De Paris à Azaruja para dar nova vida à fábrica de cortiça do avô

Maria do Carmo Duque viveu mais de duas décadas em Paris antes de regressar à Azaruja para fundar, na antiga fábrica de cortiça do avô, a associação cultural Fábrica Catalã. Palco de exposições, concertos e conferências que aproximam artistas portugueses e catalães, o espaço prepara agora o Centro de Memória da Cortiça e das Migrações do Alentejo.

Maria Luísa Ferrão (texto)

Maria do Carmo Duque é a presidente da direção e cofundadora da Fábrica Catalã, uma associação cultural que nasceu em 2021, em Azaruja, numa antiga fábrica de cortiça que era do seu avô, descendente de catalães.

Licenciada em História e em Arqueologia na Sorbonne, viveu em Paris mais de duas décadas, e foi lá que teve a liberdade para pensar num projeto inovador que pretende posicionar a Azaruja num lugar de encontro obrigatório entre pessoas que naturalmente não se cruzariam na vida. É isto que a move para além da procura pelo «belo».

Quais são as memórias do tempo em que era criança e vivia nesta casa integrada no recinto da fábrica

As memórias são múltiplas, mas destaco a olfativa. Tenho muito presente o cheiro da cortiça quando acabava de ser cozida e o cheiro das raspas onde brincava com o meu irmão e com amigos de infância. Depois tenho a memória de ser protegida neste espaço, quer pela minha família que vivia praticamente dentro da fábrica, já que a casa onde morávamos estava construída neste recinto, quer pelos trabalhadores, que tomavam conta de nós.

Viveu em Paris mais de duas décadas e trabalhou na área artística. O que a fascinou em Paris?

A liberdade. Em Paris tudo é possível. Há uma grande liberdade de expressão com uma energia coletiva incrível de lutar por aquilo que se quer, uma grande circulação entre meios e pessoas. A estética, a procura do belo sempre me fascinaram e, em Paris, estes dois aspetos estavam muito presentes sendo que a oferta cultural era enorme. Muitas exposições para conhecer, muitos concertos para assistir e, em todos os domínios, havia uma oferta cultural de grande qualidade que sempre alimentou a minha vontade de aprender e de «procurar» o belo. Creio que é por isso que a fotografia me fascina tanto. É uma maneira de ver o mundo de forma escolhida, mais bonita e profunda, enquadras aquilo que achas mais interessante e que tem mais informação estética.

Depois decidiu vir dar nova vida à fábrica de cortiça do seu avô. Como surgiu essa ideia e qual foi a motivação?

Foi mais uma configuração familiar e de oportunidade porque o meu irmão geria a fábrica de cortiça e depois fundou outra, também na Azaruja, e esta ficou vazia. Acho que é uma evidência quando se olha para esta arquitetura, ela poder acolher eventos culturais. Penso que o facto deste espaço ter ficado vazio e de estar habituada a frequentar muitas exposições em Paris reparando nos enquadramentos arquitetónicos das exposições me conduziu ao início do projeto da Fábrica Catalã. Tenho um interesse especial na história da minha terra e da minha família. Sempre tive muita curiosidade em saber quem eram estas pessoas que vieram da Catalunha no final do século XIX para aqui trabalhar a cortiça, e a ideia de quem eram era vaga. A primeira atividade que houve aqui na Fábrica foi uma exposição de fotografia sobre os descendentes das famílias catalãs que vieram para Azaruja e que desenvolveram aqui a indústria corticeira.

Este é um espaço que já acolheu vários tipos de eventos. Qual foi o mais marcante?

Não tenho assim um evento marcante, mas tenho momentos muito intensos e que irão permanecer na minha memória. A primeira vez que vi obras de arte no espaço onde antigamente se traçavam as pranchas foi uma emoção muito particular, assim como o dia em que iniciei a colaboração com a Trupe dos Bichos que nos abriu as portas da comunidade artística que se instalou em Pavia. Na segunda edição do Festival Suro, os tiradores catalães vieram cá fazer a tira da cortiça e trouxeram na bagagem legumes da Catalunha que partilharam em cima de uma prancha acabadinha de tirar com os tiradores de Azaruja. Esse momento foi importante e icónico porque simboliza a criação de pontes entre pessoas e territórios.

Qual é o objetivo da Fábrica Catalã?
A Fábrica Catalã está profundamente ligada à história e geografia da cortiça e das migrações corticeiras e quer promover o desenvolvimento social e local da região afirmando-se como um eixo de referência e conhecimento nos domínios da cortiça, arte, cultura e sustentabilidade. Pretendemos que haja aqui uma mistura de gentes, não só pessoas de Azaruja como de outros sítios e de diferentes áreas que trabalhem sobre o nosso património. E que exista neste espaço uma oferta cultural diversificada como concertos, exposições de arte, conferências. No futuro queremos organizar residências artísticas. Também temos uma preocupação com a sustentabilidade ambiental e gostaríamos de ter um papel pedagógico nesta área.

Quais são os próximos projetos?
Queremos construir aqui o Centro de Memória da Cortiça e das Migrações do Alentejo. Já temos um espólio considerável sobre a história de Azaruja e a presença catalã, temos também muitos objetos que eram utilizados nas fábricas de cortiça, temos documentação e há inclusivamente trabalhos universitários feitos sobre as fábricas de cortiça em Azaruja. Existe o testemunho dos operários e o que pretendemos é aprofundar este conhecimento e estruturá-lo com a colaboração dos vários parceiros e amigos da Fábrica Catalã. Há um projeto de arquitetura muito completo e contemporâneo, da autoria do arquiteto Rui Mendes, que quando estiver executado vai permitir consolidar toda a ideia do Centro de Memória que creio ser uma obra que enriquecerá a região e criará um ponto turístico ímpar no Alentejo.

Em termos de financiamento, como vive a associação?
Para cada projeto que se faz é solicitado financiamento a entidades específicas e muito do trabalho aqui desenvolvido assenta no voluntariado, em donativos dos fundadores e apoio de algumas entidades públicas e empresas privadas. Neste setor há muita precariedade e creio que esta dificuldade se deve também ao facto de o público não estar habituado a pagar entrada numa exposição. Há espetáculos que as pessoas estão habituadas a pagar caro, como por exemplo concertos, mas quando se trata de ir ver uma exposição de pintura, aqui no território, ninguém está disponível para pagar. Pagamos mais facilmente um restaurante do que uma exposição e às vezes pode ser mais enriquecedor ir ver uma exposição.

Para quem ainda não visitou a Fábrica Catalã, quais são as razões para virem conhecer?
Têm de vir conhecer o futuro Centro de Memória, que começa a construir-se, e o Festival Suro, que se realiza de dois em dois anos e que foi desenhado para ser um ponto de encontro entre artistas catalães e portugueses. A programação é variada, composta por concertos, exposições, conferências e oficinas para os mais novos onde se aprende muita coisa. Já temos a programação fechada para a terceira edição, agendada para maio do próximo ano, e estamos neste momento a trabalhar para conseguirmos financiamento. A primeira edição foi um sucesso. Tivemos um concerto com o Salvador Sobral que, ao piano, cantou em catalão emocionando todos os presentes com a sua forma de estar muito particular. Onde antes estava uma máquina de cortar pranchas de cortiça, naquele dia havia um piano e isso é fascinante.

Em relação ao Évora_27, como pretende posicionar a associação?
A Fábrica Catalã posiciona-se como um lugar de acolhimento para realização de eventos que estejam integrados na Capital Europeia da Cultura. Já temos vários espetáculos que irão ocorrer aqui e estamos abertos a acolher exposições e outros eventos que se enquadrem. Estas iniciativas, de acordo com aquilo que tenho falado com vários artistas estrangeiros, são sempre momentos onde se criam grandes expectativas e que geram, depois, momentos de grande deceção porque há um limite para os financiamentos. Por exemplo, a Fábrica Catalã candidatou-se à call «A Nossa Vez» com o Festival Suro, que não foi apoiado.

Como gostaria de ver a Fábrica Catalã daqui a dois anos?
Creio que a Fábrica Catalã é um work in progress e nós temos vindo a ser enriquecidos com a passagem de múltiplos talentos que deixam ideias e que acrescentam sempre algo ao projeto. Há muitas pessoas entusiasmadas e implicadas, nomeadamente o arquiteto Rui Mendes, que tem um projeto interessantíssimo de reconversão da Fábrica, e que o tem acrescentado à medida que os acontecimentos vão ocorrendo. Um projeto de arquitetura é muito mais completo se for feito com vagar, em verdadeira sintonia com o que vai acontecendo, permitindo ao arquiteto ir descobrindo o potencial do espaço.

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