Manuel Muacho: «Elvas e o Chega, anatomia de uma anomalia democrática»

Não basta denunciar o Chega como partido racista ou classificar os seus eleitores como fascistas. Por trás destes resultados está um território abandonado, uma população envelhecida, serviços desmantelados e uma questão étnica mal resolvida que nenhum partido democrático teve coragem de enfrentar com políticas sérias de integração.

Manuel Muacho (análise)

No passado dia 8 de fevereiro, André Ventura obteve 50,85% dos votos na segunda volta das eleições presidenciais no concelho de Elvas. Num país em que António José Seguro venceu com quase 67% a nível nacional, Elvas destacou-se como um caso singular: o único concelho do Continente onde o candidato do Chega derrotou Seguro.

Já na primeira volta, Ventura tinha vencido em Elvas com 39,86%, muito acima dos 25,89% do rival. Em todo o território nacional, apenas São Vicente, na Madeira — onde o Chega governa a autarquia —, acompanhou Elvas nesta distinção duvidosa. Esta não é uma anomalia recente nem isolada: é o culminar de um trajeto que exige uma reflexão séria sobre o que se passa nesta cidade raiana do Alto Alentejo.

A trajetória eleitoral do Chega em Elvas é impressionante. Nas legislativas de 2024, tornou-se a primeira força política no concelho com 36,53% — algo inédito num município que durante décadas foi bastião socialista. Nas legislativas de maio de 2025, reforçou essa hegemonia com 43,51%, o melhor resultado percentual do partido em todo o país, vencendo em todas as sete freguesias.

Nas autárquicas de outubro, embora o Movimento Cívico por Elvas tenha mantido a Câmara, o Chega conquistou a liderança da Assembleia Municipal com 30,80%. O partido passou de 11% nas autárquicas de 2021 para mais de 30% em quatro anos — um crescimento sem paralelo no panorama autárquico português.

Seria intelectualmente desonesto abordar este fenómeno sem falar do elefante na sala: a relação entre o voto no Chega e a presença de uma significativa comunidade cigana no concelho. Elvas tem historicamente uma das maiores comunidades ciganas do Alentejo. A ciganofobia — conceito cunhado pelo antropólogo José Gabriel Pereira Bastos para descrever o modo hegemónico de expressão do racismo em Portugal — está profundamente enraizada na sociedade elvense. A

ndré Ventura compreendeu isso e fez dessa tensão a pedra angular da sua estratégia no concelho. Em visita a Elvas durante a campanha para as europeias de 2024, não teve pudor em declarar que veio à cidade por causa dos problemas com a comunidade cigana, afirmando que tinha de os resolver “a bem ou a mal”.

Importa ser honesto: a ciganofobia em Elvas não é monopólio da direita radical. Em 2023, o próprio presidente da câmara, Rondão Almeida — com raízes no PS — gerou polémica ao declarar publicamente que duvidava que qualquer membro da comunidade cigana pudesse apresentar contrato de trabalho para aceder a novos fogos municipais.

Onze associações ciganas apresentaram queixa junto da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial. Este episódio é revelador: quando o próprio poder local alimenta este tipo de narrativa, o terreno fica preparado para que o Chega se apresente como a única força com coragem para verbalizar abertamente o que muitos pensam em privado. Ventura não criou a ciganofobia em Elvas — limitou-se a dar-lhe voz política.

Mas reduzir o voto no Chega à questão cigana seria simplista. Há fatores estruturais que convergem para explicar este fenómeno. O Alentejo vive há décadas um processo profundo de desertificação humana e económica. A região perdeu quase metade da sua população desde 1950, com a emigração a drenar os jovens em idade ativa. Elvas não escapou a esta hemorragia: perdeu população significativa, tem uma densidade de apenas 32 habitantes por quilómetro quadrado e um índice de envelhecimento crescente.

Os serviços públicos degradaram-se: faltam médicos, os transportes são deficientes, as escolas fecham. Como disse à Lusa o presidente da Junta de São Vicente e Ventosa, eleito pelo PS, esta votação deve-se às políticas do bipartidarismo — as pessoas sentem-se revoltadas com o descontrolo da imigração, a falta de médicos e de transportes.

O investigador João Carvalho, do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE), oferece uma leitura pertinente ao destacar que o crescimento do Chega no Alentejo resulta sobretudo da mobilização da abstenção. Nos distritos de Portalegre, Évora e Beja, existe uma correlação clara entre a redução da abstenção e o aumento do voto no Chega — o partido está a trazer para as urnas pessoas que tinham desistido da democracia.

Carvalho sublinha que o declínio dos partidos de esquerda no Alentejo antecede o Chega e que este voto é mais alimentado pelo sentimento antissistema do que pelo sentimento anti-cigano. Riccardo Marchi, também do ISCTE, confirma que nestas últimas eleições ficou clara uma transferência de votos da esquerda para o Chega no Alentejo — um fenómeno inédito em Portugal.

Há uma pergunta incómoda que a esquerda precisa de enfrentar: como é que uma região que foi berço do movimento operário rural, que protagonizou a Reforma Agrária e votou à esquerda durante quatro décadas, se tornou no maior bastião do Chega? A resposta está no falhanço das políticas públicas, na incapacidade de travar a desertificação do interior, no encerramento de serviços essenciais e na falta de coragem para enfrentar, com políticas de integração sérias, a exclusão social da comunidade cigana.

O que o Chega oferece não é um programa coerente — oferece algo mais imediato: a sensação de ser ouvido. Oferece bodes expiatórios e a figura carismática de Ventura, que visita o concelho, tira ‘selfies’ e aparenta importar-se com as pessoas.

O caso de Elvas deve funcionar como um sinal de alarme para a esquerda democrática portuguesa. Não basta denunciar o Chega como partido racista ou classificar os seus eleitores como fascistas. Por trás destes resultados está um território abandonado, uma população envelhecida, serviços desmantelados e uma questão étnica mal resolvida que nenhum partido democrático teve coragem de enfrentar com políticas sérias de integração.

Se a esquerda quiser reconquistar Elvas, terá de regressar ao terreno, apresentar respostas concretas e demonstrar que a democracia funciona para todos — incluindo para quem vive nas periferias esquecidas do país. Terá de investir de forma consistente na coesão territorial, nos serviços públicos de proximidade e em políticas de integração que combatam a exclusão sem alimentar o preconceito.

Enquanto isso não acontecer, o Chega continuará a colher os frutos do descontentamento. E Elvas continuará a ser o espelho incómodo de uma democracia que deixou uma parte significativa dos seus cidadãos para trás.

O autor é sociólogo

2 Responses

  1. Análise pertinente e que faz sentido. Só não explica o porquê dos resultados em Elvas e não no resto do Alentejo. Só em Elvas é que Ventura ganhou e essa análise tem de ser feita.

  2. A tradição anti.cigana em ELVAS é muito antiga, e maior que no resto do Alentejo! Têm de haver razões, já que os ciganos desempenharam papéis de relevo na área do município. Recorde-se Jerónimo da Costa e os seus soldados, todos ciganos, combatentes na Gerra da Restauração (1640-1668), muitos deles mortos, a começar pelo comandante. Em resposta a petição da viúva, Jerónimo da Costa foi “feito cavaleiro-fidalgo”, e a sua “mulher e filhos […] havidos como naturais do reino”. O que este facto mostra é que nunca se deve tomar um todo a partir duma fração-

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