Do passado cerealífero à restauração, eis os sabores do Celeiro do Pinto

Evocando a memória da Campanha do Trigo, é num antigo celeiro que Manuel Pinto e a família mantêm viva a tradição gastronómica de Redondo através de uma cozinha assente em sabores familiares e histórias de trabalho que atravessam gerações. Luís Godinho (texto)

“É tão grande o Alentejo”. Lembram-se da moda? “Tanta terra abandonada, é tão grande o Alentejo”. Em boa verdade, não era assim tanta a terra abandonada, apenas o reflexo da ideia salazarista de transformar o Alentejo no celeiro da nação. Para o cidadão comum, terra sem cereais estava abandonada – “a terra é que dá o pão” – ainda que se tratassem de pastagens ou de solo ao serviço do montado.

Lançada em 1929 – ainda Salazar era ministro das Finanças – a Campanha do Trigo alterou os ritmos de trabalho rural e reforçou o papel dos grandes proprietários, ao mesmo tempo que consolidou uma economia agrícola baseada na monocultura cerealífera. Embora tenha promovido algum desenvolvimento técnico e ao nível das infraestruturas, não resolveu desigualdades estruturais, nem assegurou sustentabilidade produtiva a longo prazo.

Tratou-se de um estímulo ao cultivo extensivo de trigo, assente na mecanização gradual de alguns latifúndios e na construção de infraestruturas de armazenamento, como celeiros e silos, que reorganizaram a logística cerealífera em muitos concelhos e que aí estão, a marcar a paisagem, como memória desse tempo em que a cultura do trigo era dominante nos campos do sul.

A grande maioria dos silos e dos celeiros perdeu a sua função há décadas. Alguns ganharam novas vidas, como o Celeiro do Pinto, em Redondo, a dois passos do Mercado e do Centro Cultural da vila, que se transformou num restaurante de referência da terra.

Para início de conversa estão sobre a mesa cogumelos com coentros e bom azeite, além de um pratinho com moleja frita, trazido à mesa pelo próprio Pinto, Manuel Pinto, que aqui se instalou há 16 anos, quando o antigo celeiro foi recuperado pela Câmara e colocado ao serviço da restauração.

A visita decorreu ao almoço do Dia de São Martinho, com a frieza de uma sala a menos de “meio gás” a ser compensada pela simpatia do proprietário. Manuel Pinto nasceu bem perto de Redondo, na Aldeia da Serra, tendo começado a trabalhar aos 14 anos no “velho” Galito, há muito encerrado. “Fui contratado como empregado de mesa, mas nessa altura fazia de tudo, como se dizia por aqui era pela ‘comida do cão’. Ordenado não havia, trabalhava-se todos os dias apenas pela comidinha”. Trabalho não faltava: “Era descascar batatas, temperar frangos, matar borregos e cabritos… éramos gaiatos novos. Também se fazia pão”.

Haveria de deixar a aldeia para cumprir o serviço militar, em Évora, por onde ficou três anos e meio, regressando depois à Serra d’Ossa para trabalhar num restaurante que assumiu o nome da aldeia – “estive lá na abertura” -, tendo ainda regressado ao Galito antes de rumar à vila como empregado no Barro de Re- dondo. “Se não tivesse vindo para a restauração teria acabado no campo a guardar ovelhas ou perus”.

Volvidos três anos vê uma oportunidade de se lançar por conta própria, primeiro numa marisqueira, depois no Celeiro, acabado de requalificar. Começava a aventura familiar. A Manuel Pinto junta-se a mulher, Rosa, aos comandos da cozinha, e a filha, Elsa, responsável pela sala. “Era o Alfredo Barroso presidente da Câmara, fizeram um concurso para o espaço, concorri e ganhei. Aqui estou há 16 anos”.

Se a moleja havia surpreendido por um tempero com sumo de limão, ligeiro, apenas o suficiente para “cortar” a gordura, o pato em vinho tinto que se seguiu cumpriu com galhardia a sua missão e as migas voltaram a conquistar pontos, servidas com uns pedacinhos de linguiça e farinheira fritas, como mandam as boas regras alentejanas.

Entre as especialidades da casa as migas de espargos e o ensopado de borrego têm bastante saída, mas na sua época há favas com entrecosto, também sopas de feijão com carapaus, açorda, sendo que em matéria de peixe reina o “fiel amigo”. A despedida fez-se em grande estilo, com uma fatia de fidalgo, um dos mais populares da doçaria conventual alentejana. Haveria outras hipóteses, claro, como marmelo com nozes, sericaia ou mousse de café. Antes da despedida, ainda houve tempo para um pratinho de castanhas cozidas com erva-doce, como que a preparar o regresso a casa.

CELEIRO DO PINTO

Avenida de Gien, lote B, r/c Redondo
Tel:+ 351 939 136 665

Homem da imprensa e da boa mesa, João Jaleca é a inspiração para a nossa grelha de avaliação dos restaurantes visitados

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