“Foi só em outubro de 1944 que nos encontrámos”. Ele, Galopim de Carvalho, com 13 anos. Ela, Maria Isabel Fialho, ainda com 12. Completaria os 13 alguns dias depois, a 19 de novembro. Estudavam ambos no Liceu de Évora. “Era o nosso 2.º ano e ficámos juntos na sala 2. Foi aí que me dei conta da colega simpática, boa camarada, sempre risonha e muito boa aluna, respeitada pelos professores e por todos nós, os seus colegas”, escreve António Galopim de Carvalho, em “A Professora”, onde reúne um conjunto de memórias sobre a vida a dois.
“Fomos colegas e amigos, na primeira adolescência, namorados (no sentido que então se dava à palavra, ou seja, conversados, como se dizia) na segunda e casados, já bem adultos, aos 26 anos, já lá vão 67”, refere o autor, numa nota prévia onde enquadra a obra: “Neste relato do essencial do que tem sido a sua vida, tentei reduzir, ao mínimo, a minha participação, mas não foi fácil, tal a aproximação e dependência que ela própria concretizou”.
Sim, em boa verdade, como escreve no prefácio António Sampaio da Nóvoa, reitor honorário da Universidade de Lisboa e ex-candidato à Presidência da República, “A Professora” é, em boa medida, “uma história de amor”, relatos de um caminho feito a dois, “contados com o talento e a ternura de um homem extraordinário”, mas não se fica por aí. É igualmente um testemunho sobre a sociedade e as vivências familiares na segunda metade do século XX.
“O mais impressionante neste livro” – prossegue Sampaio da Nóvoa – “é a forma como nas histórias singulares de Isabel e de António se compreende a história de todo um país que conheceu, até 1974, um período de grande atraso e repressão – uma repressão que, como se vê em tantas descrições, era uma espécie de contenção, de inibição, de autocensura”.
Nesta medida, trata-se igualmente de um exercício que permite fixar a memória sobre “as regras, os costumes, a repressão, as impossibilidades criadas por um regime ditatorial e por um autoritarismo que estava dentro da sociedade”, feito em paralelo com “as resistências e as desobediências, as fugas possíveis, os caminhos não previstos, dentro e fora do país”.
Nessa “primeira adolescência” referida por Galopim, que gostava mais “da cidade e de observar muito do que lá se fazia, em especial, nas oficinas” do que do ritmo das aulas, lembra o autor “o terceiro e último período” do final do Liceu: “Estudei como nunca tinha estudado, indo com grande frequência a casa da Isabel para, consultando os seus impecáveis cadernos diários, me manter a par das matérias dadas e, sempre que preciso, tirar dúvidas”.
O relato é admirável: “Na casa de jantar, no canto esquerdo, à entrada havia uma camilha, tipo de mesa de tampo redondo, com uma saia que escondia uma braseira de grande conforto nos meses frios de inverno. Foi nessa mesa que passamos horas a estudar juntos ou, melhor, a estudar auxiliado por ela”.
O esforço teve compensação, não apenas escolar. Frequentava o rapaz o 6.º ano do Liceu, e Isabel o 1.º ano do Magistério Primário, eis que os dois se encontravam espaçadamente, ainda que de forma mais frequente e, digamos, apetecida. “Nem eu nem a Isabel sabemos quando começámos o namoro. De crianças e adolescentes, colegas de Liceu e amigos, passamos, gradualmente e sem darmos por isso, a namorados, no sentido que a palavra tinha nesse tempo. Um dia, talvez, ao dar-lhe o habitual beijo na face, devo ter procurado os lábios dela, ousadia que ela, em cumplicidade, terá aceitado. Daí em diante, fomos como todos os namorados da nossa geração”, escreve Galopim de Carvalho.
Quando toda a família passou a ter conhecimento, passou o rapaz a frequentar aos serões a casa de Isabel, “na sala dita de jantar, a mesma onde as mulhe- res conviviam, cosendo, tricotando, lendo. A mesa onde os sentávamos para namorar ou, melhor dizendo, para conversar, era a mesma em que, anos antes, como aluno externo, contei com a sua ajuda, na preparação dos exames dos então 3.º e 5.º anos do Liceu”.
Concluídos os estudos, Isabel inicia a sua carreira como professora, na aldeia das Ilhas, concelho de Arraiolos. No ano seguinte é colocada em Santiago do Escoural (Montemor-o-Novo), depois na Vendinha, onde permaneceu durante quatro anos. “Era, nos anos de 1950, uma aldeia em que conviviam de igual para igual, alguns ‘ricos’ e pobres amarrados às fainas agrícolas, sempre eventuais e precárias. Os dias sem trabalho somavam-se ao longo dos meses, e as contas, no livro de fiados, na venda do Ti Zé Calado, cresciam, na esperança solidária de que a monda, a ceifa, a apanha da azeitona ou a despela saldassem ou, pelo menos, reduzissem os atrasados”.
A venda, é o autor quem o escreve, ao fim da tarde, ao serão e ao domingo era “local de encontro de homens, para conviverem, comendo, bebendo e cantando. Sardinhas fritas, linguiças e farinheiras assadas num prato com aguardente, queijo e muito pão, comido à navalha, faziam lastro ao branco e ao tinto, segundo o gosto de cada um”.
Chegados a 1956, aos 25 anos, Isabel decide inscrever-se num curso de especialização para formação de professores do “ensino especial”, a funcionar em Lisboa. “Mas ela vai, assim, solteira, para Lisboa, com o namorado lá?” – questionou uma tia, Julieta de seu nome. “Era preciso calar as bocas do mundo e a via para dar resposta a esta saída dela para Lisboa, era o pai do namorado pedir a mão da noiva”. Assim sucedeu. “O meu futuro sogro, na continuação do seu papel, deu o sim ao meu pai. Seguiram-se os abraços e os beijos de congratulação e, no dia seguinte, o Notícias d’Évora dava conhecimento público do acontecimento”.
Seguiu então a noiva para Lisboa, calando “eventuais bocas maledicentes”. Protegida na sua honra, rumou à capital. “Fui esperá-la no Cais Fluvial do Terreiro do Paço e, aí, sem olhos vigilantes que conspurcavam a nossa intimidade, demos largas à nossa felicidade”.

“A Professora”
A.M. Galopim de Carvalho
Âncora Editora, 219 página
Preço: 15,00 euros












