Nasceu há 60 anos, em Aljustrel, e há mais de quatro décadas que colabora de forma regular na imprensa nacional, assinando cartoons que já fazem parte da história do jornalismo português. Todos os dias, os leitores do “Público”, de “A Bola” ou do “Negócios” convivem com as personagens criadas por Luís Afonso, respetivamente, no “Bartoon”, no “Barba e Cabelo” e no “SA”, e com os seus comentários à atualidade, quer seja política, desportiva, económica ou sobre qualquer outro tema que considere pertinente e motivo de escárnio e maldizer.
Mas a sua atividade autoral não se ficou pelo cartoon, tendo-se aventurado pela escrita e pelo audiovisual, uma vez que se considera «uma pessoa insatisfeita» a fazer sempre a mesma coisa e gosta de «experimentar» novas linguagens.
Em 1985, ainda estudante da Faculdade de Letras de Lisboa, onde se licenciou em Geografia, começou a colaborar com o extinto “O Diário”, no suplemento de fim de semana, e por lá continuou durante uns anos. Ao mesmo tempo, começou a publicar no então trissemanário “A Bola”, onde nasceu a tira “Barba e Cabelo”, inspirada no barbeiro da sua terra.
Seguiu-se, já em 1991, a “Grande Reportagem”, na altura dirigida por Miguel Sousa Tavares, com “Lopes, o escritor pós-moderno”. Dois anos depois, em 1993, com o “Bartoon” — que tinha substituído o “Guarda Ricardo”, de Sam, nas páginas do jornal “Público” —, ganhou o Prémio Nacional de Cartoon atribuído pelo Clube de Jornalistas.
Antes, em 1988, regressou ao Alentejo e instalou-se em Serpa, onde ainda hoje reside. Trabalhou como professor do ensino secundário, em autarquias e em projetos de desenvolvimento local até 1995, ano em que passou a dedicar-se exclusivamente a «fazer bonecos», uma descrição do seu trabalho feita por uma antiga vizinha que, em determinada altura, queria que ele assumisse a direção do condomínio do prédio onde viviam porque, afinal, o marido dela «trabalhava» e ele não fazia nada.
Mas nem só de cartoons é feita a obra de Luís Afonso: em 2012 saiu “O Comboio das Cinco”, um texto humorístico, entremeado de comentários do já mencionado “Lopes, o escritor pós-moderno”; seguiu-se, em 2016, o livro de contos “O Quadro da Mulher Sentada a Olhar para o Ar com Cara de Parva e Outras Histórias”; e, em 2022, “A Morte de A a Z”, uma série de microcontos, todos publicados na Abysmo, dirigida por João Paulo Cotrim. Nesse ano saiu ainda “O Chef”, um pequeno texto integrado na coleção Contos Singulares, da Relógio d’Água.
Antes, na editora Contexto, de Manuel de Brito, tinha publicado quatro livros de cartoons (“Bartoon” 1, 2 e 3 e “Seleção”). Depois, na Dom Quixote, publicou mais três (“Bartoon 10 anos”, “Sociedade Recreativa” e “Futebol por Linhas Tortas”). Na Prime Books saiu “Ribanho”, com textos seus em parceria com o desenhador mourense Carlos Rico, que resultou de uma colaboração com o “Diário do Alentejo”, de Beja. Por último, assinou “Mínimos Olímpicos”, editado pela Avenida da Liberdade.

Até ao ano passado, e durante oito anos, deu voz a uma série de insetos que diariamente se moviam na RTP 1, numa animação intitulada “A Mosca”. Mas a sua experiência no audiovisual fica ainda assinalada com a curta-metragem “Everestalefe”, uma parceria com Sibila Lind, filmada em 2018 e montada em 2019, trabalho que foi selecionado para a edição desse ano do Directors Circle Festival of Shorts, na Pensilvânia, Estados Unidos da América.
No passado dia 19 de março, foi lançado em Lisboa, na Casa da Imprensa, ao Chiado, mais um livro, desta vez escrito a quatro mãos, com Jorge Adelar Finatto, um escritor e juiz jubilado brasileiro que conheceu há uns anos via email e de quem se tornou amigo.
Como surgiu esta parceria?
O Jorge vem, há anos, frequentemente a Lisboa e nessas estadas tornou-se leitor do “Público” e do “Bartoon”. Ainda antes da pandemia enviou-me um livro seu [“Navegador de Barco de Papel”]. O livro foi para a redação durante esse período e só me chegou às mãos por volta de 2020. Enviei-lhe um email a agradecer e, a partir dessa altura, começámos a trocar mensagens com alguma regularidade e ficámos amigos sem nunca nos termos encontrado. Entretanto, surgiu a hipótese de podermos fazer um livro em conjunto. A ideia inicial foi a de um escrever um texto e outro continuar, estilo «cadáver esquisito», mas, como temos estilos completamente diferentes, optámos por escrever uma coisa a duas vozes. E o que me veio à cabeça foi uma história de um autocarro, para mim, e um ônibus, para ele. Ou seja, duas histórias paralelas.
O que nos pode dizer sobre este «O Ônibus Autocarro»?
Foi também ser editado pela Abysmo e tem a particularidade de ser escrito em duas variantes de português. O Jorge escreve no português do Brasil, eu escrevo no de cá. Tal como sempre nos correspondemos, e sempre nos entendemos. Quanto à estrutura, são 20 capítulos, 10 do Jorge e 10 meus. Ele numa prosa mais poética, eu num registo menos absurdo do que nos livros anteriores.
A sua atividade criativa começou em 1985 com alguns cartoons no suplemento de fim de semana de “O Diário” e depois estendeu-se a outros títulos, nomeadamente “A Bola”, “Grande Reportagem”, “Público”, “Jornal de Negócios” e a outras áreas, como a escrita e o cinema. Como se definiria enquanto autor?
Ora deixa cá ver… Não vou usar o «homem dos sete instrumentos» porque tem direitos de autor [Sérgio Godinho]. Considero-me, de certa forma, uma pessoa insatisfeita se estiver sempre a fazer a mesma coisa. Tenho uma vontade de experimentar outras linguagens. Ainda que acabe por manter a minha atividade principal, que é a de cartoonista.
Curiosamente, nunca teve um blog, nem tem redes sociais…
Nunca tive um blog porque, quando apareceram, eu já tinha muita exposição diária em jornais e não senti a necessidade, nem vontade, de dizer mais. Quanto às redes sociais, tomei essa decisão logo no princípio. Eu apercebi-me logo de como é que iria ser e que, para o meu tipo de temperamento, aquilo não funcionaria porque sou uma pessoa que responde a toda a gente. Devolvo as chamadas, respondo aos emails e apercebi-me de que, com a minha atividade, não seria compatível, pois ficava sem tempo para mais nada. Eu sei que, hoje, há pessoas que têm gestores das suas redes sociais, mas, na altura, essa questão nunca se colocou. Não sou antissocial, antes pelo contrário. Gosto de conviver e, se for com uma cervejinha à frente, ainda melhor, mas aquele tipo de socialização no ecrã — seja pequeno ou seja grande — é uma coisa que não me agrada. Passo horas e horas por dia a olhar para o monitor a trabalhar e daria cabo dos olhos e da cabeça. Pela mesma razão também não vejo televisão…
O mundo anda de pernas para o ar. Na política, na sociedade em geral, até no clima. Profissionalmente, facilita-lhe a vida ou, enquanto cidadão, angustia-se?
As duas coisas são verdade. Quando as coisas não funcionam é mais fácil trabalhar, uma vez que o cartoon incide sempre em coisas que não funcionam, sobre coisas que estão mal, porque integra uma forte componente crítica. Digamos que, em termos de «mercado», há mais oferta para trabalhar. Como cidadão, obviamente, são coisas que me angustiam. Ou seja, ajuda, mas escusava de ajudar tanto. É que tenho filhos e a malta nova vai herdar um mundo muito pior do que aquele que nós tivemos. Durante gerações houve sempre a convicção de que os nossos filhos iriam ter uma vida melhor do que a nossa. Esta é a primeira geração que tem consciência de que isso, eventualmente, não irá acontecer. E isso angustia-me.

Mudando de tema, mas não de assunto. Nasceu e viveu quase sempre no Alentejo, durante a sua vida viu a Barragem de Alqueva ser construída. Ainda tem esperança de rever o comboio direto de Beja a Lisboa e Faro, a autoestrada de Sines até à fronteira, em Ficalho, ou o aeroporto a ser verdadeiramente aproveitado?
Em Alqueva, durante anos, até lá tinham escrito «construam-me, porra!» e instalou-se na cabeça dos alentejanos que aquilo nunca iria ser construído. Mas o Alqueva que se imaginava e poderia transformar o Alentejo é uma coisa que não correspondeu ao que veio a acontecer na região. A economia mudou, não quero dizer se para melhor ou para pior, mas o impacto que teve na qualidade de vida das pessoas não foi o que se esperaria. E não quebrou o êxodo rural. Faltou um golpe de asa de forma a aproveitar toda aquela água. Para diversificar. Dantes havia a monocultura do cereal e agora passou a haver o regadio, olival intensivo, amendoal…
E em relação aos outros projetos, autoestrada, comboios, aeroporto…
Em relação à ferrovia, devemos ser um caso de estudo porque o País tem menos quilómetros de via férrea do que havia há 100 anos, o que é absolutamente ridículo. Quando vim morar para Serpa, em 1988, o comboio ainda funcionava no concelho. O que se deveria ter feito nos anos 90, com aquela quantidade de dinheiro da União Europeia, era ter investido na via férrea, que é vista em todo o mundo como o meio de transporte do presente e do futuro. Nós somos um país anacrónico porque apostámos durante anos no transporte do passado. Se o território estivesse devidamente ligado, o comboio resolveria a necessidade da grande maioria das pessoas. Era preciso que alguém, nos idos de 90 — até me lembro de um primeiro-ministro que escreveu um livro “Arte de Governar” [Aníbal Cavaco Silva] e que geriu todo esse dinheiro — tivesse tido a visão de perceber que o comboio era o transporte do futuro e não apostar apenas em autoestradas, algumas lado a lado. No entanto, isso não impede que eu ache que a A26 deveria ser de Sines a Ficalho, na fronteira, e que as três capitais de distrito, Beja, Évora e Portalegre, também deveriam estar ligadas por autoestrada. Não é uma contradição.
A regionalização, caso tivesse avançado, poderia ter mudado isso?
Nunca fui um adepto incondicional da regionalização. Tenho simpatia pela ideia, mas, usando a linguagem futebolística, nunca fui um ultra. Mas o Alentejo, se fosse uma região pensada de outra maneira, com diversidade, já veria a coisa de forma diferente. Desde que as pessoas que estivessem à frente desse processo não fossem segundos quadros dos partidos à procura de uma rampa de lançamento. Deveriam ser pessoas na sua «cadeira de sonho».












