A afirmação foi feita numa audição pública sobre o impacto dos projetos, promovida pela Assembleia Municipal de Évora, na qual o responsável da Hyperion Renewables procurou responder às preocupações levantadas pelo movimento cívico Juntos pelo Divor, que tem alertado para o risco de destruição «irreversível» da paisagem rural a norte de Évora e para as implicações na classificação Unesco com a construção de três mega centrais numa área de 1700 hectares contíguos.
Diogo Trindade lembrou que «o centro histórico se situa numa elevação que pode sugerir uma visibilidade ampla sobre a envolvente», mas argumentou que «essa visibilidade é também condicionada pelo próprio tecido urbano: os edifícios, as muralhas, a vegetação e a própria topografia preenchem o campo visual».
A distância, sublinhou, «é absolutamente decisiva»: a estas distâncias — entre os cinco e os 12 quilómetros — «o que se poderá perceber é uma mancha discreta e de baixo contraste no horizonte, sem que seja possível identificar painéis especificamente ou apreender as centrais como elemento dominante da paisagem».
Invocando o relatório da Unesco de 2024 sobre o estado de conservação do bem classificado, o «documento de avaliação periódica formal mais recente», Diogo Trindade sublinhou a conclusão de que «tanto a autenticidade como a integridade do centro histórico de Évora permanecem preservadas, tendo pleno conhecimento da realidade do território envolvente».
Na sua leitura, a alteração da paisagem a norte de Évora «não é por si só incompatível com a manutenção desse valor universal excecional do centro histórico, e a própria Unesco assim o confirma».
Diogo Trindade rejeitou ainda a existência de «um vazio de proteção», como referiu ser alegado numa carta enviada à Unesco pelo movimento cívico Juntos pelo Divor e pelo Grupo Pro-Évora. O Plano Diretor Municipal de Évora, disse, define instrumentos de salvaguarda que incluem as «tomadas de vista sobre o centro histórico» e as «zonas de especial valor patrimonial» — e os projetos da Hyperion «encontram-se integralmente fora dessas zonas».
Quanto à escolha da localização, explicou que o ponto de partida foi «a subestação elétrica do Divor [da Redes Energéticas Nacionais — REN], que é onde estes projetos têm de se ligar», com a área a ser progressivamente afinada segundo critérios ambientais, patrimoniais, paisagísticos e técnicos, após consulta a «mais de 40 entidades».
Os projetos incluem ainda «cortinas arbóreas ao longo de muitos quilómetros» para minimizar o impacto visual, planos de preservação de sobreiros e azinheiras e «planos de envolvimento com as comunidades locais».
O diretor da Hyperion Renewables encerrou a intervenção com um apelo à compatibilização entre transição energética e proteção do património. «A questão que hoje se coloca não é, na verdade, uma oposição entre o património e a energia», disse, defendendo que o desafio «é saber como compatibilizar a transição energética e o combate às alterações climáticas — que têm efeitos já hoje — com o património e com o território».
N. da D.: Em função de múltiplos comentários recebidos, cumpre esclarecer que se trata de um primeiro artigo sobre a audição pública promovida pela Assembleia Municipal de Évora. A escolha deste ângulo para primeiro artigo justifica-se na medida em que foi a primeira vez que a empresa se pronunciou sobre o tema. A Alentejo Ilustrado, como sempre, rege-se exclusivamente por critérios jornalísticos e de interesse público.











9 Responses
Boa noite. Já agora, o que é que a Plataforma Cívica Juntos pelo Divor e os muitos cidadãos presentes disseram sobre o mesmo assunto?
Ana Barbosa.
Noticiar uma audição pública com apenas uma intervenção, aliás a única que defendeu os projectos, quando muitas e diversas foram feitas argumentando contra esses projectos, não é jornalismo independente nem credível. É uma vergonha!
Marcial Rodrigues, a consideração e estima que tenho por si obriga-me a adicionar uma nota sobre o seu comentário, complementar ao que falámos telefonicamente.
A 17 de junho de 2024 a Alentejo Ilustrado publicou a notícia: Moradores criam plataforma para travar projetos fotovoltaicos no Divor.
A 28 de junho de 2024 a Alentejo Ilustrado publicou a notícia: Centrais solares “ameaçam” habitats e paisagens rurais do Divor.
A 22 de setembro de 2024 a Alentejo Ilustrado publicou a notícia: Évora: Governo não trava centrais solares projetadas para o Divor.
A 25 de março de 2025 publicámos a notícia: GEOTA alerta para impactes negativos significativos de três centrais solares em Évora
A 11 de junho de 2025 a Alentejo Ilustrado publicou a notícia: Ambiente dá parecer negativo, mas centrais solares avançam em Évora
A 4 de julho de 2025 a Alentejo Ilustrado publicou a notícia: Movimentos cívicos contestam megaprojetos de renováveis no Alentejo
A 11 de agosto de 2025 a Alentejo Ilustrado publicou a notícia: Juntos pelo Divor contra impacto “indefensável” de megacentrais em Évora
A 1 de abril de 2026 a Alentejo Ilustrado publicou a notícia: Mega centrais solares «ameaçam» classificação de Évora pela Unesco
A 6 de junho de 2026 a Alentejo Ilustrado publicou a notícia: Movimentos cívicos unem-se contra megaprojetos solares e eólicos
Trata-se de uma listagem não exaustiva.
Publicar uma notícia com a posição da empresa, possibilitando-lhe o exercício do contraditório, parece-me decisão acertada. Vergonha seria não o fazer, como o Marcial muito bem sabe. Quanto à audição propriamente dita, e conforme lhe referi, será objeto de três notícias distintas, incluindo a que já foi publicada. E sê-lo-á não por pressões (ainda que naturais) como as que entenderam fazer junto da direção da revista, mas precisamente porque a revista é imune a pressões deste e doutros tipos.
É correcto publicar a posição da empresa, sem dúvida. Não é correcto publicar essa posição como notícia de uma audição pública sem referir que muito mais foi dito na mesma, sempre em sentido contrário ao da empresa, como comuniquei ao director do Alentejo Ilustrado, o que ele reconheceu e corrigiu, como lhe sugeri, acrescentando a “N. da D.”
Não queremos a nossa paisagem, os nossos ecossistemas naturais e o nosso clima afectados por esta catástrofe!! Se o planeta não “morrer” da doença, morrerá da cura… 🙈
É bom que escrevam outro artigo, com as posições apresentadas pelos grupos e pessoas locais! Jornalismo é dar voz a todos. Começar por dar voz a estas empresas que já têm protagonismo que chegue e não são propriamente as defensoras do património local, foi no meu ponto de vista, uma lamentável e infeliz decisão
Cláudia Martins, obrigado pelo seu comentário. Claro, como jornalismo é dar voz a todos, a Alentejo Ilustrado deu-a também à empresa responsável pelo desenvolvimento dos projetos.
A 17 de junho de 2024 publicámos a notícia: Moradores criam plataforma para travar projetos fotovoltaicos no Divor.
A 28 de junho de 2024 publicámos a notícia: Centrais solares “ameaçam” habitats e paisagens rurais do Divor.
A 22 de setembro de 2024 publicámos a notícia: Évora: Governo não trava centrais solares projetadas para o Divor.
A 25 de março de 2025 publicámos a notícia: GEOTA alerta para impactes negativos significativos de três centrais solares em Évora
A 11 de junho de 2025 publicámos a notícia: Ambiente dá parecer negativo, mas centrais solares avançam em Évora
A 4 de julho de 2025 publicámos a notícia: Movimentos cívicos contestam megaprojetos de renováveis no Alentejo
A 11 de agosto de 2025 publicámos a notícia: Juntos pelo Divor contra impacto “indefensável” de megacentrais em Évora
A 1 de abril de 2026 publicámos a notícia: Mega centrais solares «ameaçam» classificação de Évora pela Unesco
A 6 de junho de 2026 publicámos a notícia: Movimentos cívicos unem-se contra megaprojetos solares e eólicos
Trata-se de uma listagem não exaustiva. Dar oportunidade à empresa promotora de apresentar os seus pontos de vista não se trata, de todo, de uma infeliz decisão – desde logo porque a empresa não teve oportunidade para o fazer em todas as ocasiões anteriores – que, como vê foram muitas – em que o publicámos artigos sobre o assunto.
Uma notícia relata factos, a notícia que o Alentejo Ilustrado publicou sobre a audição pública da Assembleia Municipal de Évora em relação às centrais fotovoltaicas não relatou o que lá se passou, apenas relatou uma parte do que se passou. Portanto, objetivamente, foi parcial e não foi isenta porque só relatou UMA PARTE, dando uma perspetiva deturpada dos factos. Assim, aquela notícia foi mau jornalismo porque não relatou os factos com verdade. Completamente de acordo que também se ouça a empresa , então que a redação peça uma entrevista à empresa onde esta poderá expor os seus argumentos. Isto, obviamente, não põe em causa a boa qualidade do jornalismo que o Alentejo Ilustrado pratica. Simplesmente, nesta notícia, em concreto, errou e só lhe ficaria bem reconhece lo.
Perante a indignação da população, empresa promotora de duas das mega centrais fotovoltaicas que colocam em risco a classificação da cidade como Patrimonio da Humanidade. tenta justificar, com o alegado cumprimento das normas em vigor, que este problema está salvaguardado. Com meia duzia de sebes, e pouco mais. Uma anedota.