Festa do Avante!/50 anos: a bomba, o apagão e o «mar de gente»

Uma explosão deixou a primeira Festa do Avante!, em setembro de 1976, sem luz nas vésperas da abertura, mas o recinto da antiga Feira Internacional de Lisboa (FIL) encheu-se à hora prevista. Meio século depois, militantes que lá estiveram voltam no próximo fim de semana, agora na Quinta da Atalaia, no Seixal. A Festa faz 50 anos.

João Camilo tinha 29 anos, Luísa Ramos 28 e Daniel Branco 31 quando entraram na antiga FIL para os três dias de música, debates e convívio com que o PCP, saído há pouco de décadas de clandestinidade, mostrava publicamente a sua capacidade de mobilização.

Médico e responsável clínico de todas as edições, João Camilo situa o atentado na véspera do início do evento e estava no local quando a bomba rebentou. «Eu lembro-me perfeitamente, porque a FIL tremeu», conta. Havia centenas de militantes e amigos a construir a festa e, ao contrário do que se poderia imaginar, «ninguém fugiu, ninguém se alarmou». «As pessoas que podiam continuar a fazer alguma coisa, continuaram a fazer», relata.

O apagão durou cerca de meia hora, porque militantes do PCP que eram eletricistas e trabalhavam na EDP repararam rapidamente os estragos. As causas nunca foram conhecidas, mas João Camilo supõe que tenha sido um ato integrado na «ampla campanha de terrorismo da extrema-direita» protagonizada, à época, por movimentos como o Exército de Libertação de Portugal (ELP) e o Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP).

Luísa Ramos, grávida de oito meses e por isso afastada da construção do recinto, situa o episódio dois dias antes da inauguração. «Tinham colocado uma bomba na parte elétrica. Eu fiquei muito preocupada, porque não sabia. Deveria haver militantes a trabalhar no recinto e fiquei preocupada se teria sido alguém ferido», recorda. Destaca sobretudo a reação dos camaradas: «Não há bomba que nos faça desistir de continuar a trabalhar para que as coisas aconteçam da melhor maneira».

Daniel Branco, que viria a ser membro do Comité Central, deputado e presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira entre 1980 e 1997, diz que a explosão ocorreu três dias antes e provocou «um grande apagão».

A resposta rápida teve, para si, uma dimensão política: «Demonstrar que não seria por aquela via que conseguiam demolir» o partido. Do comício de encerramento, com Álvaro Cunhal, guarda o efeito de «força e capacidade»: o pavilhão cedo se revelou pequeno e o palco teve de ser montado no exterior, perante um «mar de gente» que se estendeu do parque de estacionamento da FIL até à avenida marginal.

Luísa Ramos esteve em todas as edições e, sobre a de 1976, diz que o evento «excedeu as expectativas» e que, de tantas pessoas que ali se deslocaram, «não cabia um grãozinho de nada» no recinto. A gravidez impediu-a de usufruir do programa, mas «estava tão barriguda que as pessoas deixavam passar à frente». Depois de anos de clandestinidade, parecia «impensável fazer uma coisa daquelas»: foi ao Avante! com «muita vontade de ver os militantes e os dirigentes do PCP que passaram anos nas prisões, conhecê-los pessoalmente».

Logo em 1977 começou a desempenhar a função que manteria durante décadas: acompanhar as delegações de partidos estrangeiros e os artistas internacionais. «Todos me passaram pelas mãos», afirma. Competia-lhe ir buscá-los ao aeroporto, levá-los ao hotel e gerir deslocações para fora do recinto — «resolver tudo o que era preciso a nível operacional».

Hospedeira de terra na TAP, acabou por acompanhar a evolução da geopolítica mundial através do apoio à chamada Cidade Internacional. «União Soviética, República Democrática Alemã, tudo aquilo que existiu e depois que acabou. Estavam cá todos», sublinha. Os soviéticos, em particular, «eram de morte»: «Não eram malcriados, não eram arrogantes, mas eram formalmente corretos», contrapondo essa atitude à de brasileiros e cubanos, com quem «era uma festa estar».

Havia o «cuidado de não nos armarmos em dirigentes». Se um delegado estrangeiro a questionava sobre a situação política portuguesa, desviava: «Aproveite essa pergunta para fazer no encontro que vai ter». O que mais surpreendia quem vinha de fora, diz, era perceber como é que um partido «que não estava no poder, não tinha grande influência eleitoral, não estava em nenhum Governo, organizava aquilo».

Agora reformada, vai à 50.ª edição como visitante. «Nunca consegui, ainda hoje, e hoje estou reformada, marcar férias, marcar saídas, marcar viagens ao fim de semana da festa. Impensável. Nem que me oferecessem».

Texto: Alentejo Ilustrado/Lusa | Fotografia: Miguel A. Lopes

7 Responses

  1. Na primeira festa do avante eu fiz segurança na porta principal, hoje com 85 anos quando posso vou , ou seja a saúde deixa, boa festa abraço tamanho do Mundo.

  2. Tive o PRIVILÉGIO de estar na PRIMEIRA FESTA DO AVANTE!!! ainda me lembro dos Italianos ÁREA uma banda do caraças, que me levou a comprar um vinil deles . NÃO HÁ FESTA COMO ESTA !!!!

  3. Festa do Avante, não há Festa como esta sempre tenho ido á nossa Festa mesmo quando vivia mais longe agora que vivo perto por ironia do destino infelizmente não posso ir, por causa da falta de saúde do meu Marido

  4. Estive lá! Uma hora antes da abertura, numa das entradas da antiga FIL debatia-me com um montão de saibro que era preciso retirar. Tinha 23 anos mas nenhuma experiência com aquele tipo de trabalhos. As mãos, agarradas ao cabo da pá, já sangravam e o saibro e areia continuavam a resistir. Apareceu-me ao pé um senhor mais de 50 anos (aos meus olhos um velhote) camisa e calças pretas que vendo o meu desalento reagiu. Tirou a camisa, pegou na pá e em menos de meia hora fez desaparecer a areia e saibro.
    O Senhor, que eu bem conhecia, chamava-se António Gervásio. Era o responsável pela minha adesão ao PCP. Um Alentejano, um dos nossos heróis.

    1. Era o meu saudoso tio. tambem lá estive na primeira a servir bifanas e vinho no pavilhão de alentejo.

  5. Das várias festas em que participei, ouve uma que me marcou. Alto da Ajuda. Um pouco antes da hora em que o Camarada Álvaro Cunhal era para intervir, caiu uma carga de água que se teve de criar um palco para que ele pudesse intervir. Era lama até aos joelhos.

  6. Lembro-me bem da 1ª Festa do Avante. Tinha 22 anos. Fiquei deslumbrada com a capacidade dos comunistas e seus amigos conseguirem levar Avante uma iniciativa desta natureza onde a cultura, o espetáculo, desporto, gastronomia nacional e internacional, convívio, amizade, alegria e solidariedade entre os povos, uma manifestação politico cultural inigualável. Os tempos avançam e a Festa sai sempre renovada, sempre a surpreender. O espetáculo de abertura – A Orquestra Sinfonietta de Lisboa com o Maestro Vasco Pereira de Azevedo – 9ª Sinfonia Beethoven – é um ponto alto e imperdível, para mim. Fico feliz por ver tantos jovens a apostarem na luta por um mundo melhor. Na verdade Não Há Festa Como Esta!

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