A livraria esquecida dos Agostinhos Descalços de Estremoz

Um manuscrito de 1731 encontrado na Biblioteca Pública de Évora permitiu a Elisabete Pimentel reconstituir o inventário da livraria do Convento de Nossa Senhora da Consolação dos Agostinhos Descalços de Estremoz, com cerca de mil volumes e 380 autores identificados.

Luís Godinho (texto)

«No século XVII» — foi a historiadora Maria de Lurdes Correia Fernandes quem o escreveu — «assiste-se a um relativo (que em alguns momentos foi significativo, mas não propriamente explosivo) aumento de biografias devotas — e não só de vidas de santos». Entre os numerosos exemplos, um deles bem poderia ser «Vida e Virtude do admirável Padre Joam Cardim da Companhia de Jesus Portuguez natural de Vianna do Alentejo», da autoria do jesuíta Sebastião de Abreu.

O biógrafo atesta a «veracidade» do seu relato, escrito quatro décadas após a morte do biografado, invocando a confiabilidade das fontes, tanto «todos os processos, & mais papeis authenticos, que de suas cousas havia», como das «cento & oitenta testemunhas de todos estados; as mais dellas de muita authoridade, que o tinhão conhecido, & tratado», registados tendo em vista a sua eventual canonização.

Em artigo publicado na revista Lusitania Sacra (1993), Maria de Lurdes Correia Fernandes destaca a valorização clara e insistente do período da infância e juventude do biografado ao longo de toda a obra.

«Valorizando tão claramente — e com insistência — esta fase da vida de João Cardim e dedicando a obra, prioritariamente, a professores e estudantes dos colégios da Companhia, Sebastião de Abreu enfileira certamente na lista daqueles que vinham insistindo na importância da leitura, pelos jovens, de vidas de santos e vidas devotas, obras que esperavam preenchessem o gosto juvenil pelo maravilhoso e heróico em substituição da teimosa presença dos modelos cavaleirescos», resume.

O relato do século XVII terá, no entanto, algumas imprecisões, segundo a historiadora Fátima Farrica, a começar pelo local de nascimento: «Durante algum tempo pensou-se que tivesse nascido em Viana do Alentejo, uma vez que, quando os pais não possuíam residência confirmada, era prática corrente considerar que os filhos tinham nascido na terra de naturalidade dos progenitores».

Em qualquer dos casos, o percurso de João Cardim na Companhia de Jesus «ficou marcado pela intensa vida espiritual, pelo fervor religioso, pelo rigor ascético, pela prática de virtudes heroicas e por uma importante atividade missionária», além de lhe serem atribuídos «alguns milagres relacionados com a cura de doenças», acrescenta Fátima Farrica.

Ora, para o que aqui interessa, «Vida e Virtude do admirável Padre Joam Cardim da Companhia de Jesus Portuguez natural de Vianna do Alentejo» era um dos títulos que compunham a livraria do Convento de Nossa Senhora da Consolação dos Agostinhos Descalços de Estremoz, cujo inventário foi agora publicado por Elisabete Pimentel, numa obra com o apoio do grupo Cidade – Cidadãos pela Defesa do Património de Estremoz.

«Não deixa de ser curioso que, tendo os frades chegado a Estremoz em 1671, sessenta anos depois (1731), já tivessem uma livraria com cerca de mil volumes», refere a autora, com formação em áreas distintas, das Letras (História) às Artes (Pintura e Cerâmica).

No texto introdutório do livro, Elisabete Pimentel conta que os Eremitas Descalços de Santo Agostinho instalaram-se em Estremoz ocupando «umas dependências» da Irmandade do Espírito Santo, por onde já tinham passado as freiras clarissas, na rua Magalhães Lima, fronteira ao largo Espírito Santo.

«Instalaram-se com a condição e a missão de ensinarem gramática aos filhos da terra». Fizeram obras e adaptaram o edifício, «abandonado há tempo» e viram-se forçados, 27 anos mais tarde, a realizar «melhorias» pois a cidade sofreu «um grande desastre quando da explosão de um paiol no castelo», que provocou estragos no convento e na igreja, dedicada a Nossa Senhora da Consolação. «Reveste-se o altar-mor de azulejos, que o pintor António de Oliveira Bernardes e o seu filho Policarpo pintam. São azulejos históricos que contam episódios da vida de Santo Agostinho».

Segundo Elisabete Pimentel, os maiores estragos à «boa livraria» do convento ocorreram, porém, na «instabilidade do que foi o nosso século XIX, com as invasões francesas, as guerras entre irmãos absolutistas e liberais, e com a extinção dos conventos em 1834».

A autora conta que o seu interesse pelo tema surgiu quando, no âmbito do trabalho de pesquisa para o estudo da história da igreja de Nossa Senhora da Consolação, «mais conhecida pela igreja dos Agostinhos», encontrou na Biblioteca Pública de Évora um manuscrito, organizado pelo prior Frei João de Santa Maria, com a listagem dos livros existentes em 1731 na biblioteca do convento.

«Não foi fácil a tarefa de encontrar autores pelos títulos de livros, nem de encontrar os títulos pelo nome dos autores, pois do inventário por vezes constava só um nome e incompleto, ou só um título, ou parte dele. No entanto, dos cerca de 990 volumes que existiam em 1731, na biblioteca do convento, e das 493 entradas, foi-nos possível identificar cerca de 380 autores», acrescenta.

Quanto aos temas que «interessavam à comunidade religiosa», Elisabete Pimentel destaca os relativos a teologia, sermões, agiologia e filosofia, mas também direito, história, literatura, geografia, crónicas e biografias e, até, «um livro de receitas que por serem três volumes, penso que não estarei errada se atribuir a autoria a Domingos Rodrigues, o cozinheiro que publicou as suas receitas em 1680 com enorme sucesso».

«De certa forma» — conclui — «não deixou de nos surpreender o saber, o conhecimento alargado de que dispunham, e a atualização que também tinham, pois encontramos ali os autores antigos e os do momento». Ao catálogo da livraria adicionou apontamentos biográficos de alguns dos autores e informações sobre os locais de impressão e impressores estrangeiros.

«Inventário da Livraria do Convento da Nossa Senhora da Consolação dos Agostinhos Descalços de Estremoz do Ano de 1731»

Elisabete Pimentel

Edições Colibri

152 páginas

15 euros

Uma resposta

  1. Felicitar a Dra Elizabete Pimentel , pelo trabalho de excelência desenvolvido no complemento a anterior publicação sobre os paneis de azulejos que revestem a igreja da Consolação dos Agostinhos , do mestre pintor Oliveira Bernardes e seu filho Policarpo os mais conceituados pintores de azulejo do último quartel séc XIX { o melhor ) . Uma nota , há cerca de quatro anos sugeri a criação de uma rota do azulejo em diálogos “ face” , em Estremoz .Hoje notei ,que a CME meritoriamente deu espaço a essa ideia , mas infelizmente com duas lacunas os painéis da loja maçónica SJose (Porta Nova ) pub Antonio Telmo , e paneis de Oliveira Bernardes nos Agostinhos pub Elizabete Pimentel algo desconhecido e único em azulejaria no local para onde foi concebida.

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