Colónia de abutres leva EDP a abandonar projeto solar de 169 milhões no Alqueva

A EDP Renováveis abandonou a Central Híbrida do Grande Lago, depois de a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) ter declarado desconforme o estudo de impacte ambiental. Às insuficiências do processo juntaram-se razões económicas e financeiras.

O investimento, estimado em 169 milhões de euros, previa combinar uma central solar flutuante com dois núcleos eólicos nos concelhos de Portel, Vidigueira, Reguengos de Monsaraz e Moura.

Segundo uma investigação do Observador, a decisão ambiental, conhecida em julho, resultou de alterações significativas introduzidas pela EDP durante a fase de verificação da conformidade do estudo, da insuficiência dos dados apresentados e do tempo já decorrido.

A declaração de desconformidade ocorreu antes da avaliação ambiental propriamente dita. O processo terminou, assim, sem que a comissão de avaliação chegasse a analisar integralmente os impactes do projeto e a eventual eficácia das medidas destinadas a minimizá-los.

Um dos principais problemas esteve relacionado com a linha elétrica de 30 quilovolts que ligaria os dois núcleos eólicos. O traçado inicialmente previsto tornou-se incompatível com as áreas de proteção de ninhos de abutre-preto identificados durante trabalhos de monitorização iniciados em junho de 2025.

A EDP apresentou um corredor alternativo, mas a proposta abrangia áreas situadas fora da zona estudada inicialmente. A comissão de avaliação considerou que faltavam uma monitorização correspondente a um ciclo anual completo e cartografia suficientemente detalhada para comparar as duas alternativas.

Segundo a documentação da APA consultada pelo Observador, a monitorização «não abrangeu o ciclo anual», impedindo uma avaliação rigorosa da presença dos ninhos, da utilização do território pelas aves e dos potenciais impactes da nova linha elétrica.

A empresa pediu autorização para entregar novos elementos até 30 de setembro de 2026, de modo a concluir um ano de acompanhamento da colónia de abutres. A APA recusou, argumentando que isso obrigaria a prolongar ainda mais um procedimento que já se encontrava suspenso há mais de um ano.

A importância ambiental da colónia é confirmada pela Liga para a Proteção da Natureza (LPN). Os trabalhos relacionados com a Central Híbrida do Grande Lago permitiram detetar mais quatro casais de abutres-pretos, elevando para 14 o número de ninhos conhecidos na zona de Vidigueira e Portel.

De acordo com a LPN, 12 desses ninhos pertencem a casais reprodutores. Sete casais conseguiram incubar, nasceram entre três e quatro crias e sobreviveram duas, posteriormente marcadas com emissores para acompanhamento.

A organização ambiental alerta que o abutre-preto necessita de locais de nidificação tranquilos e é particularmente vulnerável à colisão com aerogeradores e linhas elétricas e à eletrocussão em linhas de média tensão. A colónia de Vidigueira e Portel é considerada estratégica para a recuperação da espécie no sul do país.

A Central Híbrida do Grande Lago teria 82 hectares de painéis solares flutuantes e dois núcleos eólicos, compostos por nove e sete aerogeradores, com uma potência conjunta de 72 MVA. A energia seria encaminhada para a subestação do Grande Lago e, posteriormente, para a rede de transporte da REN.

A EDP ganhou o maior lote do concurso, com capacidade para injetar 70 megawatts na rede. A proposta previa um preço negativo de 4,12 euros por megawatt-hora na componente solar durante os primeiros 15 anos de uma concessão de 30 anos. Na altura, foi estimado um benefício de cerca de 114 milhões de euros para os consumidores.

Ainda de acordo com o Observador, a decisão de abandonar o projeto não se deve apenas aos obstáculos ambientais. A EDP invoca igualmente a subida dos custos dos equipamentos e do desenvolvimento das tecnologias renováveis e a descida dos preços da eletricidade no mercado grossista durante as horas de maior produção solar.

2 Responses

  1. ….Em prol da Natureza ….todos os sacrifícios são necessários….se queremos manter a vida e o bem estar de todos os seres vivos!!!…

    1. Então destruir florestas e campos agrícolas, como estão a fazer por este país fora é aceitável ??? É em ” prol da natureza”???

      Você pertence a esses extremistas climáticos/ ambientalistas?
      É que vocês não percebm nada de natureza nem de ambiente. A vossa visão da natureza é apenas ideológica.
      Não gosto de vocês, são apenas pseudo ambientalistas, que nem sabem o que é uma árvore, nem como protegê-la.

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