Na final da Taça Melo Garrido Sub-14 — ocorrida no passado dia 10 de maio em Faro do Alentejo (concelho de Cuba) — houve lágrimas no relvado após o apito final: lágrimas a sério, difíceis de esconder, de miúdos entre os 12 e os 14 anos. Após perderem 4-1, o silêncio tomou conta do grupo do Desportivo de Beja durante uns largos minutos: o sonho de terminar a época com um troféu estava acabado.
Após este balde de água fria, Francisco Agatão — coordenador do futebol de formação do clube e uma das figuras mais emblemáticas da história do futebol bejense — juntou jogadores, equipa técnica e pais para citar uma frase de Nelson Mandela: «Eu nunca perco. Ou ganho, ou aprendo». Enquanto expressava o orgulho que sentia no grupo, também ele se emocionou.
O clube continua a ser a maior escola de formação de futebol no Baixo Alentejo: 180 atletas inscritos entre vários escalões masculinos e femininos. Um dos grupos é a equipa A dos Sub-14. Em 2025/2026, terminaram a Série A da primeira fase do Campeonato Distrital em terceiro lugar, com 40 pontos: 13 vitórias, um empate e quatro derrotas. Marcaram 84 golos, o segundo melhor ataque da competição, mas o terceiro lugar não foi suficiente para garantir o ingresso na fase decisiva. Restou a Taça Melo Garrido.
Para perceber o significado desta época, é preciso ir aos treinos que decorrem três vezes por semana no Complexo Fernando Mamede. Ali, são várias as equipas que dividem o espaço simultaneamente: cada grupo fica confinado ao seu «cubículo», como lhe chama Suzete Andrana, diretora da equipa A dos Sub-14.
«Há dias em que só temos um quarto do campo para treinar», explica.
Para perceber esta equipa, é também necessário entender a relação criada entre jogadores e treinadores. O treinador principal, estagiário, é Henrique Horta, de 26 anos. Trabalha numa loja de eletrodomésticos, vive em Mombeja e é também DJ, assinando sob o nome Kortesiia. Ávido adepto do Benfica, esta foi a sua segunda época ao serviço do Desportivo, após uma passagem pelo Ferreirense. No início desta última época, foram recrutados quatro dos seus ex-jogadores de Ferreira do Alentejo: João Espada (conhecido como Jota), Manuel Alves, Francisco Alegre Lopes e Nuno Pulido.
O adjunto, Ricardo Vitorino, tem 34 anos e terminou recentemente um curso de treinador. É pai e também trabalha fora do futebol, num ofício que o obriga a acordar ainda de madrugada. Define como «telepática» a sua relação com o treinador principal: «Estou no jogo, no banco, a pensar numa coisa, e depois descubro que o Henrique está a pensar no mesmo: isto já aconteceu n vezes».
A proximidade entre este duo e os jogadores é constantemente elogiada pelos pais e pela direção. «Chegam, entram no balneário, e conversam com os atletas antes e depois dos treinos. Isso criou logo uma relação de confiança muito grande», afirma Suzete Andrana.
Rui Lopes — pai do jogador Francisco Alegre Lopes e conhecido no mundo do futebol como Mickey: antigo jogador da Académica de Coimbra nos anos 90, com 166 jogos ao serviço da Briosa — acredita que essa ligação ajuda a explicar parte do crescimento da equipa: «Eu gosto de dizer que o mister tem praticamente a idade dos miúdos, e isso cria uma empatia muito forte, com muitos deles a acabarem por jogar também pelos treinadores, por causa da relação que acabaram por criar».

É impossível falar desta equipa sem falar também de Francisco Alcario, capitão e melhor marcador da época passada, com 37 golos. Joga no clube desde os quatro anos, descrevendo-o como «uma segunda casa».«Ajudo sempre os outros, tento apoiar a equipa e ser feliz com os meus amigos», confessa o portador da braçadeira de capitão, que atravessou a sua melhor época, estatisticamente falando. O seu percurso esteve longe de ser simples. Segundo a diretora da equipa, Francisco nasceu com uma cardiopatia congénita, que o impossibilitaria de praticar futebol em segurança. Contudo, com o crescimento, a condição foi estabilizando e o futebol surgiu.
«Com estes treinadores, os jogadores ganham muito mais confiança», garante Francisco Alcario. «Nós temos qualidade e apoiamo-nos uns aos outros quando alguém erra, coisa que não acontece em algumas equipas».
Outro percurso é o de Saif Kamara, de 14 anos. Nascido na Serra Leoa, a sua situação é um exemplo claro das dificuldades que podem existir no futebol de formação: treinou durante três anos sem estar inscrito, nem poder jogar uma única partida oficial, devido a um processo burocrático demorado. No entanto, continuou simplesmente a aparecer, treino após treino, até a situação ser resolvida.
«Foi difícil», admite. «Mas era trabalhar, trabalhar e trabalhar até chegar ao fim». E não esconde a sua ambição: quer ser jogador de futebol ou, no mínimo, ficar ligado a um clube. Todavia, o atacante ainda está em modo de adaptação. «Treinar é fácil, mas nos jogos ainda fico nervoso».
Pais, treinadores e direção estão de acordo numa ideia: o futebol de formação no Baixo Alentejo conta com poucos recursos, pouca visibilidade e pouca competitividade. Rui Lopes, por exemplo, considera que os jovens da região estão em clara desvantagem relativamente aos grandes centros urbanos: «Estamos numa zona esquecida com um quadro competitivo muito desequilibrado».
O antigo jogador aponta o dedo à Federação Portuguesa de Futebol, que considera estar a cometer um «erro grave» ao permitir que os maiores clubes criem cada vez mais escolas por todo o país, sugando o talento das mais diversas regiões.
Francisco Agatão toca neste mesmo ponto, mas insiste também que o futebol de formação vai muito além dos resultados: «Quando vestimos um símbolo como o do Desportivo de Beja, temos de transmitir valores», defende. «Queremos formar atletas, mas sobretudo formar pessoas».
«Eu só poderia devolver o meu amor pelo Desportivo com entrega, dedicação e tudo aquilo que foram os ensinamentos que fui aprendendo ao longo da minha vida, de forma a podê-los passar agora para estes jovens», diz o coordenador, que começou aqui a carreira profissional sénior, antes de ir para O Elvas e, mais tarde, para o Boavista, nos tempos em que esta era uma das melhores equipas do país.
É difícil ignorar o brilho nos olhos dos jovens jogadores, sonhadores com a ideia de atingir o nível profissional, mesmo reconhecendo a dificuldade em chegar lá. Tanto Francisco Agatão como Rui Lopes acreditam que o futebol moderno se tornou mais exigente física e mentalmente, e menos atraente. «Hoje em dia» — sublinha o antigo jogador — «há mais pressão por parte de pais e empresários; e há mais interesses. Acho que na minha altura era mais genuíno: as coisas surgiam de uma forma mais natural».
O grupo olha agora para a nova época. O único plano de Saif, por exemplo, é «ser melhor jogador do que esta época». Às vezes, o futebol de formação não é apenas sobre chegar longe. Às vezes, é simplesmente sobre ter um lugar para ir às segundas, quartas e sextas-feiras. Um quarto de campo que, durante hora e meia, é só deles. «O futebol ajuda-nos a libertar a cabeça», resume Francisco Alcario. «Às vezes parece que estamos só ali a jogar e deixamos de pensar em tudo o resto».










