Filme afegão filmado com telemóvel vence Festival Periferias

«Uma Raposa Sob Uma Lua Rosa» («A Fox Under a Pink Moon», no título original), de Soraya Akhalaghi e Mehrdad Oskouei, venceu o Prémio Tejo/Tajo Internacional - Reserva da Biosfera Transfronteiriça, principal distinção do 14.º Periferias - Festival Internacional de Cinema de Marvão e Valencia de Alcántara.

Com a atribuição do prémio, o júri quis reconhecer «a extraordinária autenticidade desta obra, a força do seu olhar cinematográfico e a sua capacidade de dar voz à realidade de muitas mulheres afegãs que continuam a enfrentar a discriminação, a violência e a perda de liberdades fundamentais».

Durante cinco anos, Soraya, «uma jovem artista afegã», registou com o telemóvel «a sua luta contra a violência, o exílio e as limitações impostas pela sua condição de mulher, transformando a arte numa ferramenta de sobrevivência, liberdade e afirmação pessoal», refere a organização.

Construído a partir dessas imagens, mas também de desenhos, esculturas e animação, o filme oferece «um testemunho profundamente humano sobre a dignidade, a coragem e o direito de cada pessoa a decidir o seu próprio destino».

Com apenas 16 anos, Soraya já cria «desenhos e esculturas impressionantes, tão belos quanto sombrios», descreve a sinopse do filme. Escultora e ilustradora afegã, tenta há cinco anos fugir do Irão para se juntar à mãe na Áustria. O autorretrato intercala cenas das tentativas de fuga com notícias políticas do Afeganistão e vídeos em que ela canta e dança «ou mostra seus hematomas». Casada com um homem violento, está «determinada a moldar seu próprio futuro».

Fazer arte, sublinha a mesma fonte, «não é um passatempo ocioso para Soraya»: exprime preocupações, alegrias e medos nos desenhos e nas esculturas que cria a partir de caixas de ovos embebidas ou de argila que encontra nas rotas de fuga. Nos desenhos repetem-se três figuras — uma raposa leal que a acompanha na viagem, uma lua rosa que a protege e um palhaço sempre a rir, personagem com o qual Soraya se identifica.

Mehrdad Oskouei dirigiu o filme inteiramente à distância. O realizador explica que a decisão vem de trás: nos últimos 19 anos, trabalhando com o Centro de Reabilitação, realizou quatro filmes sobre jovens delinquentes e assassinos.

«No meu primeiro filme senti que meus personagens desejavam um papel maior na construção da narrativa, e essa ideia permaneceu comigo até meu último filme, onde consegui alcançar esse resultado em algumas partes da obra», afirma. «Quando decidi fazer isso acontecer no meu filme mais recente, dispensei toda a minha equipe de filmagem no set

O método foi construído ao longo do processo. Após a primeira viagem de Soraya à Turquia, e retomadas as filmagens depois do seu regresso a Teerão, a protagonista inscreveu-se em aulas para aprender a filmar com telemóvel.

«Eu conversava com ela todas as noites sobre as cenas que ela havia filmado e as que planejava filmar, e dessa forma, conseguimos coordenar uma direção conjunta», descreve Oskouei. «Soraya, uma artista de 16 anos, estava em meio a muita destruição e sonhava com um futuro melhor para si mesma. Queremos que uma delas conte sua história por si mesma.»

Festival transfronteiriço empenhado nos direitos humanos, no ambiente e na arte e cultura, o Periferias reconhece na obra premiada, segundo a organização, «uma obra que encarna de forma exemplar os valores que inspiram o nosso projeto: a defesa da dignidade humana, a liberdade de criação, a igualdade e o poder transformador da cultura».

O troféu da 14.ª edição é da autoria do artista Juan Carlos Jiménez e é composto por dois ídolos-placa, «inspirados nas peças provenientes das antas da Raia, entre Espanha e Portugal».

A composição representa «a essência de antepassados que, muito antes da existência das fronteiras atuais, partilhavam o mesmo território, a mesma cultura e o mesmo espaço de vida», refere a organização. As duas figuras, unidas sobre uma mesma base de pedra, simbolizam «a união de dois povos irmãos, ligados há milhares de anos por uma história e um património comuns».

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