Entrevista com Ana Arrebentinha: «O Alentejo fez-me quem sou»

Ana Arrebentinha traz o Alentejo para o centro do humor nacional, recuperando memórias, histórias e vivências de uma região onde cresceu e que nunca esqueceu. Entre a Amareleja e Lisboa, construiu uma carreira marcada pela autenticidade, pela oralidade e por um humor que nasce da vida real e da cultura alentejana.

Catarina Fonseca (texto)

Fala-se com ela e percebe-se logo de onde vem. Alentejana, mais especificamente da Amareleja — terra que também nos deu Eunice Muñoz e Mário Zambujal —, Ana Arrebentinha é uma das mais seguras vozes do humor português, no feminino, e com orgulho na terra onde começou a contar histórias.

É presença habitual nos ecrãs, quer como atriz, apresentadora ou humorista. Entrou em programas televisivos como «Você na TV», «Big Brother» ou «Somos Portugal». Teve um programa em nome próprio, «Arrebenta a Selfie», e foi protagonista de «Um Filme do Caraças», com Pedro Alves e Eduardo Madeira. Depois de ter posto o país inteiro a rir com o espetáculo «Não Estavas Capaz… Não Vinhas», repete o êxito com o novo «Muito Faço Eu», que anda por várias salas do país.

O seu segredo: não só nunca esqueceu as origens alentejanas como as usa para melhorar a vida de todos os portugueses que tiverem a sorte de a ver. Por isso quisemos saber como foi do Alentejo para Lisboa, de que tem mais saudades, de onde vem o nome Arrebentinha e, afinal, como nascem as anedotas alentejanas. Como é boa pessoa, ainda conseguimos uma faixa de bónus lá para o fim.

O seu pai era um contador de histórias fenomenal e a Ana cresceu a ouvi-lo. A arte de contar histórias também se aprende?

Acho que sim, que se aprende, mas também tem de haver alguma queda natural. No Alentejo, por exemplo, havia muitos casos de um avô que tocava acordeão e o neto ia atrás, sem nunca ter sido ensinado. Eu cresci a ouvir o meu pai a contar histórias, tantas que nem me lembro de todas.

Será que ele aprendeu com o pai dele?

Não sei, os meus avós morreram todos cedo, mas recordo o meu avô paterno como um homem muito sério. Enfim, o Alentejo nesse tempo não dava motivos para rir. Mas o meu pai era um homem muito engraçado, punha toda a gente a rir. Costumava contar coisas como se fossem verdade e só no fim dizer que estava a brincar. Uma vez, num almoço de família, fingiu que estava a falar com um advogado. Dizia: «sim, sim, pode levar tudo», e a malta já em pânico, até que ele disse: «era só para ver se estava tudo atento nesta mesa».

É Arrebentinha de nome artístico por causa do seu pai…

Sim, o meu pai era mecânico, um homem barrigudo, de bigode, com muita força, e na oficina tinha a alcunha de «arrebenta parafusos». Eu, quando comecei, ainda era a Ana Campaniço, mas na aldeia ninguém sabia quem era a Ana Campaniço, sabiam quem era a filha do Arrebenta e da Fátima. Então decidi adotar a alcunha do meu pai.

Já contou que a sua carreira neste universo começou aos sete anos, quando ia para o centro de saúde em frente à sua casa, às cinco da manhã, contar histórias aos doentes. Eu acho isto maravilhoso.

Eu ainda hoje durmo muito pouco e já em criança era assim. A família levantava-se toda muito cedo, para ir comprar pão, para me levar à escola, e eu atravessava a rua e ia de robe, toda despenteada, pôr-me a contar anedotas às pessoas (risos). Eu era uma criança muito curiosa, muito metediça, queria saber tudo. Dava muito trabalho à minha mãe.

Conte-me qualquer coisa que tivesse contado aos seus primeiros ouvintes do centro de saúde…

Então, o meu pai tinha uma Ford Transit. E um dia eu cheguei à sala de espera e disse: «o meu pai vem aí e vocês têm todos que sair». O meu pai veio de lá numa zorreira, como se diz no Alentejo, com o tubo de escape a deitar fumo e uma barulheira enorme, e eu, de cima do banco, gritava: «não vos disse que o meu pai vinha aí para vos levar a todos?». As pessoas achavam graça, claro. Eu era muito pequenina, muito loirinha, e a malta ria-se.

Como foi crescer no Alentejo?

Maravilhoso. Eu digo sempre que gostava que Lisboa fosse ao lado da Amareleja, mas que o Alentejo continuasse a ser Alentejo. Eu nasci nos anos 90 e fui a última geração que ainda conseguiu brincar em liberdade. Estávamos na rua até às tantas, ia para o monte com os meus pais, estavam lá os animais, como naqueles filmes americanos em que se veem os miúdos das quintas todos sujos. Eu era assim. Aquilo de que hoje se fala tanto — a importância dos miúdos mexerem na terra — eu tive tudo isso naturalmente. E tenho muita pena de não viver no Alentejo porque tenho de trabalhar em Lisboa.

Como é que foi da Amareleja para Lisboa?

Fiz uma ação de marketing que hoje em dia já não sei se seria capaz. Mas eu era muito destemida. Então decidi mandar um email para a SIC, para um programa que havia na altura, chamado «Boa Tarde». A mensagem dizia: «Olá, sou a Ana, tenho 17 anos e sei mais de 100 anedotas». Claro que eles acharam piada àquilo. Desde então já trabalhei em televisão, fiz muitas coisas, e espanta-me sempre como é que aquilo resultou. Eu estava a tirar Desporto e queria ser professora de Educação Física. Nessa altura, Lisboa ficava do outro lado do mundo. Ia-se lá em excursões e era uma sorte. E quando me mudei, fui à maluca. Vim sozinha, tive de arranjar amigos, mas valeu a pena.

É uma pessoa muito corajosa. O que é que a fez assim?

Isso é uma pergunta interessante. A minha família é feita de pessoas corajosas. Mas acho que o Alentejo nos faz corajosos. As pessoas são tão genuínas, o trabalho está tão à nossa frente, que todos os dias vemos exemplos de coragem. Tenho amigos que se deitam às três da manhã, mas às seis já estão de pé para irem para o campo, e isso é coragem.

A coragem é mesmo um traço alentejano?

Sim, sim. A minha avó, por exemplo, não era uma pessoa muito carinhosa, era uma mulher fria. Ficou viúva muito cedo, teve de cuidar sozinha da minha mãe e da minha tia, porque uma mulher nesse tempo não se voltava a casar, mas dizia que, embora fossem muito pobres, as crianças andavam sempre limpas e asseadas. Isto é coragem. Ela trabalhava muitíssimo, ia para a ceifa, dava tudo por tudo, e isto acho que é muito alentejano, esta cultura de trabalho e de honestidade. Por isso é que eu não gosto quando vão à televisão certas pessoas falar dos suicídios. É verdade que a taxa de suicídios no Alentejo é muito grande. Mas hoje, se calhar, a neta do Manel, que se teria matado, foi estudar psicologia para ajudar as outras pessoas. Diz-se às vezes que se banalizou o suicídio, mas nunca se banalizou o suicídio, nunca se escondeu o suicídio. Não se pode é reduzir o Alentejo ao suicídio, principalmente quem não conhece o Alentejo.

O Alentejo também evoluiu…

Claro que sim, e não podemos esquecer essa evolução. Hoje as pessoas são formadas e o Alentejo já não se resume ao mano Manel e à mana Maria que os lisboetas vão lá enganar. Descendemos de gente muito pobre, muito explorada, e esse carácter de trabalho, de honestidade e de coragem continua connosco. E há sempre comida no Alentejo. As pessoas podem ser pobres, podem não ter nada, mas a comunidade ajuda sempre. O pouco que há é para todos e arranja-se sempre um lugar na mesa.

Temos estado a falar desse lado sofrido do Alentejo, que é inegável, mas, ao mesmo tempo, os alentejanos têm imenso sentido de humor. As duas coisas estão ligadas?

Estão, e há uma explicação para isso. É verdade que as pessoas têm imenso sentido de humor. Por exemplo, tenho uma tia que ficou viúva há pouco tempo, mas, ao mesmo tempo que sofre, mantém o sentido de humor. Às vezes ela chora e ri ao mesmo tempo. Os alentejanos são assim. É um pouco como o cante. Como se vivia em ditadura e as pessoas não podiam conversar livremente, o cante era uma forma de desabafarem disfarçadamente, trazendo alegria e alívio. O trabalho do campo era muito pesado, e cantavam um bocado para se animarem. As pessoas continuam a refugiar-se no riso e na brincadeira.

Daí também o humor?

Sim. Além de que os alentejanos sempre gostaram de contar histórias. «Vou-te contar uma parte», dizemos. «Uma parte» é uma anedota. E o sentido de humor vem daí, porque as histórias e o riso ajudam a passar o tempo. Às vezes, nos meus espetáculos, as pessoas dizem: «já passou quanto tempo? Quase duas horas? Nem dei por nada, estou farta de rir». E é assim mesmo.

Rir ajuda a aguentar a vida?

E de que maneira. Eu fiquei órfã de pai e mãe e posso dizer que o humor me salvou a vida. A mim e a mais pessoas. Portanto, salvamo-nos uns aos outros.

Há um humor tipicamente alentejano?

Há, sem dúvida. Tal como há um humor tipicamente do norte. As realidades são diferentes, e por isso aquilo que se conta e a forma como se conta também são diferentes. Por exemplo, a anedota alentejana geralmente tem uma base verdadeira. Vem de uma história que já aconteceu, de lendas, de coisas absurdas cuja origem, por vezes, já se esqueceu. E a anedota alentejana nasce no campo, onde trabalhavam as pessoas. Muitas vezes nem se sabia se a história era verdade ou mentira, porque cada pessoa acrescentava a sua versão. Se havia um namorico na aldeia, a história era imediatamente contada e recontada. O que era verdade? Às tantas já não se sabia.

A anedota estava ligada à vida das pessoas?

Sim. Não havia televisão, não havia telemóveis, e as pessoas tinham de se distrair e alegrar com alguma coisa. Por isso contavam histórias e cantavam.

De que é que tem mais saudades quando está longe do Alentejo?

De tanta coisa. Tenho saudades do cheiro da terra no verão, ao final do dia. Tenho muitas saudades do lume de chão no inverno. Tenho imensa vontade de ter uma casa com lareira para poder fazer lume de chão. Tenho saudades do tempero das comidas, como fazem as minhas tias, tenho saudades de estar à mesa com os meus amigos. Isso acontece muito no Alentejo: estamos à mesa a beber um copo, de repente aparece mais um, depois mais outro, alguém traz uma guitarra, começamos a tocar e a cantar. É comum uma pessoa começar às três da tarde no café com uma água das pedras e acabar às cinco da manhã, depois de muito cantar. Eu dizia à minha mãe: «vou beber café e já venho». Depois aparecia à meia-noite.

É respeitada na região?

Acho que sim. Porque eu sempre disse que era do Alentejo, sempre me esforcei por honrar as minhas origens e defender a minha terra. Por isso acho que mesmo quem não gosta do meu trabalho me respeita. Mas, na nossa terra, continuo a ser a Ana. Os meus amigos dão-me cinco minutos para falar da minha vida e do meu trabalho e depois querem conversar sobre outras coisas. Em Lisboa sou genuinamente eu, mas no Alentejo sou-o ainda mais.

Mas agora o Alentejo também está na moda, passa-se uma ideia até demasiado lírica às vezes…

Sim, eu gostava é que as pessoas fossem ao Alentejo em agosto e depois me dissessem se aquilo é para qualquer um. Não é. Quem é que aguenta 45 graus de temperatura? Talvez comecem a perceber porque é que dantes se dormia a sesta.

Para acabar, conte-me uma anedota.

O meu anterior espetáculo inspirava-se nos anos 90 e chamava-se «Não Estavas Capaz… Não Vinhas». E eu brincava muito com coisas típicas dos anos 80 e 90. Por exemplo, no verão eu comprava aqueles fios de pescoço que cortavam a respiração. Nos pacotes de batatas fritas havia tatuagens de colar com água, e à venda para as crianças havia cigarros de chocolate (se aquilo hoje era admitido!). Então eu chegava ao verão de fio ao pescoço, tatuagem, cigarro de chocolate pendurado na boca, e ia de bicicleta à mercearia do vizinho. «Senhor Manel, tem iogurtes de amora?» E ele: «Não, não tenho». Eu voltava para trás e, no dia seguinte, lá estava com a mesma pergunta: «Senhor Manel, tem iogurtes de amora?» E a resposta: «Não, não tenho». Às tantas, o homem pensa que aquilo deve ser uma moda de Lisboa e manda vir três paletes de iogurtes de amora, com 150 iogurtes cada uma. Passada uma semana, apareço novamente de bicicleta, tatuagem falsa, cigarro pendurado na boca. Tiro a bicicleta do descanso e pergunto: «Senhor Manel, tem iogurtes de amora?». Vem a resposta: «Tenho! Mandei vir três paletes com 150 iogurtes cada uma». Ah. Não prestam, pois não? (risos) Esta é aquela anedota típica baseada nas partidas que pregávamos.

Mas isso aconteceu mesmo?

Claro que não (risos). As pessoas estão sempre a dizer-me: «nunca sei se essas histórias são verdade ou mentira».

E para as pessoas estarem atentas, quais são os próximos planos? Quando vamos poder vê-la?

Eu estreei agora no Mercado Time Out da Ribeira com o espetáculo «Muito Faço Eu», que é sobre as minhas histórias na terapia. Vou à terapia, mas depois não aplico nada daquilo… E eu tento um bocado desmistificar a terapia, mostrar que é normal e que não temos de ser perfeitos nem de aplicar tudo à letra.

Diz que neste espetáculo goza com a própria vida antes que alguém o faça…

Sim, e também digo que não quero ser adulta. Por exemplo, quando chegávamos — as raparigas — aos 15 anos, no Alentejo, as nossas avós e tias começavam a encher-nos de coisas para o enxoval. Então encharcavam-nos em toalhas, panos da loiça, naperons, coisas em prata… aquilo era uma ansiedade. Eu deitei isso tudo fora. Resultado: hoje ando a colecionar selos do Continente (risos). Dia 11 de abril vamos para o Teatro Sá da Bandeira, no Porto, e aí estejam atentos porque estamos a preparar uma grande «tour» para setembro, outubro e novembro.

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