Há 63 anos sobre rodas, biblioteca de Redondo leva livros e conversa

Há 63 anos que a biblioteca itinerante de Redondo circula sem interrupções pelas aldeias do concelho, primeiro sob a alçada da Fundação Calouste Gulbenkian e, desde 2000, por iniciativa do município.

Sérgio Major/Lusa (texto) e Nuno Veiga/Lusa (fotografia)

A chegada às aldeias do concelho de Redondo da biblioteca itinerante, «herdada» de um projeto da Fundação Calouste Gulbenkian, já não arrasta, como outrora, uma «multidão». Agora, são sobretudo os moradores mais velhos que a procuram.

Em Santa Suzana, a pouco mais de 10 quilómetros da sede do concelho, o bibliotecário António Bento Ramires estaciona a carrinha da biblioteca itinerante junto ao café de Maria Eugénia Ramalhosa para lhe ir entregar dois livros.

«Agora, já há pouca gente, mas dantes corriam todos, quando o viam, para ler os livros», recorda esta mulher, com 93 anos, aludindo ao tempo em que António Bento Ramires «conduzia» a biblioteca itinerante da Gulbenkian em Redondo.

Atrás do balcão do café, onde ainda serve os clientes e até faz a entrega do correio à população da aldeia, Maria Eugénia conta que os dois livros que acaba de receber são para a sua filha ler, mas admite dar-lhes uma «vista de olhos»: «Eu também leio».

Numa outra paragem nesta aldeia, Joaquim Cortes, de 80 anos, fica-se pelas «gordas» dos jornais que a biblioteca também disponibiliza, porque a vista «já não conduz» para ler as letras pequenas dos livros, e «troca dois dedos» de conversa sobre as notícias.

Com estantes carregadas de livros, a biblioteca itinerante percorre semanalmente os «quatro cantos» do concelho, com dias específicos para cada povoação, e passa por escolas e lares, disponibilizando obras de vários géneros e outros serviços.

No Freixo, a viver sozinho num monte perto da aldeia, Miguel Caliço, de 89 anos, está habituado a ter poucas visitas e ganha um sorriso sempre que vê a carrinha da biblioteca chegar à sua porta. Mesmo que não fique com um livro, sempre dá umas «lérias».

«Os velhos, a maior parte deles, não sabem ler e já somos poucos e os novos ligam lá à biblioteca… Acho que não», desabafa o idoso, enquanto mostra, com orgulho, um caderno com décimas que escreveu, ainda que nunca tenha frequentado a escola.

Desta vez, a carrinha também traz Gonçalo Vidigal, do projeto do município «Sons da vida, ecos da memória», que pretende preservar o património sonoro do concelho, para gravar Miguel Caliço a dizer algumas das suas décimas.

Esta biblioteca itinerante continua «sobre rodas» de forma ininterrupta neste concelho alentejano há 63 anos, primeiro integrada no projeto da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) e, desde 2000, por iniciativa do município.

«A importância deste serviço de itinerância com caráter cultural, lúdico e presencial mantém-se, atualizou-se e reforça-se», afirma António Bento Ramires, que começou a trabalhar na biblioteca itinerante em 1987.

Admitindo que os hábitos mudaram, pois agora «as aldeias têm menos crianças», o bibliotecário, o único em exercício que vem do tempo do projeto da Gulbenkian, realça que «é através dos livros que se faz sempre a ligação» com as populações, que veem no projeto um serviço de confiança e proximidade.

«Indo à casa das pessoas e, muitas das vezes, este bater à porta para levar um livro e ter uma pequena conversa, nem que seja de cinco minutos, é um bálsamo para alguém que está em isolamento e afastado até das próprias notícias e do mundo», sublinha.

Utilizador do projeto no tempo da Gulbenkian, no início da década de 1980, o presidente da Câmara de Redondo, David Galego, conta que a chegada da biblioteca itinerante à sua terra, Aldeias de Montoito, era «dos momentos altos» da semana.

«Íamos buscar os livros para poder ler, tínhamos uma semana, depois voltávamos a devolvê-los e ainda ouvíamos algumas histórias e partilhávamos momentos agradáveis com quem nos visitava», lembra, assinalando que ficou o legado desse projeto.

Tal como nesse tempo, acrescenta, a importância da iniciativa mantém-se, mas, agora, «com uma vertente muito mais abrangente», juntando atividades de proximidade e de combate ao isolamento, entre outras, às funções de biblioteca.

A Biblioteca Itinerante de Redondo, que, entretanto, «ganhou» o nome do seu primeiro bibliotecário, Armando Carmelo, inclui, além do empréstimo gratuito de livros, projetos de alfabetização, promoção de leitura e integração, entre outros.

Com cerca de 600 documentos, esta valência conta ainda com jornais, material audiovisual, jogos e brinquedos e integra quatro computadores com acesso à internet sem fios e uma fotocopiadora.

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