Primeiro episódio: fortes chuvadas levaram à derrocada de um troço da muralha do Castelo de Veiros, em dezembro de 2022. A muralha permanece no chão, assim como se mantém o risco de novas derrocadas.
Abril de 2025, segundo episódio: nova intempérie fez ruir parte do muro da Rua dos Fidalgos, junto ao Largo D. Dinis, numa zona classificada do centro histórico de Estremoz. Os problemas eram conhecidos, pelo menos, desde novembro de 2022. O muro continua no chão.
Terceiro episódio: no passado dia 29 de janeiro regista-se a derrocada de um troço de muralha, junto à Porta de Évora, componente do Sistema Fortificado de Estremoz, classificado como Monumento Nacional desde 1910. Tal como as anteriores, a derrocada do troço junto à Porta de Évora dá-se num contexto de forte temporal, no caso a depressão Kristin, que causou estragos em vários pontos do país.
Em resposta a uma pergunta sobre qual a avaliação preliminar efetuada pelos serviços municipais quanto às causas desta derrocada, o presidente da Câmara de Estremoz, José Daniel Sádio, aponta precisamente o agravamento das condições climáticas: “Infiltração e acumulação excessiva de água, fruto da intempérie e do acumulado de precipitação dos últimos meses”.
Com as pedras a chegarem próximo de algumas casas, o Município definiu “um perímetro de segurança, de forma a acautelar riscos para pessoas e bens”. A circulação automóvel e pedonal na Porta de Évora foi cortada, assim como os acessos à zona.
Ainda de acordo com José Daniel Sádio, a derrocada foi comunicada ao presidente do Conselho Diretivo do Património Cultural – Instituto Público, com conhecimento ao presidente e à vice-presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Alentejo com responsabilidades na área da cultura e do património, Ana Paula Amendoeira.
“Os técnicos da Unidade de Cultura [da CCDR] estiveram no local, após comunicação do Município”, revela o autarca, acrescentando que está em “fase de análise” a identificação de danos na estrutura classificada e o seu grau de gravidade.
Ainda de acordo com o presidente da Câmara de Estremoz, está agora “em estudo” um plano de intervenção para o monumento, sendo que o Município “dificilmente terá capacidade financeira para encetar as obras necessárias, pelo que reforçámos junto da tutela esta situação”.
Uma observação no local revela que, além da derrocada principal, ocorreu uma outra, de dimensão mais pequena, deixando parte do tabuleiro da ponte sem sustentação.

Recorde-se que em abril de 2024, o então coordenador do Grupo Cidade – Cidadãos pela Defesa do Património de Estremoz, Pedro Nunes Silva, entretanto falecido, dizia-se preocupado com o estado de conservação das muralhas e lembrava que todo este património histórico “não é eterno”, carecendo de um acompanhamento permanente.
Explicava ainda que a existência de uma rotura num determinado local acaba por provocar “outras reações”, que poderão resultar em consequências drásticas para a preservação do património histórico. “As pessoas muitas vezes têm a ideia errada de tudo isto carecer de pouca manutenção, pois são materiais inertes, e isso não corresponde, de todo, à verdade”.
OBRA SETECENTISTA
Segundo informação histórica do Município de Estremoz, a Porta de Évora foi erguida no contexto da Guerra da Restauração, já na centúria de setecentos, quando “houve uma necessidade óbvia de defender o reino da ofensiva espanhola, especialmente em vilas e cidades de fronteira”.
Não sendo uma vila de fronteira, Estremoz “funcionava como segunda linha de defesa do território, especialmente em apoio logístico (armazém de armas, mantimentos e tropas)”, pelo que foram construídas diversas fortificações, em várias localidades.
De acordo com a mesma fonte, foi D. João IV, que em 1642 ordenou ao matemático e engenheiro militar holandês João Pascácio Cosmander “o desenho da futura muralha poligonal abaluartada estremocense” destinada a proteger a então vila “de hipotéticos ataques e avanços das tropas espanholas, sendo que os novos baluartes estavam adaptados para batalhas de artilharia pesada”.
Correspondendo à entrada exterior para o ancestral Bairro de Santiago, a Porta de Évora tem como elemento mais relevante uma ponte levadiça, sendo reconstituídos posteriormente os seus elementos funcionais e grossas correntes de ferro.
MEIO MILHÃO
Aquando do debate sobre o orçamento municipal para 2026, o presidente da Câmara de Estremoz indicou que o concurso para as obras de restauro do muro da Rua dos Fidalgos poderá ser lançado no primeiro trimestre deste ano. Mas, segundo o autarca, a intervenção irá abranger uma extensão maior, o que fará os custos “dispararem” para cerca de meio milhão de euros.
Texto: Alentejo Ilustrado | Fotografia: D.R.













4 Responses
Além do castelo Estremoz o Concelho tem que lembrar de outros castelos como exemplo o de Évora-Monte que tem os arruamentos com muros de sustentação das ruas a caírem, pondo em risco veículos e peões como exemplo o que caiu um destes dias na rua da Carreira.
A Unidade de Cultura (UC) da CCDR Alentejo nada tem que ver com Património Cultural, Instituto Público (PC IP), são tutelados por áreas governativas distintas. A UC da CCDR ao Ministério da Coesão o PC IP ao Ministério da Cultura da Juventude e do Desporto.
Os técnicos do PC IP estiveram em Estremoz em 4.02.2026 e em conjunto com a autarquia visitaram e analizaram as seis situações prioritárias nas muralhas de Estremoz, entre as quais a do Revelim da Porta de Évora que derrocou.
O PC IP está a analisar o relatório efetuado pelos técnicos para, posteriormente, apresentar à autarquia propostas.
Infelizmente continuamos a perder património por falta de organização e definição de prioridades, situação transversal ao país e no caso de Estremoz até os azulejos por detrás das instalações da Câmara foram vandalizados e nada foi feito há anos atrás.
Infelizmente o castelo de Veiros está na mesma. A primeira derrocada foi em 2023 e agora com esta intempérie caiu mais um bocado. Em redor do castelo há várias habitações que estão em perigo. O castelo pertence a uma entidade privada que nada tem feito pela sua recuperação.