Francisco Moita Flores, o apelo da raiz e a liberdade aprendida no Alentejo

A insaciável busca pelo conhecimento levou-o de Moura ainda cedo, mas Francisco Moita Flores trouxe a terra mãe para a sua vida na cidade grande, na voz doce e com o mesmo olhar que vê a extrema-direita a ser Governo um dia destes, um mal necessário - diz - para que entendamos o que andamos a fazer de errado. O Alentejo é o horizonte, e mesmo que o futuro próximo não seja optimista, o mesmo horizonte trará melhores dias. Carlos Leitão (texto e fotografia)

Francisco Moita Flores traz o sotaque de Moura desde que a deixou aos 18 anos para Lisboa o receber no curso de Biologia, já com a Polícia Judiciária no horizonte: “Estava contaminado pelos filmes de detetives, pelo meu pai e pelo meu professor de Português; queria ter as duas profissões, escrevi-o numa redação da 4.ª classe, e a professora deu-me um raspanete porque tinha sido o único a desejar ter duas profissões”.

A convicção concretizou-se, e hoje Moita Flores assume as saudades da idade que tinha quando ingressou na PJ, outro tempo de crimes e criminosos diferentes: “Não havia computadores nem bancos de dados, recolhíamos informação na rua com os informadores. O tráfico de droga não era significativo, mas havia muito mais violência. Eu vivi as FP 25 e FP 27, matava-se por dá cá aquela palha, havia muito roubo, quadrilhas de assalto à mão armada, tínhamos saído de uma intervenção do FMI, e isso foi uma ressaca terrível”.

Ávido de conhecimento, das paixões e inquietações que lhe vêm da meninice, há uma que me deixa curioso, a morte: “O cemitério é a forma como os vivos entendem a morte; os mortos estão escondidos, é interessante do ponto de vista da construção dos imaginários, das nossas atitudes para com a finitude. Cedo temos consciência do fim, mas ansiamos pela imortalidade. Nesta con- tradição reside a substância da natureza humana”.

Estamos então a falar de uma ilusão de controlo? “Toda a encenação da nossa vida está associada a essa contradição. Eu não fui à tua casa, não sei onde moras, mas tenho a certeza de que na casa de banho ou na mesinha de cabeceira estão os medicamentos para a dor de cabeça, de barriga, de costas. A doença é a ameaça da morte, e quando a percebemos, há comprimidos. Se for um pouco mais grave, vamos à farmácia, e se for mesmo grave, vamos para o hospital. Nós não queremos é morrer”.

Depois de sair da PJ, o departamento de ciências forenses da faculdade onde lecionava foi encarregado das exumações das Aldeia da Luz e da Estrela, aquando da construção da Barragem de Alqueva. “Foi duro, tínhamos a população à volta, estávamos a mexer nos seus mortos, nas memórias. Era um inferno, estavam 45 graus, e nós a desenterrarmos centenas de cadáveres malcheirosos. Dois dos meus colegas tiveram enfartes devido ao esgotamento e ao trauma que aquilo significou”.

Mas as paixões de Moita Flores são de vida, e a escrita foi primogénita, bem como o seu apego à História, que o levou a argumentos como “A Ferreirinha”, “A Raia dos Medos” ou “João Semana”. “Ballet Rose”, o escândalo de prostituição e pedofilia que envolveu vários elementos do regime salazarista, seria possível nos dias de hoje? “São sempre muito discretos, vivem em pequenos círculos. Quem deu força ao Ballet Rose foi a censura, e porque Mário Soares e o Urbano Tavares Rodrigues (um escritor da minha terra) falaram a jornais estrangeiros. Mário Soares foi desterrado, Urbano foi preso. Uma série de mulheres foi condenada e alguns homens tiveram penas simbólicas. É sempre possível”.

A independência política de Moita Flores é defendida como um propósito de vida: “É uma fatura pesada, cara. A comunidade impele-nos para a dependência, para a igrejinha, para o grupo, para sermos do Benfica, logo contra o Sporting”. Há que contrariar, mas é preciso consciência serena ao deitar e ao levantar: “A minha verdade é um pedaço da verdade que está repartida por um sem número de pessoas, é isto que determina a nossa independência, olhar para o outro com curiosidade e compreensão, e não com contradição. Vale a pena, dormimos melhor na nossa cama”.

O problema é outro, e vem de longe: “A perversão do sebastianismo na política. O próximo é sempre D. Sebastião. Agora é o Montenegro, mas cada um que lá chega quer ser visto com a imortalidade do cavaleiro que há de chegar no nevoeiro. Nenhum o é, são mais fracos do que nós, precisam de aparatos mais poderosos para se afirmarem”.

Não podemos então estranhar a realidade política do país em que vivemos que, apesar de tudo, não assusta Moita Flores: “Antes era a esquerda que organizava o protesto, agora é a extrema-direita, mas fá-lo zangada, misturando mentiras que parecem verdades. É preciso irem ao poder para depois caírem. E vão cair, redondos. O que têm andado a construir é o espetáculo do insuportável, mas as pessoas gostam, toca na pele”.

Moita Flores é inequívoco: “A pior coisa que pode acontecer ao Chega é chegar ao Governo. Ventura vai perceber que a sociedade tem travões que não permitem a loucura desmesurada, a ideia de que ‘comigo isto acabou!’. Não há nada que acabe por chegar ao poder. Ele terá de reverter todos esses discursos, e quando começar, começa a desilusão. Quanto mais cedo o Chega for ao poder, melhor para o país. É um risco que temos de viver, e vamos vivê-lo”.

Quando falamos de Alentejo, exige-se ainda mais discernimento: “A realidade da imigração no Alentejo é a gente a deixar-se contaminar pelo discurso da extrema-direita. Ainda bem que os imigrantes cá estão porque os nossos saldos fisiológicos são negativos; são mais os que morrem do que os que nascem, e se não conseguimos com os naturais, que seja com os não naturais”.

Ainda assim, a terra bendita tem o tempo e o chamamento que não deciframos: “É o apelo da raiz. As minhas primeiras memórias são da minha terra, o meu colo foi o colo e o ventre da minha mãe. É uma presentificação de um passado que não volta a existir, uma saudade que está incrustada de ternura e de afeição, que nos leva a um universo muito maior do que o vínculo biológico, é antropológico. Este apelo telúrico transcende, ins- creve-se nos nossos afetos mais profundos, sem vedações e sem muros, só o infinito da planície. Os alentejanos aprendem a liberdade com maior propriedade”.

Talvez por isso um dia bem passado no Alentejo lhe seja tão fácil definir: “É levantar-me, tomar o pequeno-almoço no alpendre; é ir almoçar um petisco alentejano e de tarde ir ao café dar dois dedos de conversa. Regressar a casa, voltar a estudar, a ler”. Francisco é bom garfo e bom cozinheiro. O que escolheria então para apresentar o Alentejo a convidados desconhecedores da região? “Borrego assado, migas com entrecosto e sopa de cação. Vinho alentejano. Tinto e branco”. E muito bem.

É um homem atento, não lhe é difícil antever o futuro. Desencanta-o, mesmo sabendo que a bonança um dia virá: “A classe política aposta nos círculos eleitorais que têm mais deputados, é feita a partir do umbigo e não da cabeça; não há sentido de nação, só egoísmo em assegurar o poder”.

Mas há potencial: “Rui Nabeiro é exemplo; a Delta é a centelha de luz no Alentejo. No entanto, ao vermos o Alqueva, percebemos a decrepitude. A Aldeia da Estrela tinha cerca de 200 pessoas quando a barragem foi construída, hoje tem 30. Apostaram na oliveira e em algum regadio, o resto é tudo muito esboroado. Vinte anos depois, as forças de bloqueio são as que resultam da indiferença. O que interessa à CCDR e a todos esses organismos intermédios é conservar o poder, não é porem-se em risco fugindo à rota da normalidade”.

Passaram 50 anos do concurso de poesia que lhe deu o prémio para a entrada do Fiat 600. Recorda-o sorrindo e com o olhar cândido apontando ao futuro dos 72 anos: “A minha terra emagrece, mas tenho-a sempre no horizonte. Continuam as tascas e os sítios onde regresso à orgia do passado. O Alentejo é muito especial”.

4 Responses

  1. O nome Francisco Moita Flores é-me conhecido há muito tempo. (o nome) Embora de lugares diferentes, somos ambos do mesmo País. Sim. O Alentejo é um PAÍS. Já o escrevi, e expliquei, nas redes sociais. Conheço, um pouco, a LINDA Cidade de MOURA. Passei, e conheci a ex-Aldeia da LUZ. Passei pela actual Aldeia da Luz, que não visito há muito. Não me senti muito satisfeito, mas enfim. Li este artigo 2x. Entendi perfeitamente quando se escreve que “o problema é outro e vem de longe.” Digo: de muito longe, mesmo. Enquanto, o Sr. F.M.F. escreve que na linda Moura continuam as tascas, na minha Aldeia está tudo como eu. Em fim de vida! Sinais dos tempos.

  2. Tenho seguido os escritos deste alentejano de “ boa cêpa” como é usual distinguir aqueles que se destacam pela nobreza de alma! O M F é um deles ! No Alentejo nem só o horizonte nos desafia , mas as suas gentes são demasiado gigantes na comunicação dessas terras despidas , procurando nos desconhecidos agigantar os seus anseios! Não se revêm naqueles que ignoram os poetas que não ousaram aprender na escola , mas na vida , na asperesa das suas mãos que abraçam sem medos, no canto sentido mesmo qdo lhes apetece chorar ! É a grandeza de alma de quem faz sua uma região!

  3. Sou alentejana de raiz, de Beja, mas também vim para Lisboa há anos, mas o meu horizonte continua a ser o meu castelo e a minha querida cidade. Amo-a tanto ou mais de quando a deixei. Nada me traz tamanha felicidade quando a visito. Os alentejanos são todos assim (amorudos) como se dizia. E o cante é a nossa oração.

  4. Que texto maravilhoso.O meu querido Amigo Moita Flores! Estudámos juntos no Liceu de Beja, dois alentejanos vizinhos, ele de Moura e eu de Serpa. Já nesse tempo demonstrava ser uma pessoa extraordinária e continua a demonstrar, a sua escrita é maravilhosa! Nas Feiras dos Livros , lá estamos nós e estaremos até que a Vida nos permita.

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