Para o ator e encenador, o filme é “uma constelação de memórias que transbordam amizade, lealdade, inocência”. “Dá conta do mais importante […], da vida que a gente deixou dentro do que fez”. E o que fez era o teatro, “uma procura da felicidade”, recorda Luis Miguel Cintra no início do documentário, sobre a génese da companhia que fundou com Jorge Silva Melo, em 1973. Para Solveig Nordlund, trata-se de “uma coisa bonita, de uma companhia como já não há”.
A realizadora conhece bem esse início e os anos que se seguiram, tanto quanto permitia a partilha do mesmo edifício, na Rua Tenente Raul Cascais, em Lisboa, pela Cornucópia e pela cooperativa de cinema Grupo Zero, que fundara com o realizador Alberto Seixas Santos em 1974.
“A ideia de fazer um documentário sobre o Teatro da Cornucópia surgiu realmente quando fecharam”, recorda a cineasta. “Eu sabia que havia este material documental sobre a companhia, nos arquivos da RTP, tantas tinham sido as peças gravadas para televisão”. Por isso, decidiu avançar com o projeto.
O documentário conta com narração de Luis Miguel Cintra e de Cristina Reis, figurinista e cenógrafa que permaneceu na companhia até ao seu encerramento.
Entre outubro de 1973, quando a Cornucópia se estreou no Teatro Laura Alves, em Lisboa, com “O Misantropo”, de Molière, e dezembro de 2016, quando encerrou portas no edifício onde hoje funciona o Teatro do Bairro Alto, foram levadas à cena mais de 120 criações, algumas em estreia mundial, em cerca de 5100 representações. Ao longo de mais de quatro décadas, a companhia apresentou uma média de três novos espetáculos por ano.
Ao longo do filme cruzam-se as memórias de Luis Miguel Cintra e de Cristina Reis com imagens de arquivo, incluindo excertos de entrevistas, reportagens e registos de numerosos espetáculos.
Logo na abertura surgem as portas giratórias que prendem os jovens Luis Miguel Cintra e Jorge Silva Melo na versão televisiva de “E Não Se Pode Exterminá-lo?”, de Karl Valentin. Será também com esta versão do texto e o seu diálogo final que o documentário se encerra: “A guerra é uma coisa perigosa, não é? Claro, é a coisa mais perigosa que há”.
Parca em palavras, Solveig Nordlund confessa ter ficado “fascinada por poder ver 40 anos” de vida durante o trabalho de visionamento do material de arquivo, com “as pessoas a envelhecerem quase à vista, mas mantendo sempre o seu trabalho de teatro”.
Foram muitas as pessoas que passaram pela Cornucópia, vindas de diferentes origens e com percursos diversos. Entre elas contam-se atrizes e atores como Isabel de Castro, Glicínia Quartin, Dalila Rocha, o veterano Augusto Figueiredo e o jovem Filipe La Féria, presentes nas primeiras produções.
A estes juntaram-se, ao longo dos anos, nomes como Orlando Costa, Zita Duarte, Lia Gama, Rogério Vieira, Ângelo Teixeira, Carmen Santos, Raquel Maria, Luísa Cruz e Luís Lima Barreto, bem como intérpretes de gerações mais recentes, como Ricardo Aibéo, Rita Durão, Rita Blanco, Gonçalo Waddington, Dinis Gomes, Duarte Guimarães e Beatriz Batarda.
Ao todo, centenas de nomes surgem no genérico final, que ocupa sete ecrãs e reúne grande parte do teatro português das últimas décadas. Para a realizadora, a Cornucópia constitui exemplo da “juventude que tomou conta de um teatro. […] Uma coisa que já não existe e que hoje seria impensável”.
“Memórias do Teatro da Cornucópia” é também um retrato da vida daqueles que construíram a companhia e criaram um espaço cénico singular: a primeira caixa negra existente em Portugal, concebida para ser transformada de acordo com as necessidades de cada espetáculo, como recorda Cristina Reis no filme.
No início do documentário, de costas para a câmara, numa varanda com um rio ao fundo, Luis Miguel Cintra regressa às origens e recorda como começou com “as coisas do teatro”, fazendo peças com marionetes “com os meninos do prédio onde vivia”, em pequenos teatros improvisados para os vizinhos. Mais tarde percebeu que o teatro ficara na sua vida como “um sítio em que a gente vivia de uma forma diferente, […] a criação de um tempo imaginário e fora da vida”.
Solveig Nordlund recupera imagens dessas origens, ainda antes da Cornucópia, com a montagem de “O Anfitrião”, de António José da Silva, em 1968, pelo Grupo de Teatro de Letras, com Jorge Silva Melo e Luis Miguel Cintra. Seguem-se as peças da companhia, entre as quais “O Misantropo”, “O Terror e a Miséria no III Reich”, de Bertolt Brecht, a primeira após o 25 de Abril, “Os Tambores na Noite”, do dramaturgo alemão, “A Ilha dos Escravos” e “A Herança”, de Marivaux, “Pequenos Burgueses”, de Gorki, e “Não se Paga, Não se Paga!”, de Dario Fo.
As imagens de espetáculos multiplicam-se ao longo do filme, entre memórias atuais e registos de época, revisitando o repertório da companhia: “O Labirinto de Creta”, de António José da Silva, “A Missão”, de Heiner Müller, “O Parque”, de Botho Strauss, “A Sonata dos Espectros”, de August Strindberg, “Três Irmãs”, de Tchekhov, “Auto da Feira” e “Comédia de Rubena”, de Gil Vicente, ou “O Público”, de García Lorca.
O percurso da Cornucópia inclui autores tão diversos como William Shakespeare, Samuel Beckett, Joe Orton, Raul Brandão, Peter Handke, Jean Genet, Goethe, Luigi Pirandello, Arthur Schnitzler, Friedrich Schiller, Gertrude Stein, Pierre Corneille, Beaumarchais, Pier Paolo Pasolini, Friedrich Hölderlin, Heinrich von Kleist, Von Horváth, Sophia de Mello Breyner Andresen, Sófocles, Aristófanes, Calderón de la Barca e Luís de Camões.
Também houve espaço para a ópera, com produções como “Façade”, de William Walton, “Jeanne d’Arc au Bûcher”, de Arthur Honegger, e “A História do Soldado”, de Igor Stravinsky, algumas em coprodução com o Teatro Nacional de São Carlos.
O documentário não ignora os contratempos: as dificuldades financeiras, a escassez de apoios, o esforço exigido para montar cada espetáculo e a saída de Jorge Silva Melo no final da década de 1970, momento que Luis Miguel Cintra reconhece ter marcado o fim da primeira fase da companhia.
Falar da Cornucópia é também falar do país que emerge das palavras de Luis Miguel Cintra: a ditadura, a censura e a liberdade criativa dos jovens atores, o impacto da realidade política e social e o papel do teatro independente no período posterior ao 25 de Abril.
Solveig Nordlund manteve sempre uma ligação próxima com Luis Miguel Cintra e Jorge Silva Melo desde o início da companhia. Entre 1974 e 1983, a Cornucópia e a produtora Grupo Zero partilharam o edifício do atual Teatro do Bairro Alto e colaboraram na adaptação cinematográfica de textos de Franz-Xaver Kroetz e Karl Valentin, que deram origem a um tríptico realizado por Nordlund: “Viagem para a Felicidade”, com Lia Gama, “Música para Si”, com Isabel de Castro, e “Novas Perspectivas”, com Dalila Rocha. Houve ainda a produção de “E não se pode exterminá-lo?”, para a RTP2, coassinada com Jorge Silva Melo.
“Estávamos muito misturados”, recorda a realizadora, sublinhando que inicialmente se pensaram “mais coisas, talvez mais intercâmbios, coproduções […], a ambição era ser mais geral”, lembrando também sessões de cinema que chegaram a decorrer no teatro.
O fim da Cornucópia, em 2016, surgiu como inevitável. “Era difícil prolongar aquela companhia. A Cristina [Reis] não tanto, mas Luis Miguel, já doente, não tinha físico para continuar o trabalho”, afirma a realizadora. “Memórias do Teatro da Cornucópia” termina com o desmantelamento da companhia, a retirada do seu acervo e o espaço vazio.
“A Cornucópia começou com uma festa de amigos e acabou com um funeral”, afirma Luis Miguel Cintra na sequência final do documentário. De costas para a câmara, virado para a paisagem, recorda: “Uma coisa que nos custou muito foi enterrar o que estava naquela sala, as memórias e os pedaços de vida que ali estavam. E eu tive a noção de que tinha perdido a minha vida toda ali, naquele sítio”.
Num depoimento escrito fornecido pela produtora Real Ficção, Luis Miguel Cintra escreve sobre Solveig Nordlund: “Foi sempre do cinema, assistiu de dentro a bocados das nossas vidas e foi testemunha do que se passou no princípio da vida do Teatro da Cornucópia”.
“Solveig […] é exemplarmente teimosa e afetiva”, acrescenta. “Ela, não sei como, conseguiu encontrar bocados de vida, pedaços de filmagens variadas, que mais que imagens transformou numa revelação: a vida que a gente deixou dentro do que fez, coincidindo afinal com memórias minhas e por certo dos outros com quem partilhei a vida”.
Questionada sobre a possibilidade de o documentário ter um subtítulo, Solveig Nordlund admite “memórias de três vidas”, numa alusão às três figuras centrais da companhia: Luis Miguel Cintra, Cristina Reis e Jorge Silva Melo.
Além do Cinema Ideal, onde se estreia no dia 26 às 18h45, com a presença de Cristina Reis, “Memórias do Teatro da Cornucópia” será também exibido em Coimbra, na Casa do Cinema, em Viseu, no Teatro Viriato, e na Ribeira Grande, nos Açores, no dia 27. No dia 30 haverá uma sessão especial no Cinema Trindade, no Porto, com a presença de Luis Miguel Cintra.
Texto: Alentejo Ilustrado/Lusa | Fotografia: D.R.












