Estremoz à luz de José Saramago, 45 anos depois de «Viagem a Portugal»

Estremoz é ponto de partida para revisitar o olhar de José Saramago em «Viagem a Portugal», num percurso que cruza memória, património e identidade, recuperando descrições, lugares e ambientes registados pelo escritor, numa leitura que permanece atual e reveladora do território.

Luís Godinho (texto) e Cabrita Nascimento (fotografia)

Há 45 anos, muito antes do Nobel da Literatura, José Saramago percorreu o país e publicou «Viagem a Portugal», obra que nasce de um convite do Círculo de Leitores para percorrer o território e produzir um retrato literário que cruzasse património, paisagem, história e identidade cultural.

Mais do que um simples guia de viagem, o livro assume-se como uma reflexão pessoal e subjetiva sobre o país, construída a partir da observação direta e da memória histórica. Ao longo do percurso, Saramago propõe uma leitura crítica e sensível de Portugal, valorizando o património material e imaterial, ao mesmo tempo que questiona esquecimentos e desigualdades, conferindo à obra um lugar singular na literatura de viagens em língua portuguesa. Em nenhum outro lugar, como em Estremoz, sentiu a densidade simbólica das muralhas.

«Em nenhum lugar sentiu tanto o viajante a demarcação de muralhas, a separação entre os de dentro e os de fora. Será, contudo, uma impressão pouco mais que subjetiva, sujeita portanto a caução, que o viajante, claro está, não pode oferecer», escreveu.

As casas, «usando o mármore como pedra comum», prenderam-lhe a atenção, claro, a ponto de considerar que, «por si só», já justificam uma visita à cidade, que lá mais abaixo se «alarga» e «quase perde de vista as suas origens, mesmo sendo a celebrada Torre das Três Coroas tão evidente apelo».

Trata-se da torre de menagem do castelo de Estremoz, elemento central do sistema defensivo medieval da cidade, erguido no século XIII. Uma estrutura em mármore branco, com cerca de 27 metros de altura, que dominava a alcáçova e tinha funções militares e simbólicas, «com os seus decorativos balcões ameados e o que resta do Paço de D. Dinis, a galilé de colunas geminadas onde o viajante foi encontrar representações da Lua e cordeiros».

A designação «Três Coroas» simboliza o facto de a sua construção se ter desenvolvido ao longo dos reinados de três monarcas portugueses — D. Afonso III, D. Dinis e D. Afonso IV. Ao lado, na setecentista Capela da Rainha Santa, anotou José Saramago o «coro teatral e os ornamentadíssimos azulejos que representam passos da vida da milagrosa senhora que transformava pão em rosas à falta de poder fazer de rosas pão».

Segue depois o escritor para o Museu Municipal, já à época com «bastante para ver e muito para não esquecer», deixando de lado as peças «que poderia encontrar, sem surpresa, noutros museus, para poder maravilhar-se, à vontade, com os bonecos de barro que de Estremoz tomaram nome».

A palavra escolhida é «maravilhar», e sublinha que «não há termo melhor» para descrever o que os seus olhos viam: «São centenas de figurinhas, arrumadas com critério e gosto, e cada uma delas justificaria exame demorado». O viajante não o refere, mas talvez essa visita tenha sido feita na companhia de Joaquim Vermelho, personalidade que hoje dá nome ao museu, que à época ali desenvolvia intensa atividade.

José Saramago confessa que o viajante não sabe para onde se virar: «chamam-no tipos populares, cenas do trabalho rural, imagens de presépio ou de altar doméstico, maquinetas de diversa inspiração, um mundo a que não é possível dar inteira volta». Regista um exemplo, o de uma vitrina «onde se juntam, em organizada confusão, pretos de pé e a cavalo: amazona e cavaleiros, pároco a cavalo; guardador de borregos, homem comendo as migas, homem fazendo a açorda; sargentos — de pé ou sentados no jardim; peralta do campo, tocador de harmónio; primaveras com ou sem grinalda».

E ainda: «tipos populares — castanheira, leiteiro, aguadeiro; pastoras com fuso ou guardando galinhas ou perus ou borregos; mulheres do bando, lavando na selha, passando a ferro, entoucando-se a um espelho ou tomando chá; dama de pezinhos; matança do porco com três figuras e as mulheres dos enchidos».

Tudo visto, um ditado haveria de inventar: «A Estremoz irás, seus bonecos verás, tua alma salvarás». E eis o escritor/viajante a caminho do Rossio, não sem antes «contemplar a infinda paisagem» que do castelo se avista. Na Igreja de São Francisco, um dos principais edifícios religiosos da cidade, ligado à Ordem dos Frades Menores e com origem no século XIII — tendo sido construída no reinado de D. Afonso III —, não pode deixar de reparar na Árvore de Jessé e na capela fronteira, dos Terceiros, onde encontrou «a mais inquietante coleção de santos em que já pôs olhos».

A explicação surge de imediato: «Não que eles se mostrem em atitudes de sofrimento excessivo ou de severidade insuportável. Pelo contrário. Todos vestidos de igual, homens e mulheres, longas e simples túnicas de cetim natural, o que os caracteriza é a impassibilidade do rosto e a fixidez do olhar». Escreve o autor que «não se comportam como juízes, estão já para além dessa ainda servidão humana», confessa-se «perturbado mais do que desejaria reconhecer» e toma-lhes nota dos nomes… de quase todos, pois «não consegue copiar o quase apagado dístico do último santo».

Não partirá sem antes fixar o olhar num túmulo, «com um barbado homem deitado, assistido por um anjito que mostra as asas e solas dos pés (sinal de que tanto voa como anda), tendo no frontal dois brasões de armas com meias-luas e dois gatos possantes, e ao meio uma cena de caçada, o senhor a cavalo com o falcão no punho, um homem de lança tocando a trompa, outro incitando os cães que ladram e mordem um javali».


O jornalista Luís Godinho e o fotógrafo Cabrita Nascimento percorrem os roteiros de José Saramago no Alentejo, 45 anos depois da publicação de «Viagem a Portugal». Citações de Saramago retiradas da 28.ª edição, Porto Editora, dezembro de 2022

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