As Festas do Povo de Campo Maior, classificadas em 2021 pela Unesco como Património Imaterial da Humanidade, têm no centro histórico da vila o seu palco natural. É nesta zona que «a densidade de ruas inscritas é tradicionalmente maior» e é onde as comissões organizadoras procuram, em cada edição, atingir o pleno da ocupação de ruas e praças.
A expansão da vila para novos bairros e a deslocalização de famílias mais jovens que antes habitavam a zona histórica levaram a que a prática da decoração e enramação se estendesse também a estes territórios, «apesar das dificuldades acrescidas pela diferença de escala e perfil dos novos arruamentos», refere a ficha das Festas do Povo no Inventário Nacional do Património Imaterial.
Este processo, já consolidado, «ainda suscita dúvidas a alguns campomaiorenses», com opiniões divididas entre quem valoriza mais o direito à participação plena nas Festas e quem privilegia o efeito cénico sobre o visitante, prejudicado pelos vazios na decoração nas zonas onde a adesão dos moradores é naturalmente menor.
O processo de organização começa no início de cada ano, quando a Associação das Festas do Povo de Campo Maior — criada em 1994 — anuncia a intenção de realizar as Festas e solicita às ruas, através dos respetivos cabeças de rua, que se inscrevam. Havendo adesão suficiente, é anunciada a realização das Festas nesse ano, «dando início a um processo de montagem em que cada comissão de rua, sob a liderança do respetivo cabeça de rua, começa a preparar as decorações».
A comunidade organiza-se em comissões de rua, lideradas maioritariamente por mulheres, responsáveis pela conceção e execução do projeto de enramação. Definidos os participantes, elabora-se o projeto decorativo e o tema cromático, tratam-se as questões logísticas e definem-se os materiais, locais de trabalho e armazenamento necessários.
A Associação fornece a cada comissão o papel com as características pedidas — tipo, quantidade, cor e corte. A cada uma cabe depois construir todos os elementos decorativos, um trabalho que se prolonga por longos meses, normalmente em serões em casas ou armazéns, sob a direção do respetivo cabeça de rua.
É na noite que antecede as Festas que se procede à enramação: erguem-se colunas de madeira ligadas por arcos, de onde pendem cordas de teto com flores e folhagens de papel, formando os tetos; nas ruas mais antigas e estreitas usam-se ainda as franjas, papel recortado suspenso nas fachadas. «Toda a população sai à rua para ajudar ou assistir», revela-se então o tema e o espírito criativo de cada comissão, com temas que já incluíram os Descobrimentos ou a Liberdade de Expressão.
Além dos tetos, é nos canteiros e candeeiros que se concentra o maior investimento criativo, «pelo grau de dificuldade e esmero exigidos». É também nesta noite que costumam chegar amigos, familiares e forasteiros para ajudar. Terminadas as Festas, na última noite desmontam-se as estruturas e queimam-se as flores, regressando a vila à normalidade no dia seguinte.
A ficha de inscrição sublinha a tarefa central das mulheres campomaiorenses no fabrico das flores de papel de seda, «muitas vezes reunindo-se em grupo ao final do dia, entre cantares de saias e licores caseiros que acompanham os bolinhos para ajudar no trabalho». As crianças participam nas tarefas mais simples, enquanto os homens se dedicam sobretudo à construção das estruturas que sustentam as flores, «numa divisão que separa, em regra, o trabalho de maior robustez física do que exige destreza manual».
A enramação — descrita como «coreografia coletiva de erguer esta cenografia urbana» — mantém-se em segredo até à manhã do primeiro dia das Festas, altura em que a vila se transfigura para receber muitos milhares de visitantes. Durante cerca de nove dias, as ruas deixam de ser espaço de circulação para se tornarem espaço de convívio, com longas mesas onde passantes e visitantes são convidados a petiscar, a beber um copo e a participar no cantar e no bailar das saias, dançadas em roda, ou a assistir às arruadas dos grupos que percorrem as ruas engalanadas a cantar de improviso.
Fotografia: Nuno Veiga/Lusa/Arquivo










