Desaparecimento dos montados ameaça porco alentejano

O desaparecimento dos montados devido às alterações climáticas e a ameaça da peste suína africana transmitida pelos javalis explicam um decréscimo acentuado do número de produtores. As oportunidades de conquistar novos mercados internacionais esfumam-se. Disso se aproveitam os espanhóis, que criam o porco ibérico e o vendem para a China, como se fosse um exemplar com a mesma qualidade do alentejano.

José Bento Amaro (texto)

Os ventos não correm de feição para os criadores do porco alentejano. Espécie autóctone do centro e do sul do Alentejo, o número destes animais tem vindo a decrescer anualmente. Um desaparecimento associado à seca, muitas vezes severa, que nos últimos 15 anos tem assolado os montados, levando à morte de milhares de azinheiras, as árvores que produzem o alimento essencial dos suínos.

«É uma espécie muito ameaçada e as dificuldades na sua preservação preocupam-nos imenso», sintetiza a técnica de controlo de qualidade da Associação de Criadores de Porco Alentejano (ACPA), Inês Bento. «O montado é o sistema natural do porco alentejano que, apesar de ser um animal muito rústico, com grande facilidade de adaptação ao clima e ao meio ambiente do Baixo Alentejo, que tanto pode ser de seca como de frio, enfrenta o perigo de ver o seu efetivo reduzir-se ainda mais drasticamente, uma vez que há cada vez menos produtores», explica.

A responsável da ACPA diz que atualmente estão recenseados cerca de 50 criadores destes animais. É um número que tem vindo a baixar à medida que se prolongam os estios quentes, que vão dizimando as azinheiras e, em consequência, reduzindo os espaços onde se pratica a montanheira. «Há cada vez mais dificuldades para continuar a criar estes animais. As despesas são muito grandes e fazem com que muitos dos antigos produtores tenham abandonado a atividade. Atrás de um presunto ou de uma paleta de porco alentejano há sempre uma quantidade de trabalho imensa e crescentes dificuldades económicas», diz Inês Bento.

As quantidades de ácido oleico, a gordura insaturada que, dizem, faz bem ao coração, e as doses generosas de umami (palavra de origem japonesa que significa algo muito bom e agradável, sendo este um dos cinco gostos básicos do paladar humano) não caem do céu. Para adquirir estas características, os animais têm, nos cerca de três a quatro meses (de outubro/novembro a fevereiro/março) em que andam na montanheira, de ingerir as ervas e, sobretudo, as bolotas, cada vez mais raras.

Mas, mesmo antes de serem deixados no campo, todos os porcos alentejanos passam 14 meses (desde o nascimento) nas «maternidades» e em espaços vedados, onde são alimentados com cereais, também eles produzidos no Alentejo. «Em cada exploração, os animais são alimentados com trigo, milho e cevada. É preciso acompanhamento veterinário. Há sempre despesas a suportar e, no final, porque a produção é pequena, uma vez que vão rareando as boas montanheiras, os lucros também são poucos».

As dificuldades de quem produz são conhecidas, desde há alguns anos, pelas entidades estatais. Para minorar os baixos rendimentos, têm sido disponibilizados auxílios financeiros através de quadros comunitários. É uma ajuda, dizem os criadores, mas não chega para muito. «A bem da verdade, as ajudas são irrisórias», afirmam os associados da ACPA.

Espanhóis compram produção

Apesar de curta, a vida de um porco alentejano é suficiente para que este atinja, no momento da venda, entre 160 e 170 quilos. É com este peso que as grandes unidades industriais espanholas os vêm buscar, pagando por cabeça entre 750 e 800 euros. É, de resto, a bolsa espanhola que dita o preço a pagar por animais desta espécie.

São estes mesmos animais que depois dão azo a lombos, chouriços, paletas ou presuntos, que são revendidos por muitas dezenas ou até várias centenas de euros. «A quantidade de porcos alentejanos que ficam para consumo nacional é praticamente irrisória. Talvez se vendam anualmente, para alguns estabelecimentos específicos, cerca de um milhar de animais», afirma Inês Bento.

A conquista de outros mercados internacionais parece também uma jogada com poucas possibilidades de sucesso. Inês Bento diz que, para tal, seria necessário passar a ter mais terrenos e de maior extensão. «A China, por exemplo, há vários anos que tem manifestado interesse no porco alentejano. No entanto, por cá, não podemos competir com os produtores espanhóis, que têm áreas de terreno muito maiores, com um montado enorme que possibilita a criação de muitos mais animais».

Os números da ACPA dão conta de que, anualmente, os espanhóis compram a maioria dos cerca de oito mil exemplares que por cá são criados. Esses animais acabam também por ser encaminhados para estabelecimentos de luxo comprovado. É que em Espanha, apesar de todos os anos serem criados entre 700 e 800 mil porcos vendidos com a designação de «ibéricos», são realmente poucos os que possuem a genética própria e única do alentejano.

A maior parte dos exemplares puros encontra-se nas explorações pecuárias do Baixo Alentejo e também em Évora. Em Espanha, a preocupação não é criar a espécie e admite-se que os exemplares com a genética ideal, ou quase, não ultrapassem a dezena de milhar.

Atualmente existem menos de quatro mil porcas a procriar, mas há 13 anos o número era de 12 mil. Este decréscimo drástico comprova os receios de que a espécie possa mesmo estar à beira da extinção. É precisamente este um dos problemas que será amplamente debatido entre os dias 20 e 22 de março, quando em Ourique se realizar a 18.ª edição da Feira do Porco Alentejano. Organizado pelo Município e com a colaboração da ACPA, este evento é, de resto, considerado o mais relevante do país tendo em vista a preservação da espécie. É também uma mostra privilegiada da gastronomia associada e uma oportunidade relevante em termos comerciais, uma vez que ali são firmados os principais negócios.

«Ourique é hoje considerada a capital do porco alentejano. Existe uma fileira montada que vai da produção à degustação, passando pela certificação. Isso tem uma importância de nível internacional», diz o antigo autarca e atual deputado, Pedro do Carmo, que foi também o principal impulsionador da feira.

«Todos sabemos que o setor atravessa problemas graves, mas todos acreditamos que os mesmos possam ser ultrapassados com o surgimento de novas apostas produtivas. Não podemos esquecer que em Ourique até existe uma unidade de transformação, que já foi ampliada três vezes, a qual é responsável por muitos postos de trabalho. O porco alentejano cria riqueza para Ourique e outros concelhos onde é produzido», refere.

Um fantasma chamado peste suína africana

Para além dos efeitos negativos que o clima está a provocar na produção do porco alentejano, existe outro que atormenta os criadores. A peste suína africana, conforme explica Inês Bento, é uma preocupação constante em cada exploração. Foi esta doença que, na década de 1960, quase fez desaparecer a totalidade da espécie em Portugal. Cerca de 30 anos mais tarde voltou a manifestar-se com grande intensidade, levando ao abate de milhares de exemplares.

Atualmente, apesar de todo o controlo veterinário efetuado pelos técnicos da ACPA e de outras entidades, subsiste o receio de que as varas possam ser infetadas e dizimadas. «O javali é o principal agente transmissor da doença. É um animal que anda por todo o lado, percorre grandes distâncias em curto período de tempo e cujo controlo é, por isso, muito difícil», sublinha.

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