Feira d’Aires, 275 anos de «contrato» entre o «céu» e o mercado

A Feira d'Aires começa hoje e prolonga-se até 28 de setembro em Viana do Alentejo. A 27 cumprem-se 275 anos sobre o alvará de D. José I que a instituiu junto ao santuário. O presidente da Câmara, Luís Metrogos, quer torná-la «a feira das feiras» e apostar no turismo religioso.

Ana Luísa Delgado (texto) e Carlos Menezes (fotografia)

A Feira d’Aires está de regresso a Viana do Alentejo e a data não é indiferente: a 27 de setembro cumprem-se 275 anos sobre o alvará que instituiu a feira anual junto ao Santuário de Nossa Senhora d’Aires. O documento, datado de 27 de setembro de 1751, foi assinado por Sebastião José de Carvalho e Melo — o futuro marquês de Pombal — com a chancelaria de D. José I.

O alvará não criou a feira: reconheceu-a. «No século XVIII faziam-se diversas romarias à Senhora de Aires, em datas distintas, de romeiros vindos de várias localidades alentejanas. Os romeiros de Évora ali se deslocavam no quarto domingo de setembro cuja festa durava três dias. A grande afluência de pessoas naturalmente atraiu ao recinto do santuário vários mercadores que vinham vender os seus produtos», refere a historiadora Fátima Farrica.

O santuário ergue-se a dois quilómetros da vila, num descampado que era já ponto de passagem muito antes de ali existir devoção mariana. A autarquia documenta na envolvente um vicus [pequeno aglomerado populacional] romano do século II e a presença árabe a partir do século VII, perto do cruzamento da estrada romana entre Ebora e Pax Julia. Duas aras com inscrições latinas foram reaproveitadas nos pilares do muro do adro — a sacralização do sítio é, pois, anterior ao templo que hoje o assinala.

A memória fundadora está gravada em latim na portada da igreja. Fátima Farrica regista três traduções do que ali se encontra escrito, no livro «Nossa Senhora de Aires. A Lenda, o Espaço e a Ação Humana», editado em agosto de 2024 pela Caleidoscópio com o apoio da Junta de Freguesia de Viana do Alentejo.

Não sendo totalmente coincidentes, a mais antiga, datada de 1882, da autoria de Pinho Leal, resume a lenda: «Expulsos os mouros destas terras, quando um lavrador arava o seu campo encontrou a imagem que se vê no antigo altar. Oh feliz terra, mais fecunda que nenhuma outra! Um só rego te deu mais do que seara ou colheita dará em tempo algum».

Encontrada dentro de um pote de barro, é essa imagem — uma Nossa Senhora em pedra de Ançã, quatrocentista ou quinhentista — que continua no altar. A lenda chegou à letra impressa em 1718, com frei Agostinho de Santa Maria, no «Santuário Mariano», e coexiste com outra versão de transmissão oral. Documentalmente, o culto ancora-se no século XVI: os primeiros milagres atribuídos à Senhora de Aires datam de 1582, em pleno fervor mariano da Contra-Reforma.

A investigadora Raquel Seixas, autora da tese «O Santuário de Nossa Senhora de Aires: Arquitectura e Devoção (1743-1792)», sugere que o domínio filipino tenha reforçado o culto, num tempo em que se multiplicavam narrativas de milagres destinadas a provar a preferência da Virgem pelos portugueses face aos castelhanos.

O que é hoje repetido como origem da festa — a epidemia de 1748 e a promessa de comerciantes de Évora, que ofereceram à Virgem três dias de festa se o surto cessasse — merece uma precisão cronológica. A construção do templo atual começou em 1743, cinco anos antes, com a demolição da igreja quinhentista. O que a promessa fixou foi a festa e a afluência, não a pedra.

As obras prolongaram-se até 1792 e a sagração definitiva só chegou em 1804, por frei Manuel do Cenáculo, então arcebispo de Évora. «O autor do desenho da nova igreja foi o padre oratoriano João Baptista, da Congregação de São Filipe de Néri de Estremoz; o mestre-de-obras foi Manuel Gomes, que dirigiu a obra da Sé de Évora, e o entalhador do retábulo/baldaquino João de Almeida Negrão», refere Fátima Farrica.

A feira é, portanto, «filha» da romaria, e é nesse cruzamento entre o sagrado e o profano que sempre se sustentou ao longo dos séculos; também ponto de encontro e de regresso dos «filhos» da terra.

«É como se para o povo a satisfação das necessidades religiosas, os rituais e cerimónias — as procissões, o pagamento de promessas e orações — estivessem no mesmo nível de importância que a satisfação das necessidades elementares, a alimentação e o divertimento. E, assim, a festa, auge da socialização e da sociabilidade, constitui o ponto de encontro de todas as expectativas, mesmo as que serão decisivas para o futuro individual ou familiar: o negócio, casamento, o jogo e tantas outras», sublinha Francisco Vaz, professor de História na Universidade de Évora, em «A Festa e Feira de Nossa Senhora de Aires em Viana do Alentejo» («Cultura – Revista de História e Teoria das Ideias», vol. IX, 1997).

Este ano não será diferente. «Desde muito novo, não me recordo de alguma vez não ter participado numa edição da Feira d’Aires», conta Luís Metrogos, presidente da Câmara de Viana do Alentejo, eleito em outubro do ano passado e que, pela primeira vez, assume a responsabilidade máxima pela organização do certame. Da infância guarda as «picardias» que se desenvolviam nos carrinhos de choque. «Guardo aqui memórias que me são muito felizes».

Cresceu com a feira e viu-a mudar. «Já vimos uma feira franca muito mais forte e dinâmica do que aquela que é hoje», admite o autarca, que estende o balanço à disposição dos stands e ao próprio público: «Já vimos as próprias pessoas serem diferentes daquelas que são hoje. O mundo evolui e nós temos de nos adaptar a essa mesma evolução.»

Daí o conceito desta edição. «Aquilo que queremos fazer é torná-la a Feira das Feiras», afirma o autarca, explicando que às cerimónias religiosas e à feira franca se vão juntar a Feira do Livro, a Feira da Saúde, a Festa da Malha e a corrida de Nossa Senhora d’Aires. A mudança, assume, responde a um problema: os eventos «têm tido um certo declínio» e «nós temos de contrariar esse mesmo declínio».

Luís Metrogos quer que esta edição seja «o pontapé de saída» para a dinamização daquele a que chama «o grande santuário do sul» e assume o turismo religioso como aposta estratégica, por «poder ser uma grande componente para a dinamização do nosso território e do concelho de Viana do Alentejo».

A dimensão económica continuará igualmente a ocupar um lugar central. Segundo o autarca, o certame conta com mais de 90 stands preenchidos e existem expositores em lista de espera, sendo reservadas zonas de maior passagem às empresas, produtores e artesãos do concelho. «A feira acaba por ser uma montra do concelho e da região, por onde passam muitas, muitas pessoas».

Casa dos Milagres

Do ponto de vista antropológico, o núcleo do lugar não é o palco nem o pavilhão: é a Casa dos Milagres, antiga sala das confrarias. Ali as paredes estão cobertas de ex-votos — quadros pintados, figuras de cera, fotografias, vestidos de noiva, tranças de cabelo. O mais antigo data de 1735 e a coleção prolonga-se até hoje, com um pico documentado durante a guerra colonial.

Os aspetos sociais desta iconografia votiva foram objeto de estudo de Maria Manuela Bilou, na Universidade de Évora, em 1997. A leitura que estes objetos permitem é direta: uma religiosidade de contrato, em que se pede proteção contra o que ameaça o corpo, o gado e a colheita. O santuário é Monumento Nacional desde 2012 e foi alvo de uma intervenção de conservação e restauro que culminou, em 2024, na abertura de dois núcleos expositivos: a Casa dos Romeiros, dedicada à história do culto desde a época romana, e o primeiro piso da igreja, centrado nos ex-votos.

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