Espólio singular em Borba – Casa do Brinquedo e Traje Antigo abre na primavera

A ideia é inaugurar o espaço na próxima primavera. Ana Margarida Alberty, criadora do projeto, e apaixonada pelo Alentejo desde sempre, não afasta a possibilidade de paralelamente disponibilizar pequenos cursos de costura e reciclagem de brinquedos para os mais pequenos. Júlia Serrão (texto)

É a bagagem de um vida riquíssima, pautada pela componente artística, que Ana Margarida Alberty já começou a transportar para o Alentejo, para habitar a Casa do Brinquedo e do Traje Antigo que irá abrir em Borba, na próxima primavera. “Gosto muito da cidade. Andei a pesquisar e encontrei um espaço que adquiri na Rua dos Terreiros, onde ainda há alguns antiquários, pois achei que era o sítio ideal para fazer esta casa”.

Do espólio fazem parte brinquedos que colecionou desde sempre, material de costura e bordados oriundos de uma retrosaria antiga que teve no Estoril, a Retrosaria Fantasia, e peças de guarda-roupa de teatro – dos trajes aos manequins – que marcam a sua passagem pelas artes cénicas ao longo de 25 anos, com escola própria.

“Dei metade do espólio a uma escola, fatos para crianças que eu própria fiz, e preservei algumas peças para mim, como vestidos dos anos 50 e 60. Custou-me um bocadinho, para dizer a verdade, mas não podia ficar com tudo”, desabafa, para dar conta que ainda assim, e com tanto material transferido para o Alentejo, tem a casa do Estoril completamente cheia.

A ideia da mentora do projeto é abrir a Casa do Brinquedo e do Traje Antigo duas vezes por semana para as pessoas poderem visitar o espólio e “eventualmente comprar algumas peças”, porque tem “muitas peças repetidas”. Paralelamente, gostaria de dinamizar o espaço com atividades, pequenos cursos, também para aproveitar materiais como uma máquina de costura e tecidos da antiga Retrosaria Fanta- sia.

“Adoraria ensinar as crianças a costurar e a fazer reciclagem de brinquedos, por exemplo”, referindo serem atividades que domina uma vez que foi professora de artes: “Tive um espaço que era só uma fábrica de brinquedos, onde as crianças construíam novos brinquedos a partir de peças partidas. Só com cola quente e armando as partes construíam mundos imaginários”.

A relação de Ana Margarida Alberty com o Alentejo vem do seu avô, Ricardo Rosa y Alberty, com origem italiana, que já nasceu na região, sendo que ainda hoje existe uma rua com o nome do antigo professor, inspetor do Ministério da Educação, em Viana do Alentejo. A neta cresceu a ouvi-lo contar histórias alentejanas e a cantar as modas: “Desde pequenina que adorava ouvi-lo. Adoro o Alentejo, adoro a cultura e os cantares. O meu sonho foi sempre ter uma casa alentejana branca com uma barra azul, mas o meu ex-marido, que tinha possibilidades financeiras, nunca quis comprar… Entretanto, o meu pai faleceu e deixou-me algum dinheiro, e eu decidi realizar o meu sonho”.

Comprou uma casa em ruínas, que recuperou, perto de Pardais e reconstruiu o seu monte alentejano, com uma casa branca com barras azuis decalcadas do seu sonho, onde vive com os cães e dois burros tanto tempo quanto a sua vida “nómada” lhe permite. Explica que, antes disso, ainda alugou uma casa no Camboja, que pintou de branco com uma barra azul “para fingir” que estava no Alentejo” “É um grande amor!”

Apesar do desejo de usufruir do seu monte e da sua paz, receber amigos e família, tem planos para lançar um programa de retiros imersivos no lugar, a partir do fim da primavera. Entretanto, também recuperou o autocarro-bar de Rio de Moinhos, que comprou a “cair de podre”, para alugar para eventos privados.

VIDA PREENCHIDA

Empreendedora, Ana Margarida Alberty não para. Nunca parou. Desde pequena que queria ser bailarina e ter ido para o teatro, mas a mãe achou que isso “não era futuro para ninguém”, e que a filha tinha de estudar na universidade e ser professora, como ela. Cumpriu os desejos da mãe, mas ficou sempre com a “veia teatral” a latejar. Fez-se professora única pelas suas “aulas lúdicas e muito divertidas”, que punham os alunos a aprender “imenso”. Fundou uma escola de línguas no Estoril, que já tem 47 anos. E outra de artes performativas que, entretanto, já fechou. Fez teatro ao longo de 25 anos, muitos musicais em inglês.

Em matéria de artes cénicas considera-se uma autodidata, ainda que tenha feito alguns cursos, inclusivamente na América e em Itália, onde aprendeu várias técnicas. Também fazia os cenários e os adereços das suas peças.

Outro aspeto importante do seu percurso é ter-se feito voluntária, em 2012. Aconteceu durante uma “fase difícil”, nota. “Estava um bocado descontente e deprimida e, então, fui procurar uma oportunidade de voluntariado com crianças, porque adoro lidar e ensinar crianças pequenas. Inscrevi-me numa empresa inglesa e escolhi o Camboja porque vi a fotografia de um orfanato com umas crianças muito queridas”.

Ficou apaixonada pelo país, com a sua atmosfera “budista”, e pela sede de aprender das crianças. Logo depois, lançou uma escola itinerante e agora o seu próprio projeto soma 14 anos. “Tenho o meu próprio staff e professores de confiança, que todos os dias me mandam fotos e vídeos para saber o que lá se passa”.

A dias de partir para o destino do Sudeste Asiático, dá conta que tem uma campanha de crowdfunding a decorrer para fazer melhorias e montar uma escola de artes e uma biblioteca itinerante.

“Já fiz muito e continuo a fazer”, diz, dando conta que também pinta. “Agora a Casa do Brinquedo é mais uma”. Um novo projeto na forma de um enorme e diversificado espólio, com peças que atravessam os tempos e se oferecem à observação dos seus visitantes. “O mundo antigo está a acabar e eu gostava que as pessoas viessem à Casa do Brinquedo nem que fosse só por curiosidade. Até para as crianças saberem como eram os bonecos antigos e os trajes, terem uma ideia do ‘glamour’ daqueles tempos”, conclui.

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