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Há um novo pulsar no coração da Serra de São Mamede

A paisagem tradicional, de soutos e pomares de cerejeiras e macieiras, tem vindo a ganhar terreno aos eucaliptos e pinheiros. Mas é sobretudo a chegada de novos moradores que está a transformar a Serra de São Mamede. Luís Godinho (texto) e Cabrita Nascimento (fotografia)

Ao contemplar a paisagem, com a Barragem da Apartadura em baixo, Marvão lá bem no cimo, a atenção de Abílio Amiguinho desvia-se para uma pequena flor à beira da estrada: “Olha, olha para isto: uma ro- seira brava e esta tem a flor rosinha, costumam ser brancas”. Seguimos viagem ao encontro de Leonor Gomes, uma das novas habitantes no “coração” da Serra de São Mamede. Antes haveremos de subir ao topo e provar cerejas.

“Isto era tudo pinheiros e eucaliptos, e uma mancha de silvas, mas o pessoal assustou-se muito com o grande incêndio de 2003 e a paisagem tem vindo a mudar, plantam-se soutos e pomares de cerejeiras e macieiras. Sim, podemos falar de um recuo das árvores de crescimento rápido, substituída por espécies autóctones”, diz-me o professor jubilado do Instituto Politécnico de Portalegre, morador na Serra há uns bons 20 anos.

Passamos por diversas unidades de turismo rural, algumas delas resultado da recuperação de casas que estavam em ruína, quando o pequeno lugar de Reveladas se revela: “Ali mora um professor, esta casa é de um holandês, lá mais abaixo vive uma senhora alemã, há por aqui gente de muitas nacionalidades”.

Alcançado o topo – “é uma pena essas antenas para aí continuarem, algumas delas sem qualquer utilidade, apenas para estraga- rem a paisagem” – é tempo de seguir pelo Vale de São Julião, onde João Reia nos aguarda na Quinta do Salto da Pega, hoje conhecida como Monte das Cerejeiras. Com 81 anos, foi um dos pioneiros na plantação de cereja. “Já havia aí pela Serra umas cerejeiras antigas, que davam aquelas cerejas vermelhas, rosadas, a que chamávamos morangão. O meu pai veio para aqui como rendeiro, eu comecei a andar nos mercados, a ganhar interesse pelas cerejas e plantei as primeiras árvores há uns 65 anos”, conta.

A azáfama neste final de maio ainda não é grande. A campanha está no início e, pior, o ano não correu de feição. “Tinham muita floração, era um espetáculo, mas vingaram poucas, sabe-se lá porquê. Depois caiu aqui uma quantidade de granizo… com a idade que tenho não me recordo de uma coisa igual”, desabafa João Reia.

Ainda que com menos cerejas, a campanha terminará neste início de julho. Resultado do cruzamento da cerejeira brava (Prunus avium L.) com as variedades autóctones da zona de Portalegre, a Cereja de São Julião é um produto com Denominação de Origem Controlada e uma das imagens de marca da Serra de São Mamede. “Nasci aqui neste monte, aqui fui criado e aqui tenho vivido sempre, exceto nos 28 meses de guerra que passei em Moçambique”.

João Reia não é caso único, mas muitos foram os moradores da Serra que daqui saíram para encontrar trabalho noutras paragens. De há uns anos para cá, garante Abílio Amiguinho, o movimento passou a ser o inverso, com a chegada de novos moradores.

É o caso de Leonor Gomes. Veio com o marido e com o filho. “Vivíamos na zona do Carregado, com muito trânsito, camiões de um lado para o outro, no verão o ar parecia irrespirável, tal a poluição. Começámos à procura de um sí- tio diferente, de um modo de vida mais calmo, também por queremos dar uma outra qualidade de vida ao nosso filho, mais em contacto com a natureza, e encontrámos este pequeno paraíso”, conta. Fica nos Alvarões, freguesia de São Salvador da Aramenha (Marvão). “Na verdade tivemos uma grande sorte, aqui está a ficar im- possível de encontrar seja o que for”. Foi há um ano e meio. A casa, que estava em ruínas, está agora recuperada. A pequena propriedade em volta é que ainda precisa de (muitos) cuidados.

Para a mudança de vida ajudou o facto de o marido, Pedro André, ser designer, o que lhe permite trabalhar, à distância, para uma empresa do Carregado. E, depois, a integração foi rápida: “Achávamos que íamos estar um pouco isolados, que não ia acontecer nada, mas na realidade não é assim. Ficámos logo a conhecer o José Castelinho e a mulher, o Zé que é padeiro e a Joaquina, costureira, os vizinhos ali de cima… temos um grupo de WhastApp que reúne todos os vizinhos até Cáceres [Espanha]”. É uma comunidade em construção.

“Quando aqui cheguei, há 20 anos, não havia crianças, os mais novos teriam 17 ou 18 anos pois já estudavam na Escola Mouzinho da Silveira, em Portalegre. Hoje são já umas sete, fazendo uma contagem rápida”, refere Abílio Amiguinho, entusiasmado com o “rejuvenescimento” da Serra de São Mamede. “Nessa altura”, lembra, “restavam os últimos moicanos, os que se recusavam a abandonar as suas coisas. Muitos deles ainda permanecem; agora há muitos mais casais novos. Nalguns casos porque tinham aqui raízes, outros porque resolveram mudar de vida, sobretudo depois de 2021, depois da pandemia”.

Primeiro chegaram os estrangeiros, designadamente ingleses, “para desfrutar da reforma na margem direita do Rio Xévora, que nasce aqui na Serra”, agora são essencialmente portugueses, “gente mais nova, que trabalha à distância ou que desenvolve os seus próprios projetos, nas aromáticas, na pequena agricultura, até mesmo no turismo”.

Diz-lhe a sua veia de sociólogo que seria oportuna “uma intervenção sistemática” por parte dos poderes públicos para acolher quem se quer instalar na Serra, “talvez um gabinete de apoio aos novos residentes, mas é capaz de ser uma coisa que não passa pela cabeça de ninguém”. Faz falta. “Há todo um mundo de burocracia que as pessoas não sabem como enfrentar”.

Em boa parte do Alentejo, lembra Abílio Amiguinho, “temos assistido a uma radical transformação da paisagem”, com o crescimento de explorações agrícolas intensivas de olival e de amendoal, o que não sucede na Serra de São Mamede, onde, pelo contrário, as espécies autóctones têm vindo a reconquistar terreno.

“Sempre houve olivais no Alentejo, mas eram tradicionais, agora é tudo intensivo. Aqui encontramos pequenos olivais tradicionais, mas sobretudo soutos e pomares de cerejeiras, bem como a recuperação dos castinçais, matas de castanheiros mais próximas das tradicionais, onde se juntam bravos e enxertados”, acrescenta o antigo professor, também ele pequeno agricultor e produtor de cereja para consumo doméstico.

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