Feliciano de Mira: “Do pensamento socioeconómico à vanguarda das escritas”

Forjado entre a memória afetiva de Arraiolos e a energia criativa que se renova na Évora Experimental, Feliciano de Mira afirma-se como uma das vozes mais inquietas das escritas experimentais contemporâneas. Professor, consultor, investigador, poliartista, construiu um percurso singular que o levou a várias partes do mundo e no qual cruza sociologia, arte e escritas de vanguarda. Júlia Serrão (texto) e Cabrita Nascimento (fotografia)

Quando Feliciano de Mira tinha um ano de idade acompanhou os pais e a madrinha que se mudaram para Évora, mas a ligação a Arraiolos manteve-se através de tios e primos. As memórias familiares são “muito bonitas”. “Quando a família se reunia, quase todos cantavam o fado: a mãe Gilberta, a madrinha Emília, a tia Maria, o tio Zé da Rita, o tio António e o primo Chico”, havia uma saudável amizade e partilha entre todos.

A preocupação estética “gerou-se logo em tenra idade”, comenta, para acrescentar que também os pais “eram uns artistas na arte do calçado”, com o pai Armando a desenhar modelos personalizados. “Sempre houve uma preocupação estética dentro da família”.

Aos 18 anos foi estudar para Londres, ao mundo de entretenimento oferecido pela grande cidade, aliou a participação em seminários, absorveu a riqueza da arte e da cultura, uma forma de aproveitar “a presença numa sociedade que estava numa fase de desenvolvimento muito mais avançada” que a portuguesa.

Por esta altura já tinha “preocupações sociais e estéticas”, pelo que a estadia na capital britânica permitiu-lhe estudar Art & Language e as tendências da arte contemporânea. “Londres ajudou-me imenso a conhecer e a acompanhar as tendências da arte de vanguarda ”, nota.

Mais tarde faz a licenciatura em Sociologia em Portugal, no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (Iscte). O seu trabalho como consultor na GTZ- Agência de Cooperação Técnica da República Federal Alemã levou-o a viver no Brasil, Moçambique e República de El Salvador Centro América, onde percebeu que “as questões socioeconómicas eram mais importantes que as sociológicas, e que as económicas só por si não são suficientes para explicar a realidade”.

Então decidiu fazer um mestrado em Sistemas Sócio-Organizacionais da Atividade Económica no Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa (ISEG). O extenso currículo académico de Feliciano de Mira inclui ainda um doutoramento em Sociologia Económica e das Organizações (ISEG) e em Socioeconomia do Desenvolvimento na EHESS-École des Hautes Études en Scienses Sociales de Paris. Depois um pós-doutoramento em Estudos Culturais Comparados pela mesma Escola e pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

A temática moçambicana do mestrado, manteve-se no dou- toramento em Paris, tendo como orientador o Direteur d’Etudes Elikia M’Bokolo: “O maior historiador de África da atualidade e uma das grandes referências mundiais dos estudos africanos”. Tirou a nota máxima de 20 valores, com uma tese sobre as relações entre elites políticas e económicas em Moçambique. Foi professor em sete universidades da Europa, África e América-Latina, em Moçambique introduziu os campos disciplinares da socioeconomia e da sociologia da arte e criou o mestrado em Socioeconomia do Desenvolvimento Sustentável enquanto publicava artigos e livros.

Escritas Experimentais

As preocupações estéticas e criativas que o acompanham ao longo da vida concretizam-se em obra desde 1977, altura em que começa a apresentar poesia visual em exposições e a publicá-la em várias revistas. Mas houve períodos, diz Feliciano de Mira, “em que o peso das questões socioeconómicas era superior”, desde logo porque assegura “uma base sustentável” de vida mais alargada. Ironicamente, costuma dizer que o Ministério da Cultura ideal “seria aquele onde chegássemos de manhã com três poemas feitos na madrugada e em troca recebêssemos um voucher para três refeições”.

Paris é uma década de grande atividade experiencial, um período de intensa publicação de livros e em revistas. “Em todos os lados por onde estive, mantive a criação em poesia visual, artes experimentais e em tudo o que tinha a ver com escritas. Por outro ado, fazia trabalho de consultoria, investigação e lecionação na universidade”.

Regressou a Portugal em 2019, não sabe se definitivamente. Agora, diz que olha de forma apreensiva a situação do ensino superior em Portugal, pelo que optou por “outras vias” ligadas à investigação socioestética. “Gosto de fazer investigação e neste momento coordeno vários projetos. Mesmo quando são de natureza socioeconómica, introduzo elementos de cruzamento com os campos da arte e cultura.

Nos últimos seis anos tenho trabalhado sobre as escritas experimentais no mundo, dentro de um programa transdisciplinar que aborda e trata as criações posteriores à PO.EX. Poesia Experimental Portuguesa criada por Ana Hatherly e por E. M. de Melo e Castro” entre outros.

O seu interesse por esta criação literária específica começa em meados da década de 1970 e tem vindo a crescer e, “cada vez mais, a internacionalizar-se” em termos individuais e mais recentemente, nomeadamente através da Invencionarium – Coletivo de Criação, a associação que fundou e que organiza o Programa Évora Experimental-EV.EX., agora na sua 6.ª edição.

“Das questões socioecómicas desloquei a atenção para as questões de suporte financeiro das atividades artísticas, e depois para a problemática das relações entre a estética, a política e a economia. É este o objeto atualmente, a transdisciplinaridade e hibridismo no âmbito das escritas experimentais”, explica.

Diz-se fascinado pela criatividade que “emana do próprio processo de aparição e construção”. De acordo com Feliciano de Mira, “a abordagem da arte na atualidade é extraordinária, oferece possibilidade de conjugar diversos materiais de suporte, conhecimentos e várias formas de expressão. Portanto, a partir de um ponto desenhado podemos criar um texto, acrescentar uma pedra, dar cor a uma tela, fazer uma instalação quântica, juntar um vídeo e seguir o som que nos indica o caminho, tudo na mesma obra”.

Na verdade, confessa-se poliartista: “Através das escritas experimentais, também podemos desenvolver didáticas que participam em práticas educacionais e terapêuticas que libertam o corpo e dão luz à alma”.

Feliciano de Mira diz que há “uma componente rebelde” e visionária na criação poética experimental que passa por questionar a realidade em todos os momentos de modo a encontrar alternativas mais fraternas de vida em sociedade, sendo que a arte pode ajudar nesse sentido, nomeadamente a arte poética experimental. “Analisamos o contexto da sociedade e propomos alternativas invencionistas de criação estético-politica. Há muitas formas de assumir a resistência a alguns processos menos bons que se estão a praticar no mundo, em Portugal e no Alentejo”.

2 Responses

  1. Interessante saber mais do Feliciano de Mira que foi meu professor na Universidade Eduardo Mondlane. Bem hajas Professor… força e sucessos nos teus projectos

  2. A arte visual, experimental, textual de Feliciano de Mira é um laboratório sensível e crítico onde a realidade exposta por ele no texto é desmontada, questionada e (re)criada.
    Diante de tudo que o texto apresenta é visível a existência de “preocupações sociais e estéticas” que faz se necessário coexistir gerando assim um conhecimento riquíssimo e uma criação mais profunda.
    Feliciano de Mira traz na sua essência um grande “artista das estruturas sociais” e um “socioeconomista da linguagem”.

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