“É um dia muito triste, no geral, para a Cultura e para a Literatura”, afirmou Gonçalo M. Tavares, descrevendo António Lobo Antunes como “um escritor absolutamente importante, absolutamente central, que desde os primeiros livros até aos últimos teve sempre na linguagem — numa espécie de vertigem da linguagem — o seu centro”.
Para o autor, António Lobo Antunes é “um caso extraordinário de alguém que criou uma forma de a língua se exprimir”, recorrendo a repetições, à fala popular, ao ‘deslarga-me’, à conversa de café e a tiques de linguagem que retransformou “num conjunto de vozes infinitas de grande literatura”.
Além disso, considera que Lobo Antunes “deve ser um dos autores que mais influenciou outros autores”. “Ele falava de se ler um livro quase como se apanhasse uma gripe, uma doença. Eu acho que muitos escritores, muitos leitores, apanharam o vírus, o seu vírus benigno, o seu vírus bom, da linguagem”, afirmou, defendendo que há “inúmeros escritores, de diferentes gerações, em que se percebe que leram António Lobo Antunes”.
Além de se recordar de ter lido em jovem livros como “Memória de Elefante” e “Os Cus de Judas” e do impacto que essas obras tiveram em si, Gonçalo M. Tavares identifica várias fases na obra de Lobo Antunes, mas considera que “há duas muito essenciais”: a das primeiras obras, que o impactaram “muitíssimo, até porque foram as primeiras”, e a das mais recentes.
“Estes últimos livros são livros em que ele assume que a linguagem é mesmo o centro daquilo a que podemos chamar romance. Já não está interessado na história, mas numa espécie de encantamento da linguagem. E tem livros nesta fase final que acho extraordinários a esse nível”, afirmou.
Gonçalo M. Tavares admira também em Lobo Antunes uma obsessão, “que os grandes escritores têm”, com a escrita. “Há uma ideia de que escrever um livro é uma brincadeira, uma espécie de passatempo. Mas uma pessoa começa a escrever aos 20, aos 30, e depois continua aos 40, aos 50 e até aos 80. Certamente ele teve uma quantidade de convites extraordinários para ir para administrações, para cargos de grande poder, e o que disse na sua prática foi: ‘eu quero escrever, preciso de escrever’. E eu admiro muito isso, essa obsessão boa. Obsessão por escrever até ao fim”, explicou.
O escritor destacou ainda a importância das crónicas, “que António Lobo Antunes algumas vezes desvalorizava publicamente”, considerando que há textos “absolutamente incríveis”, entre “as melhores crónicas escritas em língua portuguesa”, com “uma densidade e uma intensidade afetiva absolutamente marcantes”.
Além de recordar “um dos grandes nomes da literatura”, Gonçalo M. Tavares evocou também “uma pessoa que foi, em diferentes momentos, muito generosa”. “Tenho essa experiência prática da generosidade dele e é bom lembrar isso, porque às vezes há uma imagem pública do António Lobo Antunes que não corresponde a pequenos gestos que ele tinha, mais longe dos holofotes”, disse.
“Em termos literários e humanos é uma perda grande”, concluiu.
Texto: Alentejo Ilustrado/Lusa | Fotografia: Miguel Figueiredo Lopes/Presidência da República












