Falta de meios no SNS compromete dádivas de sangue

O presidente da direção da Federação das Associações de Dadores de Sangue, Paulo Cardoso, defende que o principal entrave à dádiva em Portugal não está na quebra do número de voluntários, mas na incapacidade dos serviços de sangue do Serviço Nacional de Saúde de chegar até eles.

Em entrevista ao Esquerda.net, o dirigente aponta a falta de investimento, meios e recursos humanos como fatores determinantes e reclama alterações legislativas que protejam os dadores de eventuais penalizações laborais.

“O nosso problema na dádiva de sangue não é propriamente a redução de dadores, é não conseguir chegar aos dadores, é não aproveitarmos a generosidade dos dadores e o trabalho voluntário dos dirigentes associativos”, afirma. E acrescenta: “Falta de meios, falta de recursos humanos… Chega a haver cancela- mentos de colheitas porque falta o médico ou o enfermeiro.”

Segundo Paulo Cardoso, também membro da Associação de Dadores Benévolos de Sangue de Portalegre, há situações em que todo o trabalho preparatório acaba por ser frustrado. “Há situações em que os dadores organizam a sua vida para poderem ir dar sangue, os dirigentes e voluntários organizam as colheitas, penduram cartazes, fazem a divulgação e depois, com poucas horas de antecedência, recebem a informação de que a colheita teve de ser cancelada. Isto é dramático e desmotiva tanto dadores como dirigentes.”

Sobre a evolução do número de dadores, lembra que “este é um fenómeno de décadas” e que apenas no ano de 2010 Portugal conseguiu atingir o rácio que a Organização Mundial de Saúde preconiza “para garantir que tudo corra bem”. O presidente da Federação atribui esta tendência ao envelhecimento da população e à dificuldade em captar jovens, embora sublinhe que o consumo de eritrócitos tem diminuído com a modernização das cirurgias.

Quanto à recorrente ideia de escassez, Paulo Cardoso clarifica: “Quando se fala em falta de sangue, não é propriamente falta de sangue, é falta de plaquetas.” E explica que “infelizmente os casos oncológicos estão a aumentar e os tratamentos de quimioterapia obrigam os doentes a precisar de suplementos de plaquetas”.

Defende, por isso, um reforço da separação dos elementos constituintes do sangue. “Do que precisávamos era de programas de aférese, como existem em força na França e em Espanha: são unidades chamadas separadores celulares, em que o dador vai fazer a sua dádiva e só dá plaquetas ou plasma, que é o que está a fazer falta.”

O dirigente recorda que “desde os anos 80 nunca tivemos falta de sangue”, admitindo, contudo, que existem quebras sazonais nas reservas. E critica o alarmismo mediático: “O alarmismo tem consequências porque os dadores são pessoas generosas e, quando há uma notícia de que há falta de sangue, eles vão em massa dar sangue.” E questiona: “Depois o que é que se faz, deita-se fora o sangue?”

No plano legislativo, a Federação quer maior proteção para os voluntários. “Nós dizemos que o dador precisa de ser defendido. A atual lei do trabalho – e já nem falo do pacote laboral que o Governo propôs… – não o defende.” Paulo Cardoso relata já terem sido recebidas queixas de dadores “que foram penalizados no prémio de assiduidade ou na majoração de férias” e considera essencial que exista “uma penalização clara da entidade patronal se esta prejudicar os direitos do dador”.


“Lei do trabalho não protege devidamente os dadores”

Em Portugal, há unidades móveis para recolha de sangue, como existem em Espanha?

Por cá, quase que já não temos unidades móveis. O Centro de Sangue de Lisboa tem duas unidades móveis e dois motoristas para todo o sul do país. O nosso problema na dádiva de sangue não é propriamente a redução de dadores, é não conseguir chegar aos dadores, é não aproveitarmos a generosidade dos dadores e o trabalho voluntário dos dirigentes associativos. Falta de meios, falta de recursos humanos… Chega a haver cancelamentos de colheitas porque falta o médico ou o enfermeiro. Há situações em que os dadores organizam a sua vida para poderem ir dar sangue, os dirigentes e voluntários organizam as colheitas, penduram cartazes, fazem a divulgação e depois, com poucas horas de antecedência, recebem a informação de que a colheita teve de ser cancelada. Isto é dramático e desmotiva tanto dadores como dirigentes….

Que mudanças na lei é que gostavam de ver aprovadas para reforçar os direitos dos dadores de sangue?

O Estatuto do Dador já prevê que em algumas condições o próprio médico pode isentá-lo do serviço, pois há empregos em que a dádiva não constitui um problema, contudo, há outros em que o trabalho exige esforços. Já recebemos queixas de dadores que foram penalizados no prémio de assiduidade ou na majoração de férias. Se a lei disser que o dador pode ter direito ao dia, se calhar muitos não o vão poder gozar. O mais importante para nós era que a lei defendesse o dador para que haja uma penalização clara da entidade patronal se esta prejudicar os direitos do dador. Há muitos maus exemplos de entidades patronais nesse aspeto, porém, felizmente também há empresas que fazem um trabalho fantástico para incentivar à dádiva de sangue.

Justificação chumbada

A Assembleia da República rejeitou a proposta que pretendia permitir aos dadores de sangue faltar ao trabalho, de forma justificada, no dia em que realizassem a dádiva. A iniciativa foi apresentada pelo PCP, BE e PAN. Os projetos foram chumbados com os votos contra do PSD e CDS-PP e a abstenção do Chega, PS e Iniciativa Liberal. Atualmente, a lei permite apenas que o trabalhador se ausente do trabalho pelo tempo necessário para fazer a dádiva, sem perda de direitos ou regalias, não estando prevista a possibilidade de faltar o dia completo. Durante o debate, os partidos proponentes defenderam que a alteração poderia ajudar a aumentar o número de dadores, que tem vindo a diminuir nos últimos anos. Já o PSD considerou que a legislação em vigor é adequada e defendeu mais divulgação dos direitos existentes, além de reforço na sensibilização e na capacidade do sistema de recolha de sangue.

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