Literatura – Gonçalo M. Tavares e Javier Cercas, Évora em dois livros

“O Fim dos Estados Unidos da América - Epopeia” e “O Louco de Deus no Fim do Mundo” lidos por Pedro Miranda*

Gonçalo M. Tavares vai apresentar o seu último livro, “O Fim dos Estados Unidos da América – Epopeia” na próxima segunda-feira, dia 19 janeiro às 18h00, na livraria Fonte de Letras, em Évora. A apresentação será feita por António Guerreiro e Régis Salado.

Este livro não é apenas um romance; é uma obra monumental de mais de 900 páginas, apresentada como uma “tragédia greco-americana” que serve de sucessora espiritual a “Uma Viagem à Índia”.

O Enredo: Um apocalipse satírico

A história começa com a entrada de uma peste enigmática nos EUA, que serve de catalisador para o colapso total. O país fragmenta-se e mergulha numa segunda guerra civil, onde a política é levada ao extremo do absurdo:

– Ted Trash: Um extremista de direita (o nome já diz tudo).

– Left Wing: O seu homólogo no extremismo de esquerda.

– Bloom: O herói da epopeia, que atravessa o caos tentando salvar o país enquanto mantém na cabeça a imagem de uma mulher mexicana, La Rosa.

Temas Fortes e Ironia

O livro é uma sátira feroz à decadência do império americano, explorando conceitos como:

– Empatia tóxica: A ideia (diabólica no livro) de que ser empático é prejudicial para a economia.

– Divisão biológica: A certa altura, a separação entre ricos e pobres torna-se tão extrema que as duas classes deixam de procriar entre si, tornando-se espécies humanas diferentes.

– A “Linha Fantasma”: A ideia de que as feridas da primeira guerra civil americana nunca sararam e continuam a moldar o presente.

Enquanto Évora discute se o lixo na Rua da República é um problema de gestão ou de metafísica, Gonçalo M. Tavares lança uma epopeia onde o fim do mundo começa com uma peste e acaba em sátira. Talvez a ‘peste’ de Évora seja apenas o excesso de relatórios e a falta de vassouras, mas a distopia de Tavares parece, nalguns dias de calor no Alentejo, perigosamente próxima da realidade.

Javier Cercas: a literatura como consciência inquieta

Javier Cercas ocupa um lugar singular na literatura espanhola contemporânea. Não é apenas romancista, nem apenas ensaísta, nem historiador ocasional: é, acima de tudo, um escritor da dúvida, alguém que transforma a literatura num método de investigação moral. A sua obra nasce da desconfiança perante relatos fechados, verdades definitivas e memórias confortáveis.

Desde “Soldados de Salamina”, Cercas explora a fronteira instável entre ficção e realidade, fazendo do romance uma forma de pesquisa sobre o passado. A História, para ele, não é um arquivo fechado, mas um campo minado de silêncios, versões concorrentes e responsabilidades morais. O escritor não pretende resolvê-la, mas interrogá-la — e, ao fazê-lo, interroga-se a si próprio.

A guerra civil espanhola e o franquismo surgem como obsessões recorrentes, não por fidelidade ideológica, mas por constituírem um trauma ainda vivo. Cercas rejeita tanto o esquecimento como a mitificação: prefere a zona cinzenta, o território onde a memória falha e a ética se torna problemática. A sua literatura insiste em perguntar quem fomos e até que ponto continuamos a ser cúmplices do que herdámos.

É neste percurso que “O Louco de Deus no Fim do Mundo” introduz uma inflexão reveladora. Aqui, Cercas — ateu declarado; cético convicto — aceita acompanhar o Papa Francisco numa viagem à Mongólia, um dos confins simbólicos da fé cristã. O livro não é uma conversão, nem um ajuste de contas com a religião, mas uma investigação radical sobre a crença, o sentido e a necessidade humana de transcendência.

O louco de Deus do título não é apenas o Papa, nem os missionários que persistem em terras improváveis: é também o próprio escritor, que se expõe ao risco de perguntar seriamente por algo em que não acredita. Cercas aplica à fé o mesmo método que aplicou à História: aproxima-se, escuta, duvida, desmonta, reconhece os limites da razão — sem jamais abdicar dela.

Tal como nos seus livros anteriores, o heroísmo moral reaparece, agora sob outra forma. Não já o gesto político ou histórico, mas a persistência ética de quem acredita, cuida e permanece. Cercas não idealiza a religião, mas reconhece nela uma força narrativa e moral que a modernidade laica não conseguiu substituir inteiramente.

Do ponto de vista estilístico, mantém-se a sua escrita clara e rigorosa, quase jornalística, atravessada por uma tensão reflexiva constante. O narrador assume a ignorância, expõe as falhas do próprio olhar e transforma a hesitação em método. Em “O Louco de Deus no Fim do Mundo”, essa honestidade atinge um ponto extremo: o autor admite que talvez haja perguntas às quais a literatura não sabe responder — mas que ainda assim vale a pena formular.

Este é um dos livros mais singulares de Javier Cercas, precisamente porque desloca o seu método habitual — aplicado à História, à política e à memória coletiva — para um território aparentemente incompatível com o seu ceticismo: a fé religiosa. O livro nasce de um paradoxo assumido desde o início: um escritor ateu, racionalista e laico aceita acompanhar o Papa Francisco numa viagem à Mongólia, um dos lugares mais periféricos do catolicismo mundial. Essa contradição não é um obstáculo; é o motor do livro.

1. Género híbrido e dispositivo narrativo

Tal como em outras obras de Cercas, o livro resiste a classificações simples. Não é reportagem, nem ensaio teológico, nem romance tradicional. Trata-se de um relato ensaístico-narrativo, em que o narrador (identificado com o autor) se move entre a observação direta, a reflexão filosófica e a análise cultural. O método é o da investigação: Cercas aproxima-se do objeto — a Igreja, o Papa, a fé — sem abdicar da distância crítica.

A viagem funciona como estrutura externa, mas o verdadeiro percurso é interior. A Mongólia, espaço marginal e quase simbólico, torna-se metáfora do “fim do mundo”: um lugar onde a fé sobrevive sem poder, sem números, sem centralidade.

2. O título e a figura do “louco”

O título remete para uma longa tradição cultural e religiosa: o “louco de Deus” como figura de escândalo, alguém que vive segundo uma lógica incompreensível para o mundo. No livro, essa loucura não é ridicularizada, mas interrogada. O Papa Francisco surge como personagem central não pela autoridade institucional, mas pela sua insistência numa Igreja pobre, periférica e ética.

No entanto, o título contém uma ambiguidade essencial: o “louco” pode ser também o próprio narrador. Ao aceitar levar a sério a fé — mesmo sem acreditar — Cercas expõe-se ao risco intelectual de questionar os limites do seu racionalismo. A loucura, aqui, é ousar perguntar sem ironia.

3. Fé, dúvida e racionalidade

O eixo central do livro é o confronto entre fé e razão, mas Cercas recusa o conflito simplista. Não procura provar nem refutar a existência de Deus. O seu interesse está na função humana da crença: por que motivo milhões de pessoas continuam a acreditar? O que encontram na fé que a modernidade secular não conseguiu oferecer?

O autor reconhece que a razão explica muito, mas talvez não tudo. A fé aparece não como verdade factual, mas como narrativa de sentido, como resposta ao sofrimento, à morte e à injustiça. Cercas mantém-se ateu, mas o seu ateísmo torna-se mais complexo, mais consciente das suas próprias limitações.

4. Ética e testemunho

Um dos aspetos mais relevantes do livro é a atenção ao exemplo moral. Cercas interessa-se menos pelos dogmas do que pelas práticas: missionários anónimos, comunidades mínimas, gestos de cuidado e persistência. Tal como nos seus livros sobre a Guerra Civil, o autor volta a perguntar se o verdadeiro heroísmo não reside em actos discretos, repetidos, quase invisíveis.

A Igreja que surge neste livro não é triunfante nem poderosa; é frágil, minoritária e, por isso mesmo, eticamente significativa.

5. Estilo e posição do narrador

O estilo é sóbrio, claro, ensaístico, marcado por uma constante autorreflexão. O narrador não se coloca acima do objeto de análise; pelo contrário, expõe as suas resistências, preconceitos e incompreensões. Esta honestidade intelectual impede o livro de se tornar apologético ou panfletário.

Cercas não se converte, mas também não ridiculariza. O livro termina sem respostas definitivas, fiel à ética da dúvida que atravessa toda a sua obra.

6. Significado no conjunto da obra de Cercas

“O Louco de Deus no Fim do Mundo” pode ser lido como um prolongamento natural do projeto literário de Javier Cercas. Se antes investigava a História e a política, agora investiga Deus como problema narrativo e humano. 

A pergunta mantém-se a mesma: Onde reside a dignidade humana? O que dá sentido à vida? Que histórias escolhemos acreditar?

Mais do que um livro sobre religião, é um livro sobre os limites da razão, a necessidade de sentido e a coragem de duvidar sem cinismo.

Conclusão

Este é um livro profundamente contemporâneo, porque recusa tanto o fanatismo religioso como o desprezo arrogante pela fé. Cercas propõe uma posição rara: escutar aquilo em que não se acredita. Num mundo polarizado, essa escuta atenta torna-se um gesto ético.

“O Louco de Deus no Fim do Mundo” não oferece certezas, mas algo talvez mais valioso: uma forma honesta de pensar a fé sem fé — e, por isso mesmo, de pensar melhor.

No conjunto da sua obra, Javier Cercas constrói uma literatura da lucidez inquieta. Quer fale de guerra, de impostura, de política ou de Deus, a sua escrita recusa respostas fáceis. Ler Cercas é aceitar o desconforto da complexidade e reconhecer que pensar — seja sobre a História, seja sobre a fé — implica sempre duvidar.

Num tempo saturado de certezas rápidas, a sua literatura insiste numa ideia simples e exigente: a dúvida não é fraqueza; é uma forma de honestidade intelectual e moral.

Javier Cercas liga a música à literatura, Bob Dylan, Johann Sebastian Bach fazem parte do seu imaginário de escrita e um bom convite para a leitura.

Temos de burilar as periferias emocionais e confecionais.  Humildade, todos, todos, todos.

Epílogo: Entre a epopeia do fim e a humildade da dúvida

Enquanto o Executivo municipal e a oposição continuam a esgrimir argumentos sobre quem deixou o quê em que gaveta, a realidade literária invade a cidade para nos lembrar que o colapso, quando vem, não escolhe partidos. 

No dia 19 de janeiro, pelas 18h00, a livraria Fonte de Letras torna-se o epicentro de uma discussão que coloca o nosso “marcar passo” em perspetiva global. Receber Gonçalo M. Tavares para apresentar “O Fim dos Estados Unidos da América – Epopeia” é uma ironia deliciosa: num lugar onde um buraco na estrada demora décadas a ser tapado, vamos discutir uma epopeia de 900 páginas sobre o fim fulminante de um império. 

Gonçalo M. Tavares traz-nos a “peste” e o absurdo político; nós, por cá, temos a nossa própria peste de relatórios e uma guerra civil de baixa intensidade travada a golpe de comunicados. Talvez o personagem Ted Trash se sentisse em casa na nossa higiene urbana, ou talvez o herói Bloom pudesse dar umas luzes sobre como salvar algo que parece condenado à paralisia.

Mas se Tavares nos confronta com o estrondo do apocalipse, a obra de Javier Cercas oferece-nos o contraponto necessário: o silêncio desconfortável da dúvida. Em “O Louco de Deus no Fim do Mundo”, o escritor espanhol faz o impensável ao acompanhar o Papa até à Mongólia para investigar a fé como resistência moral. É uma lição que assenta que nem uma luva ao nosso cenário local.

Enquanto os protagonistas da política eborense se entrincheiram em certezas absolutas, Cercas recorda-nos que a literatura serve para “burilar as periferias emocionais”. O seu método é o oposto do que vemos nas reuniões de Câmara: em vez de arrogância ideológica, ele propõe a escuta atenta e o reconhecimento da própria ignorância.

Talvez Évora precise menos de “visionários” de powerpoint e mais deste tipo de “loucura” — a de quem aceita viajar até aos confins do sentido para descobrir que a dignidade humana reside na humildade e na persistência ética. 

Entre o lixo acumulado e os sonhos de 2027, resta-nos o convite de Cercas e Tavares: o de pensar a realidade sem o cinismo das cores partidárias. 

Créditos fotográficos. Fotografia de Gonçalo M. Tavares: Estela Silva/Lusa/Arquivo – Fotografia de Javier Cercas: Paolo Aguilar/EPA/Lusa/Arquivo

* O autor é professor.

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