Para celebrar os 50 anos de carreira, Luís Represas tinha anunciado dois concertos para abril de 2027 nos coliseus de Lisboa e do Porto. Em março passado tinha atuado com os Trovante em concertos esgotados na Meo Arena, em Lisboa, e no Pavilhão Rosa Mota, no Porto.
O músico dizia que o essencial de um artista é ter identidade. «A minha impressão digital, aquilo que me faz ser eu e que me faz ser diferente dos outros, é o fundamental. Isso é que é o meu barco, o meu barco é esse e é nesse barco que tenho que navegar. E que eu quero e que gosto de navegar», afirmou em 2024, quando editou o álbum «Miragem».
Luís Represas nasceu em Lisboa em 1956 e, pouco antes de completar 20 anos, no verão de 1976, fundou os Trovante com os amigos e o irmão — João Gil, Manuel Faria, Artur Costa e João Represas. Um ano depois saiu o álbum «Chão Nosso».
Esse disco de estreia assinalou a identidade musical do grupo, fortemente influenciado pela música de cariz popular e tradicional e pelo rock. Trovante era ainda «uma mistura de trova, músico ambulante, e avante, para a frente, no melhor sentido da palavra», como contou Manuel Faria numa biografia da banda publicada em 2003.
Os Trovante permaneceram ativos até aos anos 1990, editando, por exemplo, «Baile no Bosque» (1981) e «Cais das Colinas» (1983), e voltaram a reunir-se algumas vezes depois, nomeadamente em 1999, em 2006 e em 2017.
Luís Represas lançou-se a solo em 1993, com o álbum «Represas», fruto de uma viagem a Cuba, onde foi gravado e onde tocou com vários músicos, entre os quais Pablo Milanés (1943-2022). Com músicas como «Fora de Tempo», «Neva sobre a marginal» e «Feiticeira», este álbum foi fundamental no seu percurso: «Foi um reencontro comigo próprio», contou o músico em março passado, quando anunciou os concertos de 2027.
Sobre os dois caminhos do seu percurso musical, disse que se contaminaram um ao outro. «A primeira fase é a do aparecimento do Trovante, em 1976, e toda essa fase, até 1992, a história já foi mais do que contada, está mais do que contada, fez-se espetáculos, onde a história se contou ainda mais», referiu, acrescentando que desde o final dos Trovante até hoje «vem uma história que se calhar não foi tão contada, mas foi muito vivida».
«Foi necessário arranjar uma distância em relação ao passado, sem me divorciar do passado, porque o passado faz parte daquilo que sou artisticamente e musicalmente. Mas foi preciso encontrar essa distância para não continuar a fazer coisas que fazia antigamente, ou de repente começar-me a baralhar e perder o meu norte», partilhou.
Em 1996, editou «Cumplicidades», álbum que contou com a colaboração do pianista Bernardo Sassetti (1970-2012). Seguiram-se «A Hora do Lobo» (1998), «Código Verde» (2000), «Reserva Especial» (2001) e «Fora de Mão» (2003).
Em 2008 voltou a editar um álbum gravado na íntegra em Cuba, «Olhos nos Olhos», e em 2011 juntou-se novamente a João Gil, cúmplice dos Trovante, para um álbum conjunto: «Luís Represas e João Gil». Depois, editou «Cores» (2014), «Boa Hora» (2018) — distinguido pela Sociedade Portuguesa de Autores —, «Miragem» (2024) e vários álbuns ao vivo.
Da história de Luís Represas faz parte ainda o apoio à independência de Timor-Leste. Foi convidado pelo então Presidente da República Jorge Sampaio para o acompanhar na visita oficial a Timor-Leste e mais tarde seria condecorado com a Medalha da Ordem de Timor-Leste pelo Presidente Taur Matan Ruak. Em 2005 foi igualmente distinguido pelo Estado Português com a Ordem de Mérito, grau de Comendador.
A agência que o representa lembra que Luís Represas colaborou com Fausto Bordalo Dias, José Afonso, Carlos do Carmo, Bernardo Sassetti, Pablo Milanés, Ivan Lins, Martinho da Vila, Simone, Jorge Palma, Phil Collins, Compay Segundo, Gilberto Gil e Carlinhos Brown, entre muitos outros músicos.
Ao longo da vida, Luís Represas também enveredou pela restauração, tendo liderado a gestão de um bar-restaurante em Lisboa, editou um livro infantil, «A Coragem de Tição», e apresentou o programa de televisão «Língua Mãe».
Texto: Alentejo Ilustrado/Lusa | Fotografia: José Sena Goulão/Lusa/Arquivo










