Todos associamos a génese da guitarra (ou viola, como lhe chamamos por cá) aos espanhóis, mas o que talvez muitos não saibam é que as datas jogam a nosso favor e, por consequência, a verdade também. Foi Belchior Dias, lusitano dos quatro costados, em 1581, quem terá mostrado ao mundo pela primeira vez o dito instrumento. Salvo melhor informação castelhana que nos venha a querer contrariar, esta é a versão oficial; não percam tempo os ‘nuestros hermanos’, pois será sempre em vão. O Belchior chegou primeiro. Ora, não nos espantemos então que a mão-de-obra da excelência portuguesa perpetue a arte de bem construir instrumentos musicais, mas desta feita em terras alentejanas.
Foi em Cortiçadas de Lavre que encontrámos os ‘luthiers’ (construtores de instrumentos de cordas) que andam a granjear boa fama pela cidade grande e por outros mundos musicais. Daniel Garfo e Marco Gonçalves conheceram-se na Academia Nacional de Luthiers, e ainda por lá se mantêm lecionando cursos de construção de instrumentos.
Pouco depois da pandemia, acertaram agulhas e estabeleceram-se nas Cortiçadas de Lavre, montaram a oficina, investiram e receberam de braços abertos os apoios comunitários para criarem a Delfina Guitars, nome que serve de homenagem à mãe de Daniel e que se afirma no panorama musical.
“Eu comecei por ser músico, mas já construo instrumentos há sensivelmente 17 anos. Depois comecei a dar os cursos de construção, e daí ter-me juntado com o Marco que veio da Fundação Ricardo Espírito Santo com a sua especialidade dos embutidos e dos acabamentos. Já não parámos. Os nossos instrumentos são sempre de autor, assinados por nós”, conta Daniel Garfo.
É ele o responsável pela conceção, anatomia e soluções funcionais de cada instrumento. Só depois de há muitos anos começar por mexer nas suas guitarras é que vieram os cursos, e agora a Delfina Guitars. No tempo certo juntou-se o João Brandão, designer, que os ajudou a criar a marca e a impulsioná-la.
Profissionalizar todo o processo era fulcral, e a eles se juntaram também a Catarina Caixeiro (lixagem e acabamentos), o David Almeida (montagem), o Paulo Vicente (laser e desenho), a Inês Samina (marketing e comunicação) e o Orlando Ferreira que trabalha com a PLEK, uma máquina única na Península Ibérica que rasga o sorriso a Daniel Garfo: “A PLEK faz os setups dos instrumentos, é o grande investimento da empresa comparativamente à concorrência, uma máquina alemã [com um preço] que dá para comprar uma casa e que eu andava a namorar há dez anos. Trabalhámos muito para a conseguir comprar, e ter uma máquina que trabalha à milésima de milímetro é fundamental numa fase destas, se queremos continuar a crescer e a ser competitivos, mas a parte manual continua a ser aquela que faz toda a diferença”.

A Delfina Guitars rapidamente começou a ser falada, logo em 2022, quando foi criada; primeiro, em Lisboa, e cada vez mais o seu nome chega a outros países, mas é por cá que a fama dá os seus proveitos e se define cada vez mais e melhor: “Os objetivos estão muito bem definidos, os instrumentos muito benfeitos e com muita qualidade para que as vendas sejam constantes. Entretanto, já temos parcerias com músicos com quem estamos a desenvolver modelos de assinatura, por exemplo com o Ricardo Ribeiro, o Pedro Joia ou o Rui Veloso, entre outros”.
Daniel Garfo e Marco Gonçalves são as caras do projeto, e no caso de Marco não se estranha que troque todos os dias Vila Franca de Xira pelas Cortiçadas de Lavre: “É uma hora de caminho a 80 kms/h, faz-se bem, era pior se estivesse no trânsito de Lisboa. Somos muito privilegiados por fazermos o que amamos, e é uma benesse trabalhar num ambiente familiar e definir objetivos comuns. As dificuldades tornam-nos mais conscientes desse privilégio. Na verdade, nem sei o que é fazer as coisas de outra forma”.
Delfina é a junção de duas palavras – delicada e fina – que serve de mote ao que se desenvolve entre as paredes daquela oficina inspiradora. Quando ali entramos, sente-se a paz e o compromisso, a ambiência laboratorial destes oito magníficos que buscam a perfeição em cada detalhe de cada instrumento. Entre encomendas, serviços e cursos, a Delfina Guitars tem já um volume de negócio que a faz crescer todos os dias.
Recentemente chegados da Guitar Summit, que aconteceu em terras germânicas, Daniel Garfo não tem dúvidas do que ali se almeja: “Nós vendemos através de canais específicos, ‘showrooms’ e lojas de especialidade. Estarmos nas Cortiçadas de Lavre nada prejudica alguém que queira um instrumento nosso em Braga, Canadá, Hong Kong, Noruega ou Alemanha. Isso já não existe. As redes sociais e a estrada são absolutamente determinantes. Em Portugal há condições para fazer coisas muito boas, mas nós queremos estar entre os melhores da Europa, no máximo daqui a quatro anos. Há uma indústria gigantesca de instrumentos em Espanha, e nós respeitamos muito o trabalho deles, mas temos a particularidade e a vantagem de aliarmos o trabalho artesanal à tecnologia da PLEK”.
O cheiro das colas e das madeiras significam-nos o conforto suficiente para querermos ali ficar mais tempo, mas não sem antes percebermos qual é “a” guitarra perfeita para Daniel Garfo, músico de tantos anos que diz tocar guitarra nos dias de hoje apenas para as afinar: “Um instrumento de excelência, com grandes madeiras, muito bem executado, desde colas, vernizes, conjugação das madeiras. O mais difícil de tudo é a parte dos acabamentos. Porquê? Porque são muitas horas a dar a goma laca, dezenas de horas de trabalho para ficar como aqui achamos que deve ficar; o instrumento tem de vibrar e não ficar numa camisa de forças. Por fim, para mim a tocabilidade é fundamental, pois é também o primeiro impacto que o músico tem quando pega no instrumento pela primeira vez”.
Neste início de ano, Daniel e Marco contam que a aposta está em diversificar e, nesse sentido, a especificidade dos instrumentos usados no fado junta-se à oficina para serem trabalhados em paralelo com todos os outros modelos que compõem o portfólio da empresa: “Temos estado a investir em violas de fado, e estamos agora a terminar o primeiro protótipo de uma guitarra portuguesa. É mais um desafio, e já temos algumas encomendas”.
Cada instrumento da Delfina Guitars tem um pormenor delicioso: o sobreiro. Trata-se de uma espécie de assinatura que serve também para cravar o Alentejo na madeira e na memória de quem fica com uma destas guitarras: “Temos muito orgulho em sermos alentejanos e estarmos aqui, mas deveria haver mais projetos destes no Alentejo, falta o conhecimento para se chegar a eles. De resto, o segredo é sermos honestos e tratar as pessoas com dignidade. A vida das pessoas está sempre ligada ao trabalho, é a chave. Acho que o Alentejo tem de continuar a fazer o caminho dos equipamentos sociais para recebermos as crianças, os idosos, todos. Para isso é preciso haver trabalho, acho que depois a coisa acontece. Nós estamos a fazer a nossa parte”.
Falta apenas dizer que cada instrumento ali construído tem garantia vitalícia. Música para os nossos ouvidos.













Uma resposta
Mais uma razão, que vem engrandecer o Alentejo, para deixar de ser só procura para festas e lazer dos Lisboetas e sim mais um sinal de procura dos que não vêm o Alentejo só por interesse próprio. Parabéns ao Daniel e ao Marco e por sua vez ao Carlos Leitão, por dar conhecimento dessa nova existência no Alentejo.