Estudantes simulam missão a Marte no Observatório do Lago Alqueva

Nove estudantes europeus participam numa simulação de missão a Marte no Observatório do Lago Alqueva, em Reguengos de Monsaraz, numa iniciativa que junta ciência e educação até domingo.

Sérgio Major/Lusa (texto) e Nuno Veiga/Lusa (fotografia)

Num lugar inóspito, dois astronautas saem momentaneamente da estação espacial para explorar a área em busca de indícios de vida, numa missão a Marte em que o resto da equipa segue cada movimento à distância. Na verdade, trata-se da simulação de uma missão a Marte com a participação de nove estudantes europeus, que decorre até domingo no Observatório do Lago Alqueva (OLA), próximo de Monsaraz.

Em pleno Alentejo, mas como se fosse em Marte, os dois elementos desta missão espacial análoga recolhem amostras da superfície para, mais tarde, procurarem em laboratório a existência de microrganismos.

«Estão a recolher amostras de solo, que, depois, vão colocar em placas de ágar-ágar (um espessante extraído de algas marinhas) e deixar numa estufa para as bactérias crescerem e conseguirem explorar», explica Francisco Bártolo, membro da missão responsável pela comunicação.

Com fatos semelhantes aos dos verdadeiros astronautas, embora estes sejam pretos, os dois jovens exploradores têm uma hora para cumprir a tarefa e todos os passos são seguidos na sala de operações e na estação espacial, através de sistemas de comunicação e câmaras. Estes elementos fazem parte do grupo de nove alunos do ensino secundário de Portugal, Áustria e Grécia que participa na simulação da missão no OLA.

Integrada no projeto europeu Explore, financiado pelo programa Erasmus+, a iniciativa pretende levar o futuro da exploração espacial às salas de aula e despertar o interesse pelas áreas das ciências, tecnologia, engenharia, artes e matemática.

O projeto é liderado pelo Fórum Espacial Austríaco, em parceria com a Organização Não-Governamental portuguesa Nuclio, a escola grega Ellinogermaniki Agogi e o Comité de Investigação Espacial (COSPAR), além do OLA.

Por estes dias, vários espaços do OLA, entre a vila medieval de Monsaraz e as margens da albufeira de Alqueva, simulam uma sala de operações e uma estação espacial, no interior das instalações, e a superfície marciana, no exterior.

Escolhidos por colegas e professores, os nove jovens passam alternadamente pelos vários cenários da missão, assumindo as respetivas tarefas.

Com 14 anos, Francisco Bártolo, aluno do 10.º ano na Escola Secundária de Paredes, não pensou duas vezes em aceitar o desafio de participar na missão e confessa que quer dedicar a sua vida a esta área do conhecimento.

«Esta missão é muito importante», afiança, assinalando que, apesar de os procedimentos estarem «mais simplificados» do que os reais, estes alunos estão a «recriar o que outros astronautas estão a fazer» em simulações idênticas da atmosfera de Marte.

Na sala de operações, seis elementos da missão comandam a atividade extraveicular (EVA, na sigla em inglês), sob o «olhar atento» de Rosa Doran, presidente do Nuclio, e Gernot Grömer, diretor do Fórum Espacial Austríaco, entre outros.

A expedição «não é 100% verdadeira», avisa a presidente da ONG, salientando, porém, que «está em tudo similar a uma missão real de um astronauta análogo».

Rosa Doran diz que este estrutura promove, há vários anos, investigação científica em sala de aula com uma metodologia que tem como base a ideia de que «a ciência se aprende fazendo» e só aponta vantagens a este tipo de iniciativas.

«Já temos estudantes que descobrem asteroides e fazem curvas de luz de planetas extra solares e achamos que levar a astronáutica análoga até às escolas e permitir que os alunos aprendam conteúdo curricular enquanto estão a trabalhar em algo real faz todo o sentido», frisa.

Já Gernot Grömer, que, além de diretor do Fórum Espacial Austríaco, é também astronauta analógico certificado, realça que esta iniciativa é «uma versão estudantil» das designadas «missões profissionais de investigação analógica».

Nessas missões, «vamos para desertos que, em certa medida, são semelhantes a Marte, enviamos uma equipa de astronautas analógicos cuidadosamente selecionada e estudamos fluxos de trabalho e experiências» como se fosse naquele planeta, refere.

Na missão análoga no Alentejo, segundo o responsável, acontece o mesmo, mas o fluxo de trabalho foi adaptado para que os estudantes «continuem a sentir o entusiasmo de fazer investigação que ninguém fez antes».

«Para eles, é uma experiência literalmente de outro mundo e, em menos de 24 horas, já estão completamente imersos em todo este mundo de investigação de Marte e isso é tão emocionante de ver».

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