, neste caso a partir de um atelier a funcionar desde 2005 no meio rural. “Um sinal de uma nova Europa, descentralizada, capaz de encontrar na cultura um estímulo económico e social para o renascimento e a afirmação dos territórios rurais”, assinala a organização do TSS.

Nesta oficina produzem-se artesanalmente guitarras, violinos, violas campaniças, alaúdes, cavaquinhos, ukuleles e outros instrumentos tradicionais muito apreciados – e muito disputados. Em 2021, José António e Paulo Cardoso lançaram o evento “Artes & Ofícios – Cumplicidades”. São também autores do “Manual de Construção de Instrumentos”, obra em dois volumes, pioneira em língua portuguesa.

Alargando o olhar além do atelier da família Cardoso, Trindade afigura-se uma localidade que preserva o traço típico das comunidades rurais alentejanas. O casario caiado, as ruas estreitas e a igreja de traça gótica, da Santíssima Trindade (século XV), evocam séculos de vivência comunitária. O património imaterial manifesta-se em tradições agrícolas, no convívio popular e no cante alentejano. Por seu turno, as festas religiosas e romarias reforçam o sentido de pertença e continuidade cultural.

MIGAS EM BALEIZÃO

Traço marcante da identidade alentejana, a cozinha local dá mote à actividade que se desenrola em Baleizão na manhã de domingo, 14 de setembro, com ponto de encontro em Beja, junto às Piscinas Cobertas (9h30).

“Sopas, Açordas e Migas: Da Gastronomia Sustentável à Identidade Regional” propõe aos participantes uma viagem à essência da mesa da região, orientada por Ana de Albuquerque Piedade, professora da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Beja.

Frente aos tachos estará António Bexiga, mais conhecida por António das Migas, um cozinheiro de mão-cheia, referência da região. “Em pleno Alentejo, a cozinha fala da terra e da história através de pratos simples e generosos: açordas, migas e sopas, pratos presentes em todas as classes e épocas”, lembra a organização do TSS, assinalando a origem milenar das açordas, “possivelmente pré-romana, consolidada na era romana e enriquecida pelos árabes, que as celebravam em grandes festas”. 

Na sua apresentação em Beja, o Terras Sem Sombra conta com a parceria do Município e de outras entidades locais e da Embaixada de Espanha em Lisboa. Sublinhe-se o regresso, em 2025-26, ao apoio sustentado da Direcção- Geral das Artes, obtido mediante concurso público.

Texto: Alentejo Ilustrado | Fotografia: Arquivo/D.R.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Partilhar artigo:

ASSINE AQUI A SUA REVISTA

Opinião

CARLOS LEITÃO
Crónicas

BRUNO HORTA SOARES
É p'ra hoje ou p'ra amanhã

Caro? O azeite?

PUBLICIDADE

© 2026 Alentejo Ilustrado. Todos os direitos reservados.

Desenvolvido por WebTech.

Assinar revista

Apoie o jornalismo independente. Assine a Alentejo Ilustrado durante um ano, por 30,00 euros (IVA e portes incluídos)

Pesquisar artigo

Procurar